Novos áudios mostram preocupação de Queiroz com investigação | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 27.10.2019
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Brasil

Novos áudios mostram preocupação de Queiroz com investigação

Ex-assessor ligado à família Bolsonaro é suspeito de envolvimento num esquema de "rachadinha". Gravações revelam ainda que presidente teria tratado com Queiroz exoneração de funcionária fantasma do gabinete de Carlos.

Jair e Flávio Bolsonaro

Queiroz é próximo da família Bolsonaro desde a década de 1980 e foi assessor de Flávio durante anos

Áudios divulgados neste domingo pelo jornal Folha de S. Paulo mostram que o ex-policial militar Fabrício Queiroz, pivô do escândalo que atingiu um dos filhos de Jair Bolsonaro no final de 2018, estava preocupado com a investigação do Ministério Público do Rio contra ele.

O ex-assessor de Flávio Bolsonaro é suspeito de envolvimento em um esquema de "rachadinha", prática em que servidores de gabinetes devolvem parte de seus salários a parlamentares.

"É o que eu falo, o cara lá está hiperprotegido. Eu não vejo ninguém mover nada para tentar me ajudar aí. Ver e tal. É só porrada. O MP [Ministério Público] tá com uma pica do tamanho de um cometa para enterrar na gente. Não vi ninguém agir", diz Queiroz num áudio teria sido enviado pelo WhatsApp em julho.

A Folha de S. Paulo afirma que não possível determinar quem seria a pessoa que estaria sendo protegida, mas segundo o jornal O Globo, que teve acesso ao áudio completo, Queiroz estaria falando em Adélio Bispo, autor de um atentado a faca contra Jair Bolsonaro durante a campanha eleitoral. Apesar de a investigação da Polícia Federal ter concluído que Adélio agiu sozinho, os áudios indicariam que o ex-assessor de Flávio acredita que ele teria sido contrato por alguém e estaria sendo protegido.

Amigo pessoal de Jair Bolsonaro, Queiroz ocupou por mais de uma década um cargo de assessor no gabinete do filho mais velho do presidente, Flávio Bolsonaro, na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Ele foi exonerado em 16 de outubro do ano passado, pouco depois de Flávio ter sido eleito senador e Jair Bolsonaro ter passado para o segundo turno do pleito presidencial.

Em dezembro, a imprensa revelou que um relatório do antigo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou que Queiroz movimentou 1,2 milhão de reais em uma conta bancária entre 2016 e 2017 e recebeu vários depósitos de outros assessores de Flávio, muitas vezes em datas próximas do pagamento dos salários na Alerj.

A movimentação logo levantou a suspeita de que ele era o administrador de um esquema de "rachadinha". Depois disso, Queiroz apareceu raramente e em algumas ocasiões deu explicações contraditórias sobre a movimentação. Na última quinta-feira, o jornal O Globo divulgou áudio em que ele discute indicações para cargos em Brasília.

"Lapidar bagunça" do PSL

Nos áudios divulgados pela Folha de S. Paulo neste domingo, Queiroz também expressa o desejo de voltar ao PSL, partido de Bolsonaro, para ajudar o presidente a "lapidar a bagunça" no diretório regional do partido no Rio de Janeiro, que atualmente é comando por Flávio.

"Torcendo para essa pica passar. Vamos ver no que vai dar isso aí para voltar a trabalhar, que já estou agoniado. Estou agoniado de estar com esse problema todo aí, atrasando a minha vida e da minha família", afirma.

Queiroz também disse que pretende blindar o presidente. "Politicamente, eu só posso ir para partido. Trabalha isso aí com o chefe aí. Passando essa ventania aí, ficamos eu e você de frente. A gente nunca vai trair o cara. Ele sabe disso. E a gente blinda, a gente blinda legal essa porra aí. Espertalhão não vai se criar com a gente", ressalta.

O ex-PM também lamentou não poder mais atuar a favor da família Bolsonaro devido à exposição de seu nome e criticou o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). "As declarações dele humilha [sic] o Jair. Jair tinha que dar uma porrada nesse filha da puta. Botar o [ministro da Justiça] Sergio Moro para ir no calço [sic] dele", disse.

Funcionária fantasma

Em outro áudio, Queiroz conta que teria tratado com Bolsonaro sobre a demissão de uma funcionária fantasma do gabinete de seu filho vereador, Carlos Bolsonaro, para desvinculá-la da família devido a casos de funcionários laranja contratados pelo presidente e filhos que estavam revelados pela imprensa.

"Na época, o Jair falou para mim que ele ia exonerar a Cileide porque a reportagem estava indo direto lá na rua e para não vincular ela ao gabinete. Aí ele falou: 'Vou ter que exonerar ela assim mesmo'. Ele exonerou e depois não arrumou nada para ela não?", diz num áudio gravado em março.

A funcionária seria Cileide Barbosa Mendes, que trabalhava de doméstica para a família Bolsonaro. Ela foi nomeada ao gabinete de Carlos em 2001 e só foi exonerada no início de 2019. Em setembro, o Ministério Público do Rio abriu uma investigação sobre funcionários fantasmas no gabinete do vereador.

Segundo a Folha, o áudio indica que o presidente não somente administra nomeações e exonerações em seu gabinete em Brasília como também nos de seus filhos.

Segundo o jornal, os áudios foram enviados pelo WhatsApp a um interlocutor não identificado, e a pessoa que repassou as gravações à Folha pediu para ter o nome não divulgado.

Em nota, o advogado de Queiroz, Paulo Klein, negou qualquer crime por parte de seu cliente. Sobre o caso de Cileide, Klein disse que era preciso ter acesso à conversa completa.

"A transcrição parcial e clandestina retira o contexto em que as questões foram colocadas. Poderá induzir o público em erro, fazendo com que a convicção deste se forme através de frases soltas e sem a devida contextualização", afirmou Klein. 

À Folha de S. Paulo, o advogado de Flávio, Frederick Wassef, disse que não teve acesso aos áudios na íntegra, além de não saber as origens e período das gravações e, por isso, não iria se manifestar.

CN/ots

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