Médicos aliam-se a soldados para alertar sobre conflitos climáticos | Notícias internacionais e análises | DW | 29.10.2011
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Mundo

Médicos aliam-se a soldados para alertar sobre conflitos climáticos

Estrategistas militares britânicos temem que mudanças climáticas possam ser um dos grandes fatores de multiplicação de conflitos deste século. Ao lado de médicos, eles lutam para chamar atenção sobre o assunto.

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Aquecimento global terá efeitos diretos e indiretos sobre a saúde humana

Soldados geralmente orgulham-se de deixar a política nas mãos dos políticos. Nesta semana, eles decidiram, contudo, falar sobre a assunto em Londres. Oficiais europeus do alto escalão reivindicam uma atitude em relação a um assunto polêmico: as mudanças climáticas.

"Temos reconhecido cada vez mais que, da mesma forma como as mudanças climáticas provocam um impacto ambiental e sócio-econômico, é possível que elas coloquem em risco a estabilidade global e os interesses nacionais", disse Neil Morisetti, almirante da Marinha Real Britânica.

O British Medical Journal (BMJ) convidou Morisetti, que também atua como enviado para questões relacionadas às mudanças climáticas junto ao governo britânico, para falar a outros oficiais de alta patente e médicos de toda a Europa sobre as implicações do aquecimento global para a saúde e a segurança.

Especialistas em segurança e saúde alertaram que o aquecimento global neste século ameaça o acesso à água e a alimentos, podendo, por isso, exacerbar as tensões em algumas das regiões mais instáveis do planeta.

Alertas para a saúde

Prevê-se que o aquecimento global terá uma série de efeitos diretos e indiretos sobre a saúde humana. "Para mim, a maior e mais urgente ameaça é a segurança alimentar", disse Anthony Costello, diretor do Instituto de Saúde Global da University College de Londres (UCL).

Costello afirmou que uma pesquisa que ele coordenou há dois anos para a UCL e para a publicação médica The Lancet levou à conclusão de que as mudanças climáticas representam "a maior ameaça à saúde do século 21". Ele citou a onda de calor ocorrida na Rússia em 2010 e as recentes enchentes na Tailândia como exemplos de acontecimentos que serão cada vez mais frequentes no futuro, ameaçando a segurança alimentar.

Em 2010, a Rússia perdeu 30% de sua safra de cereais depois de as temperaturas permanecerem acima da média durante três semanas. Os prejuízos fizeram com que os preços internacionais dos cereais subissem rapidamente. "Entre 50 e 60% da mortalidade infantil nos países em desenvolvimento se dá em consequência de problemas relacionados à desnutrição", disse Costello à Deutsche Welle.

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Estima-se que as mudanças climáticas devam contribuir também para um aumento dos indíces de doenças infecciosas, como a malária, e dos movimentos migratórios, especialmente no que diz respeito ao êxodo das cidades costeiras. Os centros urbanos representam um problema particular, pois provavelmente cerca de 60% das pessoas estarão vivendo em cidades até meados do século. As cidades também tendem a concentrar calor, tornando seus habitantes mais vulneráveis aos danos provocados pelas ondas de calor.

"A indicação mais clara que temos é a onda de calor ocorrida na França em 2003, que foi, sob diversos aspectos, um fato sem precedentes, tendo causado a morte de pelo menos 30 mil pessoas", disse Andy Haines, professor de Saúde Pública e Primeiros Socorros na Escola de Higiene e Medicina Tropical, em Londres.

Além dos trópicos

Algumas das regiões mais afetadas estarão nos trópicos, o que não significa que não haverá problemas para outras nações. "No passado, testemunhamos com frequência conflitos nessas regiões. As mudanças climáticas vão aumentar esse problema", disse Morisetti.

"Um dos desafios é o fato de que esse cinturão ao redor da linha do Equador é também por onde passam as rotas do comércio mundial, especialmente de energia, mas também de outros produtos transportados pelo mundo. E se houver instabilidade e vulnerabilidade nessas regiões do globo, todos nós seremos afetados", alerta Morisetti.

Muitos países na região próxima à linha do Equador já estão enfrentando dificuldades sociais e econômicas e um agravamento desta situação poderá levar a uma ampliação da lista de "Estados falidos". "Isso não significa que consideramos as mudanças climáticas uma causa direta dos conflitos. Mais provavelmente elas serão um 'multiplicador de ameaças'", considera Morisetti.

Outros oficiais presentes ao encontro descreveram as mudanças climáticas como uma "ameaça amorfa", que poderá mudar os papéis dos Estados, criando novos vencedores e perdedores no cenário mundial. O aumento da pirataria, semelhante ao que vem ocorrendo na África, será um dos problemas típicos que países industrializados poderão enfrentar. Um dos especialistas apontou que a "segurança ambiental" não conseguiu até hoje, infelizmente, figurar entre os pilares típicos das preocupações com a segurança humana.

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Enquanto militares europeus têm demorado para levar em consideração as implicações das mudanças climáticas, os Estados Unidos já o fizeram. A edição de 2010 da Quadrennial Defense Review, publicada pelo Pentágono, destacou a grande probabilidade de as mudanças climáticas contribuírem para a "pobreza, a degradação ambiental e o enfraquecimento de governos frágeis".

Em 2011, a Alemanha incluiu as mudanças climáticas na pauta do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Foi a primeira vez em quatro anos que o Conselho debateu formalmente as questões ambientais e a primeira vez que relacionou as mudanças climáticas à paz mundial e à segurança. Em julho último, a premiê alemã, Angela Merkel, observou que a ocasião era apropriada para discutir as mudanças climáticas, o que contribuiria para promover a "abordagem interdisciplinar" necessária que o assunto requer.

Alejandro Litovsky, diretor da Iniciativa de Segurança da Terra (Earth Security Initiative, em inglês) – fórum que reúne cientistas, políticos, empresários e profissionais ligados à área da Defesa – saudou a iniciativa, mas continua preocupado em "assegurar" o debate sobre o problema. "Precisamos ter muito cuidado ao formatar a contribuição militar neste contexto. As mudanças climáticas são claramente uma questão de escassez de recursos, mas também uma questão de acesso  – quem terá acesso aos recursos?", questionou Litovsky.

Hugh Montgomery, professor de Medicina da UCL, em Londres, e diretor do Instituo de Saúde Humana e Desempenho, elogiou o fato de médicos e soldados estarem reunindo esforços para tomar medidas com relação às mudanças climáticas. "Sentimos que por ora a mensagem climática foi transmitida", disse ele à Deutsche Welle.

"As questões ambientais são rotuladas como algo discutido por pessoas não muito inteligentes ou mal informadas, talvez bem-intencionadas ou de esquerda. Não acho que seja fácil classificar oficiais das Forças Armadas ou médicos experientes simplesmente como estúpidos, mal informados ou de esquerda", concluiu Montgomery.

Autor: Nathan Witkop (lpf)
Revisão: Soraia Vilela

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