Filme ″O coração de Jenin″ traz esperança de paz entre palestinos e israelenses | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 08.05.2009
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Cultura

Filme "O coração de Jenin" traz esperança de paz entre palestinos e israelenses

Palestino doa a crianças israelenses os órgãos de seu filho, morto por soldados de Israel. Cineasta alemão Marcus Vetter registrou a história em documentário. Iniciativa de esperança continua com o projeto Cinema Jenin.

default

Cena do documentário

Aos 12 anos, Ahmad Khatib foi baleado por soldados israelenses no campo de refugiados de Jenin, na Cisjordânia. Os soldados acharam que a pistola de brinquedo do menino palestino era uma arma real e atiraram. Poucas horas depois, ele morreu em decorrência de graves ferimentos na cabeça e no peito.

Os médicos da Hospital Rambam, em Haifa, confrontaram o pai com uma difícil decisão. Embora seu próprio filho não houvesse sobrevivido, Ismail Khatib tinha a possibilidade de salvar a vida de várias outras crianças através dos órgãos de Ahmad.

A decisão de doar os órgãos de uma criança recém-falecida jamais é simples para um pai ou uma mãe. No caso do palestino Khatib, porém, o dilema era ainda maior. Pois as crianças a serem salvas pelos órgãos de seu filho provinham todas de Israel.

"As crianças não são minhas inimigas"

Para surpresa dos médicos, o palestino promete pensar sobre o assunto. Ele teria 12 horas para se decidir, dizem-lhe no hospital. Khatib delibera com seu irmão mais velho e recebe a bênção do imã de Jenin.

Das Herz von Jenin Mohamed trifft Ismael Khatib

Ismael Khatib (d) encontra Mohammed

E pede também permissão a Zakaria Zubeidi, chefe dos militantes da Brigada dos Mártires de Al Aqsa e autoridade secular do campo de refugiados de Jenin. Após receber o aval de todos, Khatib libera o corpo do filho, para que coração, pulmões, fígado e rins sejam retirados para transplante.

Isso não impede, contudo, as críticas por parte de vizinhos e conhecidos. Como pôde ele entregar os órgãos de seu filho para o inimigo? "As crianças não são minhas inimigas, elas não têm culpa nenhuma", responde Khatib, quase estóico.

Um coração palestino em Israel

Três anos após esses acontecimentos, o cineasta Marcus Vetter fez uma viagem na companhia de Khatib, para visitar as crianças salvas pelos órgãos de Ahmad. O documentário mostra três de cinco encontros, pois dois dos receptores preferiram manter-se anônimos.

Além da menina drusa Sameh Gadban e do pequeno beduíno Mohammed Kabua, de Neguev, um dos receptores é Menuha Levinson, filha de uma família judaica ultraortodoxa.

No decorrer do filme, pouco antes de os Levinsons receberem a notícia de que foi encontrado o doador de um rim para Menuha, o pai da menina deixa escapar uma observação. Ele preferiria que o órgão fosse de uma criança judia.

Mais tarde ele se desculpará por essas palavras. Mas a visita à família judaica acaba sendo menos calorosa do que as outras duas. Nota-se o constrangimento de todos os presentes.

Kinofilm Das Herz von Jenin Filmszene

Khatib (d) e a pequena Menuha Levinson

Parcialidade na apresentação dos fatos

Nesse ponto, seria possível criticar o documentário de Marcus Vetter como unidimensional e parcial. Afinal, o opressivo encontro com a família Levinson, protótipo de judeus ultraconservadores e céticos, é encenado como fatídica cena final de Das Herz von Jenin (O coração de Jenin).

Ismail Khatib é apresentado como mártir, assinalando reiteradamente o quanto os israelenses ficaram surpresos e perplexos com sua atitude. "Isso os perturbou mais do que se eu fosse um terrorista."

Não se menciona, por exemplo, que o pequeno Ahmad foi levado num helicóptero das Forças Armadas israelenses do hospital do acampamento em Jenin até Haifa, pois lá se dispunha dos meios e condições para tentar salvá-lo. Ou que não é raro crianças palestinas serem salvas por doações de órgãos de pacientes judeus.

Ocupação de tempo integral

Kinofilm Das Herz von Jenin Filmplakat

Cartaz de 'O coração de Jenin'

Porém, por mais que O coração de Jenin seja, ocasionalmente, unilateral ou apelativo, é também tocante ver a esperança e a ternura com que Ismail Khatib olha para as crianças salvas.

"Vejo Ahmad nelas. Nelas todas." Khatib e o diretor Vetter mostram, com seu filme, que o entendimento entre israelenses e palestinos não é necessariamente uma quimera. Um filme que dá esperanças.

E seu trabalho continua mesmo após as filmagens. O documentário foi apresentado em diversos festivais em 2008, tendo recebido vários prêmios. O mecânico profissional Khatib trabalha agora pelas crianças e jovens de Jenin. Graças a doações, ele criou um centro infanto-juvenil e iniciou um outro projeto com Marcus Vetter.

Cultura em vez de ódio

A iniciativa Cinema Jenin conta com o apoio do Ministério alemão das Relações Exteriores, do Instituto Goethe e de diversas produtoras de cinema, entre outros parceiros. A meta é reativar o maior cinema da Cisjordânia, fechado após a irrupção da primeira intifada, em 1987.

Desde então, o edifício com capacidade para até 300 espectadores está em ruínas. Agora, com a ajuda dos jovens da região, a sala está sendo reformada e deverá ser reinaugurada no final de 2009, com um festival de cinema.

"Queremos proporcionar aos jovens daqui novas oportunidades de ocupação e cultura que não tenham a ver com violência ou ódio", anunciam Khatib e Vetter.

Autor: Rasha Khayat
Revisão: Simone Lopes

Leia mais

Áudios e vídeos relacionados