O cinema mais antigo da Alemanha | Colunas semanais da DW Brasil | DW | 18.11.2019
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Coluna Checkpoint Berlim

O cinema mais antigo da Alemanha

Inaugurado em 1907, em Berlim, o Moviemento sobreviveu a muitas transformações ao longo de sua história. Frequentado por David Bowie, Iggy Pop e Tom Tykwer, o cinema agora está ameaçado pela especulação imobiliária.

Fachada do cinema Moviemento, em Berlim

Localizado no distrito de Kreuzberg, Moviemento é cinema mais antigo da Alemanha ainda em funcionamento

Os processos de digitalização e modernização vieram numa velocidade acelerada e atingiram em cheio a indústria cinematográfica. Lembro-me de quando criança no Brasil costumava ir a cinemas grandes de rua construídos no centro da cidade, mas já na minha adolescência esses locais sucumbiram e deram lugar a salas padronizadas de shoppings. Praticamente do dia para noite, a comodidade acabou matando uma tradição surgida há décadas.

Aqui em Berlim, sem o avanço de shoppings, ainda restam muitos cinemas de rua, 91 ao todo, inclusive o mais antigo dos 1.672 cinemas em funcionamento na Alemanha, inaugurado em 1907, na rua Kottbusser Damm.

O cinema Moviemento sobreviveu a transformações da indústria cinematográfica com muita história para contar. Com três diferentes salas, que possuem entre 60 e pouco mais de 100 lugares, o local está longe de ser um cinema moderno, como estamos acostumados no Brasil, mas tem seu charme. A recepção é decorada com cartaz de filmes exibidos ali e, além de pipocas, os visitantes podem também comprar cerveja para beber durante a sessão.

Nos seus 112 anos, o Moviemento já teve diversos nomes e donos. Passou ainda por várias reformas. Foi frequentado por lendas da música, como David Bowie, Iggy Pop e Nina Hagen. Na década de 1980, o hoje diretor de cinema Tom Tykwer trabalhou no local como projecionista e, posteriormente, foi responsável pela programação do espaço.

Às vésperas de completar 100 anos, o cinema ia mal das pernas, correndo o risco de fechar suas portas. Foi quando Iris Praefke e Wulf Sörgel assumiram o local. Após uma reforma, reabriram o Moviemento em março de 2007. O casal conseguiu salvar o antigo cinema e, em menos de 10 anos, mais do que quintuplicar o número de espectadores, passando dos 16 mil em para 86 mil em 2016.

O local passou a exibir filmes para todas as idades e em diversos horários, com sessões matinais e vespertinas para grupos escolares. Passou também a receber festivais, inclusive um evento tradicional do cinema pornô.

Tudo parecia indo bem até outubro, quando Praefke e Sörgel receberam a notícia de que o proprietário do imóvel, a Deutsche Wohnen – uma empresa que possui 114 mil apartamentos na cidade e péssima reputação –, colocou o espaço à venda por 2 milhões de euros. O casal teme, e com razão, que, ao mudar de mãos, o aluguel deverá subir consideravelmente, inviabilizando a continuidade do cinema.

Para tentar salvar o cinema mais antigo da Alemanha, Praefke e Sörgel resolveram tentar comprar o espaço e, com ajuda de amigos, já arrecadaram 400 mil euros. Eles criaram ainda uma campanha de financiamento coletivo para reunir o valor restante.  

Um dos defensores mais famosos do Moviemento, o diretor Tom Tykwer criticou a transformação econômica que está acabando com a vida característica e a identidade de Berlim. “Estamos destruindo a cidade assim”, destacou, em entrevista a uma emissora de rádio local.

Os donos do Moviemento esperam chegar a um acordo com a Deutsche Wohnen e acreditam que a empresa de capital aberto do setor imobiliário não vai querer entrar para a história como aquela que destruiu o cinema mais antigo da Alemanha. A gigante do setor tem se recusado a falar sobre o tema.

Hoje com 112 anos, o Moviemento está novamente ameaçado e sua sobrevivência depende muito, infelizmente, de uma empresa que tem contribuído em peso para a especulação imobiliária que está tornando os preços dos aluguéis em Berlim impagáveis.

Clarissa Neher é jornalista da DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã. Na coluna Checkpoint Berlim, escreve sobre a cidade que já não é mais tão pobre, mas continua sexy.

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