Muitos inimigos, muita honra | Colunas semanais da DW Brasil | DW | 28.02.2019
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Coluna Tropiconomia

Muitos inimigos, muita honra

A imprensa brasileira é criticada com regularidade – tanto pela direita quanto pela esquerda. Acima de tudo, perseguiria seus interesses privados. Para o colunista Alexander Busch, isso simplesmente não é verdade.

Os brasileiros podem ter orgulho de seu quarto poder. Em poucas democracias fora dos países industrializados, os jornalistas investigam tão obstinadamente e revelam tantos escândalos quanto no Brasil.

Com isso, ficam cada vez mais impopulares: em 2018, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) registrou 156 ataques a jornalistas, 85 deles digitais e 71 físicos. O número é nitidamente maior do que nos anos anteriores e segue uma tendência mundial: globalmente, os ataques a repórteres estão aumentando, segundo organizações como a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) constatam já há algum tempo.

Por isso, fico espantado com a crítica recorrente no Brasil de que a imprensa brasileira persegue seus próprios interesses e de que é parcial. Veículos como O Globo, Folha e Estadão, assim como várias emissoras de rádio e de TV nos diferentes estados brasileiros, são empresas privadas, sobretudo interessadas no lucro – essa é a crítica comum. Regularmente, diz-se também que a mídia chantageia os respectivos governos, pedindo subvenções em troca de coberturas favoráveis. Além disso, repete-se que várias emissoras costumam pertencer a políticos e que, por isso, relatam de forma unilateral.

É verdade que a Globo dominou o mercado televisivo brasileiro durante décadas, mas já faz algum tempo que isso não corresponde mais à realidade. Também não há dúvidas de que muitos políticos usam suas estações de rádio e de televisão para a ascensão de seus clãs.

Ainda assim, o argumento da "imprensa comprada" não é verdadeiro: em poucas democracias fora dos países industrializados, jornalistas apresentam "furos" com tanta assiduidade como no Brasil.

Nos grandes escândalos do país, como mensalão (2005) – durante o qual descobriu-se que o PT comprava votos de parlamentares – ou Lava Jato (a partir de 2013), quando foram divulgadas as redes de corrupção entre a Petrobras, a Odebrecht e políticos de todos os matizes, a imprensa brasileira e seus jornalistas desempenharam papel decisivo nas revelações.

Durante anos, foi por isso que o PT e seus membros interpretaram como ideologia os constantes novos furos da imprensa sobre o envolvimento dos políticos de suas fileiras nos esquemas. Segundo essas críticas, a "imprensa burguesa" procurava principalmente escândalos no PT, preservando os outros partidos. Ainda durante as eleições de 2018, o candidato presidencial petista, Fernando Haddad, culpou os meios de comunicação por supostamente terem inflado a candidatura do adversário, Jair Bolsonaro, o que teria levado à sua derrota na disputa.

Mas, agora, são exatamente esses veículos "burgueses" que estão revelando os esquemas sujos no entorno do presidente – as suspeitas de desvios de verbas envolvendo o partido de Bolsonaro, as ligações de seus filhos com milícias no Rio de Janeiro, assim como imóveis não explicados do novo presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Tanto quanto o PT o fazia, os integrantes de direita do governo e seus simpatizantes agora xingam a imprensa. São nitidamente mais agressivos: os jornalistas são sistematicamente blindados e humilhados em eventos públicos do governo. Só há "entrevistas" para canais amistosos com o governo.

Sem dúvida, as hostilidades e os ataques a jornalistas continuarão aumentando no curto prazo, uma vez que, também entre a população, o prestígio da imprensa teve queda vertiginosa. Para os jornalistas brasileiros, fica apenas o consolo: se são atacados com praticamente os mesmos argumentos tanto pela direita quanto pela esquerda, é porque parecem estar fazendo seu trabalho corretamente. É como diz o provérbio: muitos inimigos, muita honra.

Novamente: os brasileiros podem ter orgulho de seus jornalistas.

Há mais de 25 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul do grupo editorial Handelsblatt (que publica o semanário Wirtschaftswoche e o diário Handelsblatt) e do jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em São Paulo e Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

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