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Brasilien l Schlammlawine nach Dammbruch
A barragem de resíduos da Vale em Brumadinho antes do rompimento. Tragédia provocou 270 mortes Foto: Reuters/Washington Alves
Sociedade

Jogo de empurra sobre responsabilidade em Brumadinho

Nádia Pontes de Brumadinho
25 de julho de 2019

Seis meses após rompimento de barragem, parentes de funcionários que morreram apontam que diretoria da Vale foi informada sobre risco. Já a mineradora responsabiliza certificadora alemã pela falta de aviso.

https://www.dw.com/pt-br/jogo-de-empurra-sobre-responsabilidade-em-brumadinho/a-49750179

O irmão de Maria (nome fictício) vive agora recluso em uma cidade afastada de Brumadinho. Ex-funcionário da Vale, ele sobreviveu ao rompimento da barragem 1 de rejeitos da mina Córrego do Feijão, em 25 de janeiro, e não quer falar em público sobre os acontecimentos que testemunhou.

"Ele está passando por momentos muito difíceis. Está vendo a dimensão do problema, está muito doente", conta Maria à DW Brasil, pedindo que os nomes dela e de seus irmãos não sejam revelados. "Mas ele foi convocado para depor na CPI", complementa, citando a comissão de inquérito instalada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

Cerca de dez dias antes do rompimento, o irmão sobrevivente de Maria conversou, durante um turno de trabalho, com um funcionário antigo da mineradora, contratado ainda na época da Ferteco Mineração, proprietária original da barragem, que foi comprada pela Vale em 2001. 

Segundo o relato, esse funcionário foi chamado durante a noite para fazer reparos na barragem – que estava minando água e lama. "Então meu irmão perguntou pra ele o que estava acontecendo e ele falou que se acontecesse o que estavam prevendo não sobraria ninguém...", revelou Maria.

O homem que fazia os reparos era Olavo Henrique Coelho, conhecido como "seu Lau". Trabalhadores da Vale que falaram com a DW Brasil contaram que Lau sabia tudo sobre a barragem, apesar de pouco estudo, e que era sempre chamado quando havia algum problema. A informação foi confirmada pelo filho dele, que também trabalhou na empresa.

No dia da tragédia, Lau estava na área da barragem e morreu vítima do tsunami de lama, juntamente com outras 269 pessoas. Aposentado há oito anos, ele se mantinha na atividade.

"Chamaram o meu pai em casa, um carro veio buscá-lo às dez da noite. Ele trabalhou a madrugada inteira e disse que a barragem estava condenada. Mas ninguém deu ouvidos", contou o filho à DW Brasil, confirmando o relato de Maria.

Ela perdeu outro irmão naquele dia, funcionário da mineradora há 25 anos. O irmão sobrevivente não consegue se conformar. "Eles pediram para parar a mina para fazer a retirada de todos e reparar a barragem. Mas a diretora deles, Cristina Malheiros, falou que seria muito prejuízo para a empresa", afirmou Maria. A informação foi confirmada pelo filho de Lau.

Quem sabia dos riscos

Cristina Malheiros era a engenheira geotécnica responsável pela inspeção e monitoramento. Segundo o filho de Lau, o pedido para retirar os trabalhadores da zona de risco foi feito na presença de outros diretores, que faleceram na tragédia.

Investigada, ela também foi chamada na CPI instaurada no Senado, que já encerrou as audiências. Malheiros não estava na unidade no dia do rompimento. Em seu depoimento, ela não menciona o alerta recebido por Lau.

Num outro depoimento dado na CPI, Felipe Rocha, funcionário do Setor de Gestão de Riscos Geotécnicos da Vale, afirmou que "se dizia dentro da Vale que essa barragem tinha um pai e uma mãe. O pai seria o engenheiro Washington Pirete, que trabalhou durante muitos anos nessa estrutura e a conhecia como ninguém (...). A mãe seria a Cristina Malheiros."

Questionada pelos senadores sobre sua responsabilidade, Malheiros disse que não tinha funções decisórias de gerência, que tinha um cargo técnico de prestar informações técnicas. "E essas informações eu sempre reportei aos meus superiores", declarou.

Procurada pela DW Brasil para comentar o caso, a Vale afirmou que "não foi identificada nenhuma denúncia que mencionasse que haveria risco de rompimento das estruturas" em seus canais oficiais de comunicação para queixas e denúncias que podem ser utilizados "por empregados, fornecedores e membros das comunidades sob influência das operações da empresa", inclusive de forma anônima. 

Segundo o relatório final da CPI, Malheiros disse que nunca houve risco iminente de rompimento da B1, e ressalta que "nem mesmo a empresa TÜV Süd a havia alertado dos problemas da barragem".

A certificadora alemã TÜV Süd era a empresa responsável por fazer a revisão periódica da barragem 1 da Mina Córrego do Feijão.

Com sede em Munique, a TÜV Süd tem 23 mil funcionários pelo mundo e é especializada na realização de trabalhos de auditoria, inspeção e testes, consultoria e certificação. As áreas de atuação da empresa incluem desde a inspeção de dutos e minas até a análise de alimentos e próteses mamárias.

Em 28 de setembro de 2018, a TÜV Süd emitiu o laudo de estabilidade assinado eletronicamente por César Grandchamp, geólogo da Vale, e pelo engenheiro da TÜV Süd Makoto Namba.

Meses antes, segundo funcionários da certificadora alemã, uma revisão teria detectado que o fator de segurança da barragem estava baixo. Logo, foram recomendadas algumas medidas de segurança, incluindo a instalação de drenos DHPs (Drenos Horizontais Profundos).

Consta que, durante a instalação desses equipamentos, "fraturamento hidráulico" teria colocado a barragem em risco. Naquela ocasião, junho de 2018, a instalação foi interrompida. Os DHPs são vistos, por alguns especialistas, como fator de risco pois podem induzir rompimentos.

Além desse fato, o relatório da CPI dos senadores aponta pelo menos outros três episódios registrados pela mineradora que deveriam ter provocado alguma reação mais enérgica: leituras anômalas do radar interferométrico, bloco de canga no pé da barragem e medições anômalas dos piezômetros.

Vale responsabiliza TÜV Süd

Em nota enviada à DW Brasil, a Vale disse que "ao contratar uma empresa de auditoria de renome mundial, como a TÜV Süd, a Vale esperava que os auditores dessa empresa tivessem responsabilidade técnica, independência e autonomia na prestação de serviços".

A mineradora rebateu as alegações do engenheiro Makoto Namba que disse, em depoimento ter sofrido pressão para emitir o laudo de estabilidade da B1.

Segundo a Vale, esses argumentos "nos levam a crer que os funcionários da própria TÜV Süd teriam adotado condutas inidôneas gravíssimas, violado o seu dever e função como auditores independentes. Indiscutivelmente, cabe ao auditor o papel de realizar um processo sistemático, documentado e independente para obter todas as evidências possíveis e avaliá-las objetivamente."

Também por meio de nota, a TÜV Süd afirmou que, juntamente com um grupo de especialistas internacionais, está trabalhando para esclarecer as circunstâncias.

"A Declaração de Estabilidade (DCE) foi uma descrição da condição da barragem no momento em que foi enviada para a Vale. Em seu relatório de acompanhamento, que foi muito abrangente, a TÜV Süd descreveu o que tinha que ser feito para operar a barragem e o que não era pra ser feito. Entre outras coisas, perfurações, uso de maquinário pesado e detonações deveriam ser omitidos", diz a nota.

Depoimentos colhidos na CPI da Assembleia de Minas Gerais apontam que detonações foram ouvidas na região da barragem antes do rompimento.

Desconhecimento e omissão

Contratada para atestar a segurança da barragem 1 do Córrego do Feijão após uma outra empresa, a Tractebel Engineering, não ter chegado a um consenso com a Vale sobre os parâmetros de segurança para emissão do laudo, a TÜV Süd mantinha ainda outros contratos com a mineradora. O fato é considerado problemático por gerar conflito de interesses.

Além disso, auditores da TÜV Süd apontaram no relatório imprecisões e falta de detalhes sobre a documentação antiga da estrutura. Construída em 1976, a barragem foi alteada com deficiências de projeto, de execução e de documentação, especialmente em relação ao seu sistema de drenagem, aponta o relatório da CPI.

"Passados 17 anos de sua aquisição pela Vale, muitos dos problemas não haviam sido solucionados”, conclui o texto.      

Foi ainda na década de 1970 que seu Lau entrou para a Ferteco. Segundo o filho, ele trabalhou naquela barragem durante maior parte de sua vida.

Seis meses após a tragédia, o filho diz sofrer muito com a morte do pai. "A vida dele era aquilo ali. Ele amava o que fazia."

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