Nomear filho para embaixada seria impensável na Europa, dizem analistas | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 16.07.2019
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Brasil

Nomear filho para embaixada seria impensável na Europa, dizem analistas

Bolsonaro reagiu com gozação às críticas sobre sua intenção de ter Eduardo como embaixador nos EUA. Analistas europeus veem indicação como comportamento autocrático e se dizem preocupados com a democracia no Brasil.

Jair e Eduardo Bolsonaro

Jair (dir.) e Eduardo Bolsonaro: confiança familiar ou nepotismo?

Assim o presidente Jair Bolsonaro ridicularizou, nesta segunda-feira (15/07), a crítica da mídia, que ele despreza, à polêmica indicação de seu filho "03" como embaixador do Brasil nos Estados Unidos: "Se está sendo criticado, é sinal de que é a pessoa adequada."

Também seu terceiro filho, Eduardo Bolsonaro, se considera qualificado: "Sou presidente da Comissão de Relações Exteriores [da Câmara], tenho uma vivência pelo mundo, já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos Estados Unidos."

A embaixada do Brasil em Washington foi até agora ocupada por diplomatas de ponta, com longa experiência. O fato de Bolsonaro querer entregá-lo ao advogado formado e político de profissão lembra práticas de regimes como o da Arábia Saudita ou do Uzbequistão, apontam analistas. Em sociedades modernas, a iniciativa causa estranheza.

"Um presidente confiar a seu filho uma função importante – e o Brasil não tem nenhum embaixador mais importante do que o de Washington – seria impensável num Estado europeu. Aqui, não se falaria de uma relação especial de lealdade e confiança, mas sim de falta de transparência e nepotismo", analisa o cientista político Thomas Jäger, da Universidade de Colônia.

Também seu colega Alexander Schmotz, da Universidade Humboldt, em Berlim, considera a indicação "estranha". E o mais problemático, afirma ele à DW, nem é o suposto nepotismo, ou seja, o beneficiar-se do cargo do pai de forma pessoal e lucrativa.

"O que chama a atenção é que conhecemos um procedimento desses antes em autocracias. O motivo por que isso ocorre com tanta frequência em não democracias, contudo, não é a multiplicação da fortuna familiar, mas o fato de os líderes autocráticos serem – e terem que ser – naturalmente desconfiados." Assim, laços familiares são uma certa garantia prévia de confiança.

Em vídeo, Eduardo Bolsonaro apresentou, como parte de sua expertise, a proximidade ao presidente americano, Donald Trump. O caso atual lembra, aliás, a atual presidência dos EUA, em que o genro Jared Kushner é nomeado mediador para o Oriente Médio.

"Com Donald Trump, a questão é a afirmação da marca política 'Trump'. Por isso, leva sua filha Ivanka para conferências internacionais e tenta possibilitar-lhe um perfil político. Pois ele vê nela – não ria – a primeira mulher presidente dos EUA", explica Jäger.

Segundo Schmotz, um "negócio familiar" como esse não é bom para a reputação da democracia americana. "Tais nomeações não contribuem para que se veja a atual administração como competente e eficiente. Elas são também muito reveladoras da noção de democracia do presidente em exercício, e do que é apropriado ou não é."

Deixando a expertise de lado, no Brasil há uma tradição especial de empregar os parentes. Até o momento, contudo, o Itamaraty era uma exceção, orgulhando-se da excelente formação de seus diplomatas. E a embaixada em Washington era sua figura de proa.

"Acho [a possível nomeação] um absurdo", comentou à DW o senador Angelo Coronel (PSD-BA), "pois é uma das embaixadas mais importantes que o Brasil tem. E colocar uma pessoa que não tem know-how e experiência, que, como ele mesmo disse, só fritou hambúrguer nos Estados Unidos e é amigo da família Trump, é um desprestígio ao Itamaraty." Coronel espera que o presidente desista da nomeação: "Juridicamente, não acredito que haja nepotismo. Não é ilegal, mas passa a ser amoral."

No momento, oscilam no Brasil as opiniões sobre se a nomeação seria lícita. A Controladoria-Geral da União e a Advocacia-Geral da União estão elaborando pareceres a respeito, mas a aprovação parece certa. Por sua vez, na semana anterior, o juiz Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), já classificara a indicação como nepotismo.

Democracia só no papel?

Uma nomeação de Eduardo Bolsonaro levantaria questões também no âmbito internacional. Pois em 2018 o deputado foi designado pelo mentor populista Steve Bannon como representante do movimento nacionalista de direita Alt Right na América do Sul.

"Essa nomeação não acalmará o ceticismo, frequentemente expressado na Europa, quanto à evolução da democracia no Brasil", sentencia o cientista político Thomas Jäger. "Ela se encaixa na avaliação de que os procedimentos democráticos só são cumpridos no papel, mas não no espírito, e assim a legitimidade democrática do governo vai sendo gradualmente esvaziada."

Causa de apreensão na Europa é igualmente a aparente proximidade entre as famílias Trump e Bolsonaro. "Quanto mais perto dos Estados Unidos trumpistas, mais longe da Europa: esse é o cerne da avaliação. Por isso, do ponto de vista europeu, o fortalecimento do eixo Brasília-Washington é desfavorável."

Espera-se que o Brasil não siga cegamente a política de Trump, como na política climática. "Certo, porém, é que na Europa considera-se que tanto a democracia americana quanto a brasileira estão em perigo", enfatiza Jäger.

Também Alexander Schmotz preocupa-se com a democracia brasileira. "O Brasil conta entre os países que vivenciaram uma sub-reptícia erosão das instituições e normas democráticas – nos estudos democráticos, nos referimos a democratic backsliding [recaída democrática]. Mas a nomeação do embaixador em Washington representa um papel subordinado. Ela se encaixa no quadro, mas vai ter poucas consequências."

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