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Jogadora de futebol chinesa Li Ying de cabeça baixa em estádio
Apesar de ser força para seleção chinesa, atacante Li Ying foi excluída de partidas importantesFoto: Photoshot/picture alliance
Igualdade de direitosChina

LGBTQs no esporte chinês: com sorte, tolerados

Stefan Nestler | William Yang
22 de janeiro de 2022

Atletas profissionais da China declaradamente gays ou lésbicas podem ser contados nos dedos de uma mão. Diversidade sexual é até tolerada – mas só se for mantida em segredo. Caso da jogadora Li Ying é um exemplo.

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Li Ying está de volta às Rosas de Aço: a nova técnica da seleção nacional de futebol da China, Shui Qingxia – primeira mulher a ocupar a função –, indicou a atacante de 29 anos para a Copa Feminina Asiática AFC, que se iniciou nesta quinta-feira (20/01), na Índia.

À primeira vista, não deveria ser uma surpresa: afinal, no torneio de 2018, Li fez sete gols em cinco partidas pela Bota de Ouro, além de marcar o único gol da equipe na Copa do Mundo de 2019, na França, possibilitando a vitória de 1 a 0 contra a África do Sul, na fase de grupos.

No entanto, apesar de mais de 30 gols em suas mais de 100 partidas pela seleção de futebol chinesa, Li Ying foi excluída dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, provocando muita especulação se o fato teve a ver com ela ter se declarado lésbica.

Numa postagem viral na rede social chinesa Weibo, apenas semanas antes da cerimônia olímpica de abertura, ela tornou público seu amor pela influenciadora Chen Leilei: "Você é a fonte e o alvo de toda a minha ternura." Pouco antes, completara-se um ano desde o início do relacionamento de ambas.

"Não é segredo que há homossexuais no futebol feminino", escreveu o jornalista esportivo e blogueiro Zhao Zhen. "Mas Li Ying é a primeira a ousar anunciar publicamente sua orientação sexual e sua namorada. Eu a parabenizo por sua coragem."

Mas nem todas as reações foram positivas, algumas foram até francamente homofóbicas. Pouco depois de postada, a mensagem desapareceu da conta da jogadora. Uma teoria é que tenha sido por pressão externa.

"Sexo não é algema"

O número de atletas chineses de ambos os sexos que se declararam homossexuais ainda pode ser contado nos dedos de uma mão. Depois de Li Ying, a estrela do vôleibol Sun Wenjing ousou um coming out, porém só em setembro de 2021, dois anos depois de ter encerrado sua carreira esportiva.

Em 2018, o surfista Xu Jingsen se tornou o primeiro atleta profissional da China a se declarar homossexual, ao anunciar no Weibo a intenção de participar dos Gay Games de Paris. "Sim, eu sou gay", escreveu, junto com uma fotomontagem de si numa prancha de surfe, diante de uma bandeira de arco-iris. "Temos o direito de escolher amar e sermos amados. Sexo, idade e cor da pele não são algemas", acrescentou.

Xu carregou a bandeira para o contingente de 69 atletas da China continental na cerimônia de abertura dos jogos em Paris. Os próximos Gay Games, que estavam originalmente programados para Hong Kong, no ano corrente, foram adiados para novembro de 2023, devido à pandemia de covid-19. Atletas do Taiwan já anunciaram que não participarão, devido a receios de segurança.

China na retaguarda da diversidade sexual

Em 2019, Taiwan se tornou o primeiro país asiático a legalizar o casamento entre indivíduos do mesmo sexo – que continua sendo tabu na China continental. Pequim tolera a diversidade sexual, mas contanto que cada um mantenha sua orientação em segredo.

Qualquer expressão de diversidade sexual forçosamente gera resistência. Lançado em 2009, Shanghai Pride, o mais antigo e maior evento LGBTQ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queers) da China, incluindo desfiles de bicicletas, corridas, festas, fóruns e exposições, foi cancelado em 2020. Mesmo antes, seus promotores sofriam coerção por parte dos censores estatais.

Em julho de 2021, o Ministério de Assuntos Civis bloqueou e removeu centenas de websites e contas de redes sociais LGBTQs, sobretudo nas universidades. "É impossível a China chegar à vanguarda do mundo nesse assunto", escreveu em seu blog Hu Xijin, redator-chefe do estatal Global Times, em defesa das medidas governamentais. "Nosso certo conservadorismo é inevitável e razoável."

LGBTQs se adaptam à pressão de Pequim

Em setembro, "homens efeminados" foram banidos da televisão, por ordens do presidente Xi Jinping. A comunidade se adaptou à linha dura: "Desde que as autoridades da China lançaram uma caça às organizações de defesa dos direitos LGBTQ nas universidades, temos sido bem cuidadosos em não deixar nenhum evento ficar LGBTQ demais", revelou à DW um ativista chinês, sob condição de anonimato.

Por outro lado, ressalvou: "Embora o governo tenha certamente enrijecido o controle sobre as organizações LGBTQ, mesmo assim os membros da comunidade encontrarão meios de promover atividades colocando menos ênfase nos elementos queer. Estamos todos nos adaptando ao novo clima na China, que é mais discreto."

O número dos habitantes da China identificados como lésbicas, gays, bissexuais, transexuais ou queers é calculado em 70 milhões. Portanto, o país com uma população de 1,4 bilhão está ainda bem longe de aceitar abertamente a diversidade sexual.

"Integrantes de minorias sexuais e de gênero ainda vivem nas sombras na China, apenas 5% estão dispostos a declarar abertamente sua diversidade", constatou em 2016 uma pesquisa do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP).

Segundo esta, a discriminação continuava a "custar aos indivíduos LBGTQ seus empregos, reduzir suas perspectivas de carreira e seu potencial de aprendizado nas escolas. Minorias sexuais e de gênero sofrem menor estabilidade profissional e taxas de desemprego mais altas".

Participantes de torneio Shanghai Pride saltam e erguem cartazes
Criado em 2009, Shanghai Pride foi cancelado em 2020Foto: Johannes Eisele/AFP/Getty Images

Caso Li Ying permanece ambíguo

Está em aberto se o fato de Li Ying ter sido excluída da seleção nacional de futebol nos Jogos de Tóquio teve a ver ou não com seu coming out. Seis meses antes da postagem no portal Weibo, ela já tornara público seu amor por Chen Leilei no Facebook.

O acesso à rede social sediada nos Estados Unidos está bloqueado na China há mais de uma década, mas é difícil imaginar que o fato tenha escapado aos censores de Pequim – os quais, por sua vez, teriam levado a postagem à atenção da Associação de Futebol nacional e da equipe de técnicos.

Mesmo assim, a atacante ainda atuou em três partidas classificatórias para os Jogos Olímpicos e fez três gols. Sua exclusão foi a partir das finais contra a Coreia do Sul, em abril. Mas foram também afastadas da esquadra olímpica Tang Jiali, que joga no Tottenham Hotspur, e a meio-de-campo Shen Mengyu, do Celtic Glasgow.

Na ausência das três, o experimento olímpico da China fracassou estrondosamente. O time jovem e inexperiente foi eliminado após ser derrotado por 5 a 0 pelo Brasil e 8 a 2 pela Holanda, além de um empate por 4 a 4 contra o Zâmbia. O treinador Jia Xiuquan foi demitido.

Sua sucessora, Shui Qingxia, trouxe todas as três craques de volta à seleção, e Li Ying integra o time da Copa Feminina Asiática. Ela retomou as atividades no Weibo, mas desta vez basicamente se limitando a postagens sobre futebol, sem qualquer menção a seu relacionamento amoroso.