1. Pular para o conteúdo
  2. Pular para o menu principal
  3. Ver mais sites da DW

Envelhecimento deixa cientistas menos inovadores, diz estudo

Luis García Casas
7 de julho de 2026

Profissionais mais experientes tendem a se manter ancorados a conhecimento antigo. Menos tempo para pesquisa e políticas de trabalho também impactam potencial disruptivo da produção acadêmica.

https://p.dw.com/p/5GiJv
Dois cientistas examinam amostra em laboratório
Em diversas áreas do conhecimento, pesquisadores mais experientes têm menor probabilidade de abrir uma nova área de investigaçãoFoto: Yuri Arcurs/Zoonar II/IMAGO

Escolher uma carreia acadêmica significa, para muitos jovens cientistas, se confrontar com uma série de angústias intelectuais. Alguns sentem que perdem tempo com questões que deixaram de ser relevantes desde que seus orientadores ainda eram estudantes. Ou que investigam aspectos tão específicos de uma área que pouco contribuem para o avanço científico. Nestes casos, relata-se uma sensação de que a ciência vive uma espécie de déficit de inovação.

Um metaestudo, publicado recentemente na revista Science sob o título "Envelhecimento e redução da inovação científica", investiga as causas desse fenômeno para tentar responder à pergunta de como a "idade acadêmica" influencia a criatividade. 

"À medida que os cientistas envelhecem, sua ciência também envelhece, assim como o trabalho ao qual ficam ancorados e do qual extraem inspiração e expectativas", resume James A. Evans, um dos autores do artigo, em uma publicação da Universidade de Chicago, onde é professor de Sociologia e Ciência de Dados.

"Chamamos isso de 'envelhecimento intelectual' porque é um processo tanto social quanto biológico", ele adiciona, destacando que não é apenas a idade dos pesquisadores que os condiciona. Ou seja, quanto mais tempo passam no meio acadêmico e mais assumem funções administrativas e de liderança, menos tempo têm para pesquisar e se atualizar com os avanços científicos.

Uma profissão em duas velocidades

O estudo analisa a trajetória de mais de doze milhões de acadêmicos com pelo menos três pesquisas publicadas entre 1960 e 2020.

Os pesquisadores examinaram o caráter "disruptivo" de cada pesquisa com base nos artigos que ela cita: se estudos posteriores citam esse artigo, mas não mencionam os anteriores a ele, o trabalho é considerado disruptivo. Em outras palavras, abre um novo campo de investigação.

Em 1953, por exemplo, James Watson e Francis Crick descreveram a estrutura helicoidal do DNA: trabalhos posteriores referenciaram esse artigo, mas não os que ele citava. Também é clássico o caso da mudança de paradigma provocada pela Teoria da Relatividade de Albert Einstein

O estudo mostra que a probabilidade de um cientista produzir pesquisas disruptivas diminui com a idade em todas as áreas. Em uma amostra de 64.386 cientistas com carreiras de 40 anos ou mais, os autores constataram que a chance de produzir um trabalho entre os 10% mais disruptivos cai com o tempo, sugerindo que pesquisadores mais experientes são menos propensos a abandonar ideias estabelecidas.

O "efeito nostalgia"

Pesquisas anteriores já indicaram uma queda na criatividade com a idade, embora outras não encontrassem correlação. O historiador e filósofo americano Thomas S. Kuhn cunhou o conceito de "paradigma científico": cientistas mais experientes estariam mais moldados pelo estado atual do conhecimento, enquanto os mais novos tenderiam a "pensar fora da caixa".

Segundo o estudo atual, a explicação pode ser mais simples: cientistas tendem a se manter ancorados em uma pesquisa do passado que marca toda sua produção posterior. Ao longo da carreira, 85% das referências aparecem apenas uma vez, enquanto a obra mais citada reaparece em mais da metade dos artigos de um pesquisador (57%). 

Em média, a pesquisa prévia que mais influencia a trajetória de um cientista é publicada cerca de dois anos antes de ele divulgar seu primeiro trabalho.

Esse "efeito nostalgia" também revela uma correlação entre tempo de carreira e a idade das referências utilizadas. Em média, a antiguidade das citações aumenta um mês para cada ano adicional de atividade acadêmica. 

No entanto, o estudo também aponta que o envelhecimento dos pesquisadores favorece a chamada "inovação combinatória", na qual pesquisadores mais experientes conseguem relacionar novas pesquisas com um maior número de trabalhos anteriores, mas têm mais dificuldade em romper com o passado e abrir novos campos.

Mais "inovação combinatória", menos disrupção

"Cientistas mais velhos combinam de forma mais criativa os elementos tradicionais de sua área, mas são em grande parte resistentes a novas ideias e frequentemente se opõem a elas", afirma Evans. "A memória é importante, mas tende a resistir à mudança e a descobertas transformadoras."

O trabalho também compara sistemas científicos mais envelhecidos, como os do Japão, Estados Unidos e Reino Unido, com outros mais jovens, como os da China e da Índia, que tendem a produzir pesquisas mais disruptivas. 

Os autores defendem que mudanças nas políticas de trabalho, no financiamento e nos mecanismos de publicação e revisão podem estimular maior abertura à inovação.

Além de Evans, assinam o estudo os pesquisadores Yiling Loin, Lingfei Wu e Haochuan Cui, este último também vinculado à Universidade Normal de Nanjing e à Universidade Normal de Pequim.

---------

Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.