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Emmanual Macron
Macron vem defendendo passaporte sanitário Foto: Ludovic Marin/REUTERS
SaúdeFrança

Fala de Macron sobre não vacinados provoca críticas

6 de janeiro de 2022

Presidente francês disse que pretende "encher o saco" de não imunizados com restrições até que eles aceitem imunizantes. Declaração provoca suspensão de sessão no Parlamento que discutia lei sobre passaporte sanitário.

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O Parlamento francês suspendeu o debate sobre uma nova lei relacionada ao passaporte de vacina na madrugada desta quarta-feira (05/12), após parlamentares de oposição exigirem explicações do presidente Emmanuel Macron sobre comentários feitos em uma entrevista ao jornal Le Parisien.

Na véspera, o presidente disse que pessoas não vacinadas são "irresponsáveis" e que ele planejava tornar suas vidas tão complicadas que elas acabariam tendo de tomar a vacina.

"Os não vacinados, quero muito encher o saco deles. E vamos continuar fazendo isso, até o fim. Essa é a estratégia", disse Macron.

Na fala, o presidente de centro-direita usou em francês o verbo "emmerder", um termo coloquial incomum para um chefe de Estado. O termo, um palavrão dependendo do contexto, tem difícil tradução para o português, mas pode ser entendido como "encher o saco" ou "pentelhar".

Críticas no Parlamento

A entrevista foi publicada pouco antes de parlamentares retomarem um debate sobre o novo projeto de lei, que tornará obrigatório a apresentação de um comprovante de vacinação contra a covid-19 para a entrada em restaurantes, cinemas e trens.

A sessão foi rapidamente tomada por uma discussão sobre os comentários do presidente.

"Um presidente não pode dizer coisas assim", afirmou o parlamentar Christian Jacob, líder do partido de oposição conservador Les Republicans. "Eu sou favorável ao passaporte da vacina, mas não posso apoiar um texto cujo objetivo é 'encher o saco' dos franceses."

"É esse seu objetivo, sim ou não? Não podemos continuar debatendo sem termos uma resposta clara sobre isso", disse.

Representantes da extrema-direita também atacaram o que classificaram como "violência" de Macron.

Mas críticas também partiram da esquerda. A prefeita de Paris, a socialistas Anne Hidalgo, e o comunista Fabien Roussel questionaram se Macron quer mesmo "unir" os franceses. Jean-Luc Mélenchon, da extrema esquerda, denunciou o que chamou de uma "confissão alucinante de Macron".

Premiê defende Macron

Outros opositores no Parlamento ecoaram as críticas exigiram que o primeiro-ministro Jean Castex, um aliado de Macron, desse explicações. A sessão foi suspensa pouco antes das 2h e retomada na tarde desta quarta-feira, após Castex defender os comentários de Macron.

"O que o presidente da República disse, eu ouço em todos os lugares e vocês sabem disso", disse o primeiro-ministro. "Há uma exasperação da parte dos nossos cidadãos ao verem toda uma forma de constrangimentos que lhes são impostos quando outros decidem libertar-se deles. (...) As palavras do presidente da República estão em perfeita sintonia com o que nós fazemos."

"Quem está insultando a nação? Quem está fragmentando a nação? Quem leva os agentes de saúde, em nossas alas de emergências, a fazer escolhas éticas dramáticas? É uma pequena minoria", argumentou o primeiro-ministro em resposta a outro parlamentar. "Ser cidadão também significa ter deveres e relembrá-los."

Gafes

Desde que assumiu o poder em 2017, Macron, um ex-banqueiro e ex-ministro, fez esforços para tentar minimizar uma imagem de político arrogante próximo às elites, que persiste entre vários franceses. No entanto, ocasionalmente ele é acusado de insensibilidade.

Em 2017, ele foi criticado por afirmar estações ferroviárias são lugares "onde se encontram pessoas bem-sucedidas e pessoas que não são nada". No ano seguinte, provocou polêmica ao afirmar a um desempregado que descrevia suas dificuldades que bastava "atravessar a rua" para encontrar emprego.

Pandemia

Após as falas de Castex, os debates sobre a lei foram retomados, mas começaram a se arrastar diante de centenas de emendas apresentadas pelos parlamentares. Por volta de 20h (16h em Brasília), os parlamentares ainda tinham que analisar 390 emendas ao texto.

Se aprovada, a lei prevê que maiores de 12 anos sem vacinação não poderão ir a restaurantes, museus, academias, cinemas ou utilizar certos transportes, mesmo que apresentem teste de diagnóstico negativo de menos de 24 horas.

A França vem enfrentando um avanço robusto do coronavírus nas últimas semanas. Nesta quarta-feira, foram registradas mais 332 mil novas infecções - um novo recorde no país. Entre os franceses, 78,6% receberam pelo menos uma dose da vacina e 76,8% receberam todas as doses necessárias.

jps (AFP, Reuters, ots)