″Não há maioria pró-Putin na Rússia″ | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 11.02.2018
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Mundo

"Não há maioria pró-Putin na Rússia"

Alexei Navalny, o mais influente líder oposicionista da Rússia, foi impedido de concorrer nas eleições presidenciais. Em entrevista, ele diz ser possível derrotar o presidente nas urnas – e que Putin sabe disso.

Alexei Navalny é considerado principal opositor de Vladimir Putin

Alexei Navalny é considerado principal opositor de Vladimir Putin

A pouco mais de um mês do pleito presidencial na Rússia, o consenso é que a reeleição de Vladimir Putin é inevitável. No entanto, o político e ex-funcionário da KGB – que governa desde 1999, como primeiro-ministro e presidente – ainda emprega considerável energia em afastar todas as ameaças a um poder absoluto.

Uma delas é o blogueiro Alexei Navalny, de 41 anos, considerado o oposicionista mais influente da Rússia. Sua candidatura para as eleições presidenciais de 18 de março próximo foi rejeitada, sob a alegação de uma condenação prévia por crimes econômicos.

Leia também: Quem é Alexei Navalny, o principal rival de Putin

Preso durante um protesto em Moscou e atualmente em liberdade, Navalny está ameaçado de ter que voltar ao cárcere, possivelmente bem na época da eleição, a qual convocou a população a boicotar.

Em entrevista à DW, ele analisa a atual situação política na Rússia e as razões da aparentemente inabalável influência de Putin no país.

Ele não perde as esperanças de uma mudança: "Podemos alcançar nossa própria maioria, pois trabalhamos de forma realista e perseguimos uma agenda verdadeira." Navalny acredita que a repressão estatal vá crescer, mas diz estar preparado. "Não temos medo. Não vamos desistir."

DW: Em 28 de janeiro, o senhor foi preso numa manifestação não autorizada. Em 18 de março, dia das eleições presidenciais na Rússia, vai estar em liberdade ou atrás de grades?

Alexei Navalny: Ao que tudo indica, vou passar o dia das eleições – "eleições", entre aspas – numa prisão especial. Esse é o plano. Em 28 de janeiro, fui preso e logo em seguida libertado. Mas não recebi os meus documentos de volta. Parece que ainda tenho 30 dias de prisão pela frente. Provavelmente a intenção é que comece em 17 de fevereiro, para eu só ser solto em 18, 19 ou 20 de março.

Que consequências aguardam os participantes das manifestações realizadas em 28 de janeiro, em todo o país?

Os atuais governantes têm duas possibilidades para investir contra o movimento de protesto. Em primeiro lugar, podem proibir todas essas ações, e em segundo impor penas demonstrativas. Pelo menos 40 pessoas foram detidas; algumas já foram libertadas, outras ainda estão em cárcere preventivo.

Acho que o mais importante é não se deixar mais intimidar. As pessoas sabem no que estão se metendo. Para elas, está claro: se continuarmos a ter medo, vão nos fechar o único caminho que temos para expressar nossas visões políticas, que é ir às ruas.

Em 29 de janeiro, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos apresentou ao Congresso um relatório sobre oligarcas e altos funcionários russos, classificados segundo suas fortunas e proximidade ao Kremlin. Como avalia a assim chamada "lista Putin"?

A lista deveria ser muito mais longa. Esse é o núcleo corrupto, os que são os principais beneficiários da corrupção na Rússia. Eu gostaria de vê-los submetidos a sanções individuais. Seria também desejável que eles não vivessem no estrangeiro, não pudessem viajar aí para a Alemanha e voltar nos contando como é horrível na "Gayropa" e que deveríamos optar por um terceiro caminho.

Manifestação em 28/01/2018 em Moscou

Navalny foi preso na manifestação de 28/01/2018 em Moscou, em que convocava ao boicote do pleito presidencial

O que poderá render o boicote deste pleito presidencial que o senhor está reivindicando? Acredita que haja qualquer possibilidade de uma mudança do regime autoritário da Rússia através de eleições?

Claro que acredito. Por isso também me apresentei como candidato, viajei por todo o país, fiz discursos. Apresentei-me também em zonas consideradas absolutamente pró-Putin, como a província de Kemerovo, falei em Novokuznetsk. Tenho certeza que é possível vencer Putin numa eleição. Para dizer a verdade, ele também sabe disso, por isso me impediu de concorrer.

Dizem que a Rússia não precisa de uma revolução, ou de uma Euromaidan – onda de protestos na Ucrânia que levou à queda do presidente Viktor Yanukovytch em 2014. Ao mesmo tempo, dizem que só você consegue levar as pessoas às ruas. Quais são os limites de um protesto pacífico na sua opinião?

Em primeiro lugar, não sou o único que consegue levar as pessoas às ruas. Há muitas pessoas incríveis que realizam protestos em diferentes regiões. Em segundo lugar, eu não levo as pessoas às ruas, mas sim a noção de injustiça. O próprio Putin leva as pessoas às ruas por meio de sua corrupção e de sua gestão incompetente do país.

Atualmente na Rússia existem apenas atos absolutamente pacíficos. Nós vemos que o espírito dos manifestantes é muito mais pacífico que o das autoridades, que transformam qualquer manifestação numa operação militar.

É realista querer transformar a maioria pró-Putin da sociedade numa maioria que deseja mudanças?

Não existe uma maioria pró-Putin, o que existe é gente para quem se criou a ilusão de que não existe ninguém além de Vladimir Putin. Nós falamos com cidadãos de todo o país. Quando se pergunta "Por que você vota em Putin?", eles dizem: "Mas não há ninguém além dele. Putin não nos agrada, mas não existe ninguém mais." É justamente nisso que se baseia o regime de Putin. Não existe uma maioria.

Nós podemos alcançar a nossa própria maioria, justamente porque trabalhamos de forma realista e perseguimos uma agenda verdadeira. Falamos de pobreza, injustiça, distribuição desigual da riqueza e aumento dos custos com saúde e educação. De fato, formamos uma maioria que já inclui cerca de 30% dos habitantes das maiores cidades. Se continuarmos trabalhando nisso, serão muitos mais. Nisso consiste a nossa tarefa; isso é possível.

O quarto mandato de Putin é inevitável. Muitos creem que depois das eleições a repressão vá aumentar, também contra o senhor e os seus seguidores. Está preparado para isso?

Putin não está no poder há um ou dois anos, mas desde 1999. Temos visto que depois de cada reeleição ocorreu um endurecimento da repressão. De outra forma, ele não tem como manter o poder. Por isso as repressões vão certamente aumentar. Mas estamos preparados, não temos medo. Não vamos desistir.

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