O cenário desesperador enfrentado por Manaus em meio à pandemia | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 23.04.2020
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Coronavírus

O cenário desesperador enfrentado por Manaus em meio à pandemia

Única cidade do Amazonas com leitos de UTI, capital vê sistema de saúde entrar em colapso, e cemitérios abrem valas comuns diante da explosão de casos de covid-19. Ministérios públicos apelam ao governo federal.

Cemitério Nossa Senhora Aparecida, Manaus

Média diária de enterros em Manaus saltou de 28 para 80, e valas comuns foram abertas

O Amazonas registra uma das maiores taxas de mortalidade em decorrência da covid-19 no Brasil, e a doença causada pelo novo coronavírus vem sobrecarregando o sistema de saúde. Em Manaus, médicos sofrem com a falta de equipamentos de proteção, superlotação e salários atrasados, enquanto cemitérios da cidade registram um salto no número de enterros realizados por dia e abrem valas comuns.

Diante da grave situação, o Ministério Público do Estado do Amazonas, o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Trabalho enviaram ao Ministério da Saúde nesta quinta-feira (23/04) um pedido de acompanhamento, auditoria e controle das medidas adotadas pelo Amazonas para enfrentar a pandemia.

Apontando falta de transparência quanto a ações e gastos, os órgãos pedem uma apuração urgente, em até três dias, sobre a maneira como o estado vem lidando com a disseminação da covid-19, a doença respiratória causada pelo novo coronavírus. São 67 considerações que embasam o pedido, entre elas um vídeo no Hospital e Pronto-Socorro João Lúcio, um dos três da capital, com corpos ao lado de pessoas internadas, e um vídeo de um paciente com um saco plástico na cabeça, improvisando um respirador.

"O Amazonas há uns 20 anos aparece como um dos estados com maior investimento em saúde, e boa parte dos municípios sequer tem hospital. O sistema é caótico diariamente, secretários de Saúde já foram presos por corrupção, mas faltava uma pandemia para colapsar", resume o deputado estadual Serafim Corrêa, ex-prefeito de Manaus

Nas sessões virtuais da Assembleia Legislativa, Corrêa vem cobrando transparência, o uso de leitos do Hospital Universitário Getúlio Vargas como alternativa ao aluguel de espaços particulares e o pagamento de salários atrasados de médicos e enfermeiros que estão na linha de frente no combate à doença.

A DW Brasil solicitou à assessoria de imprensa do governo estadual informações sobre os gastos relacionados a medidas de enfrentamento à covid-19 e sobre o não pagamento de salários atrasados de médicos e enfermeiros, e até a tarde desta quinta-feira, não obteve resposta.

Diante da situação precária, médicos e enfermeiros de um dos prontos-socorros públicos de Manaus, o Platão Araújo, organizaram uma vaquinha online para arrecadar dinheiro para produzirem seus próprios equipamentos de proteção individuais (EPIs).

"Estamos passando o dia inteiro com os mesmos EPIs, máscaras, luvas, infectando paciente suspeito. É desesperador. Quem entra suspeito em qualquer pronto-socorro com certeza sai com covid-19 e volta", disse uma enfermeira que não quis se identificar.

Em respostas enviadas à DW Brasil após a publicação inicial desta reportagem, o governo do Amazonas afirmou não haver falta de EPIs, mas sim "controle e orientação aos profissionais sobre o uso correto dos itens", cujos estoques são limitados.

Assistir ao vídeo 00:50

Em meio a pandemia, Manaus abre dezenas de covas

A cardiologista Wládia Albuquerque está trabalhando num projeto de um grupo de médicos que pretende atender cardiopatas, especialmente idosos, em casa, para tentar ajudar a não superlotar os hospitais da capital. "Precisamos reunir todos os esforços para evitar que as pessoas se dirijam aos hospitais com qualquer outro problema que não seja agravamento de sintomas da covid-19, porque não há leitos [suficientes]", diz.

A médica Melissa Veiga, que dá plantões nos três prontos-socorros públicos da cidade, diz que, infelizmente, é habitual ver os locais lotados. "Pacientes nos corredores já é comum, agora está pior. Mas é importante alertar que não é para ignorar falta de ar e cansaço [e deixar de procurar atendimento], pois a evolução do vírus tem se mostrado numa rapidez tremenda aqui."

Fora Manaus, nenhum dos hospitais dos outros 61 municípios amazonenses têm leitos de UTIs. Na capital, com cerca de 2 milhões de habitantes, há apenas 293 leitos fixos na rede estadual (privados e públicos) em UTIs e oito ambulâncias, agora freneticamente ativas. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, todos os leitos das UTIs estavam ocupados nesta quinta-feira. No momento, considerando também os hospitais de campanha, há 1.026 leitos de UTI, dos quais 748 exclusivos par covid-19, segundo o governo.

"Hoje não há nenhuma vaga, nem pagando, em UTI ou semi-intensivo aqui neste hospital. O ápice da contaminação [pelo coronavírus] deve ocorrer na primeira quinzena de maio, e, se não houver urgência em abertura de novos leitos, vai ter gente morrendo em casa ou a caminho do hospital", disse à DW Brasil um médico intensivista de um hospital particular que pediu para não ser identificado.

Pesquisa parada

Segundo o pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Felipe Naveca, o novo coronavírus, batizado de Sars-Cov-2, sofreu pelo menos nove mutações até chegar ao Amazonas. Naveca lidera o grupo que fez o primeiro sequenciamento do genoma completo do vírus na região Norte.

"Até o momento, não se pode dizer se o vírus daqui é mais 'eficiente' ou provoca casos mais graves. Pode ser, mas não podemos especular, precisaríamos de vários grupos, de quadros graves e leves, para poder fazer analogias necessárias no campo de uma pesquisa", afirma Naveca.

"Só que há dez dias paramos a pesquisa. Não conseguimos avançar porque estamos sobrecarregados ajudando nos diagnósticos, para ajudar a minorar a sobrecarga do sistema", conta.

O primeiro caso de infecção pelo Sars-Cov-2 no Amazonas foi registrado no dia 13 de março, e a primeira morte, no dia 24. De 26 de março a 12 de abril,  os casos confirmados de covid-19 na capital saltaram de 63 para 560, um crescimento de 788%. Na cidade de São Paulo, recordista em doentes, por exemplo, o aumento foi de 373% no mesmo período.

Valas comuns

A reportagem da DW Brasil foi a um dos maiores cemitérios de Manaus, o Parque Tarumã, mas não conseguiu entrar. No portão, policiais disseram que só podem entrar até cinco familiares por enterro. Havia uma fila de carros. Todas as pessoas usavam máscaras.

Nos últimos dias, alguns dos enterros foram realizados em valas coletivas, mostram vídeos e fotos que circulam pela internet. A Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semuslp) não negou o fato e afirmou que o uso de valas comuns em casos de mortes pela doença deverá ser recorrente para agilizar os enterros. Velórios não são permitidos em casos de covid-19, e os corpos devem ser sepultados logo após liberados pelos hospitais.

"A metodologia [da vala comum], já utilizada em outros países, preserva a identidade dos corpos e os laços familiares, com o distanciamento entre os caixões e com a identificação das sepulturas", afirmou a secretaria em nota.

Segundo a secretaria, até fevereiro, eram realizados, em média, 28 enterros por dia em Manaus. Hoje, a média diária é de 80 sepultamentos nos 11 cemitérios da capital, sendo dez deles públicos. O primeiro crematório do Estado, no município de Iranduba, vizinho de Manaus, deve ser inaugurado no início de maio.

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