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ClimaAmérica do Norte

Especialistas demitidos por Trump revivem site climático

Jennifer Collins
24 de junho de 2026

Em novo endereço e com ajuda de doações, ex-funcionários federais dos Estados Unidos tentam manter vivo serviço de informações climáticas que foi desmontado pelo governo do presidente Trump.

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Carro capotado em buraco na estrada
As agências científicas federais são fundamentais para proteger as comunidades dos efeitos de eventos climáticos extremos, como as tempestades que capotaram carros na Califórnia em dezembro de 2025Foto: William Liang/AP Photo/picture alliance

Com o fim de cerca de 100 mil empregos em agências federais de ciência e o corte no orçamento para monitoramento climático e oceânico, especialistas alertam que os Estados Unidos estão abrindo mão de sua liderança global em pesquisa climática. Ainda assim, um grupo de ex-servidores públicos conseguiu financiamento que, segundo eles, ajudará a manter o país informado sobre as consequências do aquecimento global.

O Climate.us, criado por ex-integrantes do site Climate.gov, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa, na sigla em inglês), pretende restabelecer o acesso a informações climáticas "precisas, acessíveis e cientificamente rigorosas", ampliando a conscientização sobre ondas de calor, tempestades, elevação do nível do mar, entre outros fenômenos.

A equipe começou a resgatar conteúdos do site após Donald Trump, que já classificou as mudanças climáticas como fraude, assumir seu segundo mandato, no início de 2025, e desmantelar o projeto, com demissões e cortes de financiamento.

O Climate.gov, que registrou cerca de 15 milhões de visualizações em 2024 e vinha crescendo ano a ano, foi redirecionado para outra página da Noaa, controlada por indicados políticos.

"Informações confiáveis sobre o clima não deveriam desaparecer quando a política muda", afirmou Rebecca Lindsey, diretora-executiva do Climate.us. Lindsey disse à DW que a popularidade do antigo site mostrava que as pessoas "nos Estados Unidos querem informações confiáveis e imparciais sobre o clima. Elas se interessam por isso. Estão preocupadas com isso."

Donald Trump fala ao microfone, em evento com a presença de funcionários de capacete da indústria do carvão
Donald Trump dá ênfase ao carvão e ao setor de combustíveis fósseis em vez de apoiar esforços para energia limpaFoto: Daniel Torok/White House/Planet Pix/ZUMA/picture alliance

O Climate.us estreou em 2025 , iinicialmente para abrigar dados do antigo site governamental. Agora, uma nova versão passará a oferecer conteúdo adicional, incluindo notícias, reportagens, blogs de especialistas, visualizações de dados, relatórios sobre indicadores climáticos e recursos para sala de aula. Cientistas atuarão voluntariamente na validação da precisão do conteúdo, e o site conta com o apoio de milhares de pequenas doações provenientes dos EUA e de todo o mundo.

"É muito reconfortante ver esse apoio vindo de outros países, porque sei que outros lugares teriam todo o direito de pensar: 'bem, os Estados Unidos deram um tiro no próprio pé'", disse Lindsey, que perdeu o emprego no Climate.gov em fevereiro de 2025.

O relançamento faz parte de uma reação mais ampla para preservar o acesso a dados e conhecimento científico, em meio à redução de verbas públicas promovida pelo governo Trump.

Os cortes – incluindo uma proposta de reduzir em 1,6 bilhão de dólares (cerca de R$ 8 bilhões) o orçamento da Noaa no próximo ano – colocam em risco a perda de "centenas de anos de expertise acumulada em diferentes áreas" e representam uma "ameaça à inovação", alertou Jules Barbati-Dajches, da Union of Concerned Scientists.

Qual o impacto dos cortes?

O serviço público federal dos EUA encolheu cerca de 12% sob Trump, e aproximadamente 40% dessas perdas ocorreram em agências científicas, segundo a ONG Partnership for Public Service. Essas instituições perderam quase 118 mil funcionários entre setembro de 2024 e fevereiro de 2026, enquanto o financiamento para pesquisa ambiental e inovação – incluindo estudos sobre impactos de produtos químicos e calor na saúde – caiu 79%.

Brandon Lardy, diretor de dados da entidade, afirma que os impactos já são sentidos em locais onde contratos foram cancelados abruptamente e centros de pesquisa fechados de forma repentina. Comunidades ficam mais vulneráveis à poluição da água e do ar, a eventos climáticos extremos e a doenças transmitidas por insetos, cuja área de atuação cresce com o aumento das temperaturas.

"Isso também tem impactos claros sobre as comunidades e sobre sua saúde e bem-estar no longo prazo", acrescentou.

Cerca de 10 mil dos profissionais que deixaram o serviço público em 2025 tinham doutorado em áreas como ciência, tecnologia, engenharia, matemática ou saúde.

Ampolas contendo substâncias para análise em laboratório
Cortes profundos e reduções orçamentárias estão comprometendo o monitoramento de substâncias químicas eternas, por exemploFoto: Joshua A. Bickel/AP Photo/picture alliance

"Quando penso em sentar na cadeira de um dentista ou embarcar em um avião, quero alguém qualificado fazendo o trabalho corretamente", disse Barbati-Dajches. "É a mesma lógica para milhares de especialistas no governo federal que atuam com toxicologia ambiental, epidemiologia e meteorologia. Precisamos desses profissionais para garantir nossa segurança."

Para onde vão os cientistas?

Rebecca Lindsey trabalhou como editora do Climate.gov por mais de uma década antes de ser demitida. Sua primeira preocupação foi perder o seguro de saúde, geralmente vinculado ao emprego nos EUA. Depois veio a dúvida sobre o futuro: se aposentar antecipadamente ou mudar de área.

"Foi extremamente estressante e assustador – e isso se multiplica por dezenas de milhares de histórias em todo o governo", disse à DW.

Ao final, Lindsey e colegas decidiram criar o Climate.us, pois consideram o trabalho uma "vocação".

"Era algo que sentíamos ser muito importante para o país e para o público. E tínhamos orgulho de fazer parte disso", afirmou.

Ela, no entanto, diz estar "profundamente preocupada" com os impactos sobre jovens cientistas.

"Há áreas da ciência que só o governo realiza", afirmou, citando a regulação da indústria nuclear e a proteção de recursos pesqueiros e comunidades.

"Isso não é algo que o setor privado faria, porque não dá lucro", disse. "O que acontece quando os jovens pensam: 'não posso confiar que, se estudar isso, terei um emprego no governo nesse campo'?"

A Partnership for Public Service aponta que parte dos cientistas demitidos permanece desempregada, outros migraram para governos locais, estaduais ou organizações privadas, enquanto alguns consideram deixar o país. Uma pesquisa da revista Nature mostrou que 75% de 1.600 cientistas americanos avaliaram buscar trabalho no exterior.

"A fuga de cérebros é uma preocupação real", afirmou Lardy. "Recebemos relatos de cientistas indo para o Canadá, China ou União Europeia – o que é preocupante para a capacidade dos EUA de manter liderança científica."

Houve resistência ao projeto trumpista de desmonte das políticas climáticas. Parlamentares rejeitaram cortes profundos no início do ano, e o governo foi obrigado recentemente a recuar de uma decisão de desmantelar um sistema de monitoramento em águas profundas. Ainda assim, Lardy alerta que, mesmo quando há reversões, "levará gerações para reparar grande parte dos danos" e para "convencer os jovens de que o governo é uma opção viável e atraente para construir uma carreira".