Mina da Braskem em Maceió: uma tragédia anunciada
Após quatro décadas de extração de sal-gema, 35 minas na capital alagoana foram desativadas em 2019. Desde então, mais de 14 mil imóveis de cinco bairros tiveram que ser desocupados devido à instabilidade do solo.

Bom Parto: um bairro-fantasma
Quatro anos após o início da evacuação forçada, ruas e casas do bairro Bom Parto estão tomadas por vegetação e animais. O local é hoje um território dividido: metade se tornou um bairro-fantasma, onde invasores chegam a roubar telhados, portas e janelas. A outra, vive em constante alerta, temendo que as 35 minas no subsolo se rompam e desmoronem, como a mina 18, no dia 10 de Dezembro de 2023.
Quase 15 mil casas abandonadas
Até o dia 16 de dezembro, a Defesa Civil estima que 14.600 domicílios tenham sido esvaziados nos bairros de Mutange, Pinheiro, Bebedouro, Bom Parto e Farol, todos em um raio de até 1 km de alguma das 35 minas operadas pela Braskem na região. São aproximadamente 60 mil pessoas migrando para outras áreas da cidade.
Um aviso para não ser esquecido
Um aviso alerta prestadores de serviço, motoristas de aplicativo e de entrega de comida: ali ainda há moradores. São pessoas que vivem em casas isoladas, cercadas de ruínas, aguardando sua vez de receber a indenização que consideram justa. "Frequentemente roubam cabos de energia, nos deixando dias sem luz, entram nos terrenos para roubar as ruínas, ficou muito perigoso", conta um morador, Igor.
Tentativa de uma rotina normal
Igor, 26 anos, e sua família comemoram o aniversário da sobrinha com um churrasco na calçada deserta do bairro Farol, um dos mais antigos de Maceió e também condenado pela extração de sal-gma. Eles estão entre os poucos moradores remanescentes do bairro e aguardam o pagamento do acordo firmado com a Braskem para poderem se mudar.
Ruínas de um passado próspero
Bom Parto: o que hoje é uma encosta de terra e barro foi, até 2019, um bairro repleto de residências de classe média e que chegou a abrigar o maior clube de futebol de Alagoas. As minas de extração de sal-gema funcionaram de 1976 a 2019, criando cavernas subterrâneas - e seu potencial de colapso ameaça a abertura de uma cratera do tamanho do Estádido do Maracanã.
Quatro décadas de extração de sal-gama deixaram seu preço
As minas de extração de sal-gema funcionaram por meio de bombeamento de água para dissolução e extração de sal-gema, a uma profundidade de cerca de 850 metros. Ao longo de mais de quatro décadas, este processo criou cavernas que só recentemente foram parcialmente preenchidas. O risco de colapso obrigou os moradores a deixarem suas casas, agora tomadas pela vegetação.
Malas prontas para saída repentina
A aposentada Sonia Ferreira, de 69 anos, está com uma mala de roupas, remédios e documentos pronta, caso precise sair às pressas de sua casa, no bairro Bom Parto, a poucos metros das minas de Mutange. Há três anos, ela depende de medicamentos para controlar a ansiedade. Sônia quer se mudar para outro bairro, mas não o fez por falta de dinheiro, já que nunca houve um acordo com a Braskem.
Da janela, o lembrente constante do perigo
As casas vazias consumidas pela vegetação são um lembrete contante aos moradores que restam sobre os riscos escondidos no subsolo do bairro Bom Parto. Rachaduras e o o piso afundando impedem há anos os moradores dessas áreas de dormir tranquilamente.
Lembranças de uma época segura
Pela segunda vez em pouco mais de três anos, a família Santos teve que mudar de endereço devido à expansão da área condenada pela Defesa Civil. Tainá dos Santos, de 17 anos, relembra os momentos vividos com seus 11 parentes na antiga casa, como a festa de 15 anos e a formatura do ensino médio. "Nossa antiga casa foi demolida e agora é só lama e sujeira", lamenta.
Redes de pesca vazias
O pescador Valmir Honorato, de 42 anos, lamenta voltar mais uma vez de mãos vazias da inspeção de suas redes instaladas ao longo de 1,5 km na lagoa Mundaú. "Há tanto sal nesta lagoa que arde a pele e os olhos, coisa que não acontecia antes. O único peixe que aguenta estas condições é o bagre, que não vale a pena levar por causa do seu baixo preço", conta.
Patrimônio cultural ameaçado
Desde 2019, quando foi detectado o risco de colapso estrutural das minas, a população de peixes da lagoa Mundaú foi afetada, segundo os pescadores. Além disso, o "sururu", molusco típico e patrimônio cultural de Maceió, não é mais encontrado desde então. Em vez de ser levado para outras partes do Brasil, agora ele é importado de outras cidades.