Escritor Milan Kundera completa 90 anos | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 01.04.2019
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Literatura

Escritor Milan Kundera completa 90 anos

Ele descreveu "a insustentável leveza do ser" tendo como pano de fundo a Primavera de Praga. O autor tcheco que mora há mais de 40 anos na França criou um trabalho imponente em dois mundos e idiomas.

Milan Kundera

Kundera teve uma relação conturbada com a Tchecoslováquia e o comunismo

Os livros de Kundera falam de pessoas, suas convicções, sentimentos e intenções. Sua especialidade são os romances de relacionamento. O mais conhecido, A insustentável leveza do ser, conta a história de um triângulo amoroso, tendo a Primavera de Praga como pano de fundo. Essa obra épica trouxe fama mundial a Kundera em 1984.

Tcheco de nascimento, Kundera vive na França há décadas. A então Tchecoslováquia retirou sua cidadania em 1978, fazendo de um de seus mais famosos escritores um exilado.

Entrevistas são respondidas – quando isso acontece – somente por escrito. Suas traduções são avaliadas e revisadas. O autor vive de forma reservada. Aparentemente, ele nunca se queixou de seu destino: "Não existe esse sonho de retorno", disse numa entrevista ao semanário alemão Die Zeit. "Carrego comigo a minha Praga, o cheiro, o gosto, a língua, a paisagem, a cultura."

Os tchecos tiveram que esperar muito tempo por um retorno, que só se deu de forma literária: só a partir da década de 1990, os romances mais recentes de Kundera foram publicados em tcheco. Mesmo a obra mais famosa, A insustentável leveza do ser, só saiu em 2006.

Milan Kundera foi marcado não somente pela cultura tcheca, mas, mais do que isso, pela busca de um caminho como escritor no socialismo. Após terminar o ensino médio, ele se afiliou entusiasticamente ao Partido Comunista em 1948, sendo dois anos depois expulso por "pensamentos hostis e inclinações individualistas".

Isso teve consequências: Kundera teve que interromper os estudos que havia acabado de começar, primeiro de música e literatura, depois de direção e roteiro na academia de cinema.

Ele fez sua estreia como escritor em 1953 com o livro de poesia Homem jardim claro, onde já abordava o realismo socialista, mas com uma postura comunista. Mais tarde, ele novamente se afiliou ao Partido Comunista – para ser mais uma vez expulso.

As acusações de "tendências individualistas", que o Partido Comunista usara para sua primeira expulsão, assumiram um ponto crítico no mais tardar a partir dos anos 1960: Kundera escreveu histórias humorísticas que apareceriam como edição completa em 1970 em O livro dos amores ridículos.

Trágicas em sua maioria, as histórias transcorrem na típica tensão "kunderiana" entre amor e política, humor e seriedade, leveza e melancolia. Com a violenta repressão à Primavera de Praga em 1968, o autor tornou-se persona non grata em seu país.

Como defensor do comunismo reformista, ele foi afastado da associação dos escritores em 1969 e expulso novamente do partido em 1970. Suas atividades de ensino na academia de cinema foram encerradas, suas peças de teatro foram retiradas do calendário de apresentações, suas publicações foram proibidas e excluídas das livrarias.

Mas Kundera continuou a escrever sem levar em conta a censura. Ele se vingou de seu passado comunista em A vida não é aqui (1973) e A valsa dos adeuses (1976). O autor sabia que seus livros não seriam publicados na então Tchecoslováquia. Ambas as obras apareceram na França, o país que lhe proporcionou refúgio em 1975 graças a uma oferta para ensinar em Rennes e depois em Paris.

Também no exílio, Kundera levou adiante seus temas literários, com a Tchecoslováquia como pano de fundo. Já expulso do país, restou à liderança socialista apenas privar-lhe da cidadania, com a publicação de O livro do riso e do esquecimento em 1978.

Quando Kundera lançou A insustentável leveza do ser, em 1984, o romance chegou às listas dos mais vendidos em todo o mundo e fez do autor uma estrela. Mais tarde, a obra se tornou um sucesso no cinema com Juliette Binoche e Daniel Day Lewis nos papéis principais.

Era o livro certo na hora certa. Trabalhos posteriores, como A imortalidade, A lentidão, A identidade e A ignorância também receberam atenção, mas não chegaram à altura de sucessos passados.

A lentidão e todos os demais livros foram escritos em francês. Para alguns críticos literários, esses romances eram demasiadamente filosóficos e ensaísticos, outros elogiaram o autor como referência moral, como crítico da civilização europeia ocidental e do pós-modernismo.

E o socialismo, mais uma vez, assombrou Kundera: em 2008, o escritor foi acusado de delatar um opositor em 1950, que desapareceu então por vários anos num campo de trabalhos forçados. Uma ata da polícia secreta tcheca confirmou, supostamente, o depoimento.

Mas foi realmente Kundera quem deu esse depoimento? Ou outra pessoa se passando por Milan Kundera? "Estou completamente surpreso com algo que eu não esperava, de que eu não tinha conhecimento até ontem e que não aconteceu", disse o escritor na época à agência de notícias tcheca. No documento falta a assinatura dele.

Hoje, Kundera não comenta mais o tema. Ele viaja incógnito para a República Tcheca, o que já fazia mesmo antes da acusação de traição. Como ato posterior de reconciliação, o primeiro-ministro tcheco Andrej Babis lhe estabeleceu recentemente a cidadania tcheca. Kundera não comentou a restituição.

Após uma pausa de mais de dez anos, Kundera publicou um novo romance em 2014 – A festa da insignificância. Nele, quatro homens passeiam por Paris e falam – na conhecida forma humorística e trágica de Kundera – de obstáculos pessoais.

O tão aguardado livro foi um sucesso de vendas em toda a Europa, mas os críticos se mostraram divididos. Alguns elogiaram o romance como uma obra-prima, outros falaram de uma "obra tardia tensa".

Pode ter sido sua última obra. Em 1º de abril de 2019, Milan Kundera completa seu 90º aniversário.

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