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Foto: DW/Renata Miranda

"Igreja era única instituição forte para enfrentar ditadura", diz frade

Renata Miranda
7 de abril de 2014

Durante palestra do Brasilientage em Berlim, frei Aloísio Fragoso, da Arquidiocese de Recife, e teólogo alemão discutem a resistência da instituição nos anos que seguiram o golpe de 1964.

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A resistência desempenhada por integrantes da Igreja Católica no Brasil durante a ditadura militar foi o tema de uma palestra do Brasilientage em Berlim na última sexta-feira (04/04).

Para o frei Aloísio Fragoso, da Arquidiocese de Recife, apesar de, em um primeiro momento, a Igreja ter apoiado o governo militar, com o passar do tempo a instituição mudou de opinião, tornando-se um dos opositores mais ferrenhos do regime.

Fragoso conta que a mudança ocorreu a partir de 1968, com a implementação do Ato Institucional número 5 (AI-5). "As torturas, os assassinatos e os desaparecimentos se tornaram política do Estado, que também passou a perseguir bispos, padres e freiras", diz o frade (na foto, o terceiro da esquerda para a direita).

"A tortura aplicada pelos militares não era só para obter informações, mas também para eliminar toda a força moral da vítima", afirmou.

Segundo ele, o distanciamento da Igreja em relação aos militares foi um duro golpe para o governo da época. "Naquele momento, a Igreja era a única instituição forte o bastante para enfrentar o regime. Os militares sabiam disso e nem mesmo eles queriam ter de lidar com um inimigo tão poderoso."

Fragoso lembrou que durante os Anos de Chumbo a Igreja ganhou força porque era um lugar onde a oposição podia se expressar livremente. Já que a resistência não podia tomar as ruas, os opositores ao governo militar ocupavam os espaços das igrejas e paróquias. Nesses encontros, além de discutir ideias, os manifestantes cantavam músicas de protesto e davam apoio uns aos outros.

"Até mesmo a narrativa bíblica passou a ser lida com um novo foco", ressalta o frade. "O Êxodo, por exemplo, não era mais visto apenas como a história do povo hebreu, mas como a história de qualquer povo que sofre opressão. Era também a história do povo brasileiro daquela época", disse.

Ameaça comunista

Fragoso lembra que, no início, a Igreja tinha medo do comunismo, que pregava o ateísmo, e, por isso, deu apoio ao golpe.

Com o passar dos anos, porém, os líderes da entidade viram que a ideologia comunista não era ameaçadora a ponto de legitimar a ditadura. "O golpe foi um grande e sangrento retrocesso na história do Brasil", afirma o frade.

O teólogo alemão Michael Ramminger, do Instituto de Teologia e Política de Münster, lembrou de como a posição da Igreja Católica em relação ao comunismo foi importante na Alemanha para combater governos autoritários.

"O anticomunismo da instituição é um ponto central na hora de debater a resistência da Igreja", disse Ramminger, que lembrou o poder da entidade de influenciar acontecimentos sociais.

Brasilientage

Os 50 anos do golpe de 1964, que transformou o Brasil numa ditadura militar por mais de duas décadas, estão sendo lembrados com uma série de eventos no Brasil e na Alemanha até o fim do ano.

De março a novembro, o grupo teuto-brasileiro "Nunca Mais – Nie Wieder" organiza seminários, debates, ciclos de palestras, exposições de arte e mostras de filmes e documentários em ambos os países.

Entre as cidades incluídas na programação estão Berlim, Bielefeld, Bonn, Colônia, Frankfurt, Hamburgo e Leipzig, na Alemanha, e São Paulo e Rio de Janeiro.

O evento terá um encerramento simultâneo, em novembro, em Berlim e São Paulo. A ideia dos organizadores é que o fim das atividades coincida com a entrega do relatório final da Comissão Nacional da Verdade.