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Europa chora Ingmar Bergman

31 de julho de 2007

O cineasta sueco faleceu pacificamente em seu retiro na Ilha de Faro. A Europa o pranteia. Morte de Michelangelo Antonioni tornou o mundo do cinema duplamente órfão, em menos de 24 horas.

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Ingmar Bergman marcou o cinema mundialFoto: picture alliance / dpa

A cultura européia pranteia a morte do sueco Ingmar Bergman, ocorrida nesta segunda-feira (30/07). Em pelo menos um ponto, há consenso: o mundo acaba de perder um dos maiores, senão o maior cineasta do século 20, após a Segunda Guerra Mundial.

Em sua terra natal, não há como ignorar que ele foi um dos mais importantes nomes da cultura nacional. Nenhum dos grandes jornais, como o Svenska Dagbladet e o Dagens Nyheter dedicou-lhe, nesta terça-feira, menos de 25 páginas extras.

"Ele sabia que não viveria muito mais"

A televisão sueca deixou de lado a programação normal, irradiando sem parar documentários sobre o criador de mais de 40 filmes, incansável diretor de teatro e ópera e autor de numerosos livros.

O premiê da Suécia, Frederik Reinfeldt, definiu Bergman como "um dos grandes dramaturgos do mundo". "Sua obra é imortal. Espero que seu legado se mantenha por longo tempo e continue a se expandir", comentou. O rei sueco Carl Gustaf igualmente expressou "luto profundo".

Henning Mankell
Henning Mankell, autor policial e genro de BergmanFoto: AP

Henning Mankell, cultuado autor dos romances policiais do comissário Wallander e casado com Eva Bergman, revelou ao jornal online aftonbladet.se: "Eu o vi na semana passada e ele já estava a caminho de se ir. Fico feliz que tenha morrido pacificamente, em sua própria cama, na Ilha de Faro."

"Bergman era uma pessoa complicada, que sobreviveu graças à sua criatividade", explicou. Entretanto, há alguns anos o ato de escrever se tornara cada vez mais penoso para o seu sogro. "Certamente aí ele já sabia que não viveria muito mais tempo", especulou o escritor best-seller.

Inspeção purificadora da alma

Também a ministra francesa da Cultura, Christine Albanel, prestou homenagem ao cineasta, classificando-o como um "pintor da alma e das paixões humanas". Bergman nos deixou um universo que transcende todos os gêneros do filme e do teatro, para alcançar a mais elevada verdade da arte, declarou Albanel.

Segundo sua colega de pasta austríaca, Claudia Schmied: "Jamais comodista, mas tampouco polêmica de forma propagandística, sua estética marcou o cinema europeu e internacional por décadas".

O magazine Spiegel online resumiu: "Ele deixa para trás [...] uma obra que simplesmente se negava a ser acessível, mas que, contudo, permanece obrigatória para toda pessoa realmente interessada em cinema. Os filmes de Bergman podem não ser diversão, porém necessitamos deles como inspeção purificadora da alma."

Confiança na inteligência do público

La Repubblica enumera os motivos por que o mundo deve ser grato ao filho de pastor protestante, nascido em 14 de julho de 1918, na cidade de Uppsala. "Seus filmes, sua inteligência, sua arte, sua poesia. Mas sobretudo devemos agradecer pela confiança que ele sempre depositou na inteligência do público."

"Entretanto Ingmar Bergman teve a sorte de crescer e de se encontrar numa época que confiava em quem acreditava na necessidade de expressar algo importante", continua o periódico italiano. "E seu país lhe permitiu experimentar, se autotestar, e o apoiou (excetuadas algumas desavenças) com aquele desvelo que somente os representantes mais extraordinários da cultura nacional merecem."

Com "desavenças" o jornal provavelmente se refere ao que Bergman classificou como "catástrofe" em sua vida: a época em que foi forçado a deixar a Suécia, acusado de sonegação de impostos. Em conseqüência, ele morou em Munique entre 1976 e 1981.

Caçador de sentido

Deutscher Filmpreis 1961
Bergman (e) recebe o Prêmio Alemão de Cinema em 1961Foto: PA/dpa

O suíço Neue Zürcher Zeitung (NZZ) define assim a importância do mestre: "Bergman transformou o cinema, de uma linguagem de imitação da natureza, em linguagem de meditação. [...] Ele dissolveu [...] todas as certezas ligadas ao tempo, assim arrancando deste também o ferrão. Em seu cinema, purgado de toda a dúvida, o efêmero é presente, deixando de ser efêmero: aqui, a morte é viva e os relógios não possuem mais ponteiros."

O Frankfurter Allgemeine Zeitung fala de um "caçador de sentido num mundo sem deus". "Com poucas exceções, a obra de Bergman confronta com um mundo escuro, mesmo no jogo de luzes, e sobretudo dentro deste." Ele haveria deixado não mais do que dois sucessores "grandiosos": o russo Andrei Tarkóvski (Stalker, O sacrifício), falecido em 1986, e o dinamarquês Lars von Trier (Dogville).

O NZZ ilustrou, aliás, sua homenagem póstuma com uma espirituosa citação de Von Trier. "Sempre senti fortes laços familiares em relação a Bergman. Portanto tenho orgulho de poder afirmar que ele sempre me tratou como a seus próprios filhos: completamente desinteressado."

Bergman e Antonioni: fim de uma época

De seus cinco casamentos, o diretor sueco deixou oito filhos. Ele será sepultado na mesma ilha do Mar Báltico para onde escolheu se retirar, desde o retorno à Suécia, em 1981. Lá ele viveu solitário desde a última produção, Sarabande (2003).

Este final de julho ficará na história do cinema europeu como o fim de uma época. No mesmo dia que Bergman, faleceu, aos 94 anos em Roma, o diretor italiano Michelangelo Antonioni (Blow up). O presidente do Festival de Cannes, Gilles Jacob, comentou: "A comunidade cinematográfica ficou órfã pela segunda vez em 24 horas”.

Fazendo um paralelo entre os dois velhos mestres, o expert de cinema Aldo Tassone disse: "Ambos captaram para nós os medos da sociedade pós-guerra, seu estranhamento crescente". Na véspera, o ator Michel Serrault (79) também morrera na capital francesa, após 50 anos de carreira e 135 filmes, do cinema de autor ao comercial. (av)