Direita austríaca instrumentaliza medos xenófobos nas eleições | Notícias internacionais e análises | DW | 29.09.2006
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Mundo

Direita austríaca instrumentaliza medos xenófobos nas eleições

Oportunismo político ou ingenuidade, a saída da ministra austríaca da Justiça do partido Aliança para o Futuro da Áustria desencadeia discussão sobre o potencial eleitoral da xenofobia no país e na União Européia.

Cartaz exibe candidato do BZÖ, partido do populista de direita Jörg Haider

Cartaz exibe candidato do BZÖ, partido do populista de direita Jörg Haider

In besseren Tagen

Karin Gastinger ao lado de Jörg Haider

A poucos dias das eleições do Conselho Nacional (parlamento) da Áustria, a ministra da Justiça Karin Gastinger anunciou sua saída do partido Aliança para o Futuro da Áustria (BZÖ), fundado pelo populista de direita Jörg Haider em abril de 2005. O agrupamento forma a coalizão de governo ao lado do Partido Popular (ÖVP), do chanceler federal Wolfgang Schüssel.

O fato em si agradou a muita gente, porém o momento escolhido por Gastinger surpreendeu. Sua justificativa para a decisão foram as manifestações de xenofobia por parte do novo líder da BZÖ, Peter Westenthaler. Os cartazes de sua campanha eleitoral exortam: "A coragem vence: Quota de estrangeiros menos 30%".

Levado ao pé da letra, o slogan implicaria a expulsão de mais de 300 mil pessoas da Áustria. "Não quero participar de nenhum movimento político que seja xenófobo, que instrumentalize o medo", declarou a ministra ao jornal Kurier, de Viena.

Esquecendo deportações passadas

Mas o momento escolhido para tal decisão é tão mais desconcertante pelo fato de os cartazes já estarem nas ruas desde o final de maio. Segundo o cientista político especializado em partidos Anton Pelinka: "Com toda a cautela, o comportamento de Gastinger leva a inferir uma certa ingenuidade política de sua parte. É surpreendente ela dar uma justificativa que poderia ter-lhe ocorrido muito mais cedo. Não é um bom atestado de profissionalismo político".

A chefe do Partido Verde, Eva Glawischnig, está indignada com o slogan da BZÖ. Ela tenta imaginar o que significaria "deportar 30% da população estrangeira, ou seja, o colapso de todo o setor de assistência médica, de turismo, de construções, em que tantas pessoas sem cidadania austríaca trabalham".

Para Glawischnig, a sugestão demonstra profundo desprezo humano. Além disso, a Áustria carrega uma responsabilidade histórica. "Já vimos uma vez nossos vizinhos serem derrotados. Queremos ter presente a necessidade de lidar muito cautelosamente com tais coisas. Infelizmente este não é o caso, no momento."

Wahlen in Österreich - Großbild

Austríacos na selva da campanha eleitoral

Sob a sombra de Jörg Haider

O anúncio de Gastinger, assim tão próximo das eleições, representa um duro golpe para a BZÖ. A chefe de pasta defende posições cada vez mais liberais, dentro do agrupamento e da coalizão de governo.

Segundo pesquisas de opinião, ela é a mais popular entre os seis ministros da BZÖ que compõem o governo conservador de direita. O partido poderá perder o lugar no parlamento: sua preferência entre os eleitores está na faixa de 3%, portanto abaixo do mínimo exigido de 4%.

A BZÖ não é a única a apelar para palavras de ordem de caráter xenófobo. O Partido da Liberdade (FPÖ), igualmente fundado por Haider, faz uso ainda mais maciço delas. Mesmo sem sua antiga figura de proa, o agrupamento tem bastante sucesso: segundo enquetes, tem o apoio de 9% a 10% dos eleitores.

Seu candidato é Hans-Christian Strache, considerado "o novo Haider" por seus adeptos. "Strache copia Haider em diversos aspectos, inclusive no estilo de discursar. É extremamente lamentável para a Áustria o fato de ainda funcionar essa receita: fazer política com o puro medo", analisa Eva Glawischnig.

Arma das vítimas da modernização

"A xenofobia explora um medo ou potencial de medo pré-existente", concorda o politólogo Pelinka. "O medo das chamadas vítimas da modernização, gente com uma má formação, que não fala nenhum idioma estrangeiro e que teme – não sem razão – que pessoas dos novos países da União Européia ou imigrantes lhes façam concorrência através de um dumping salarial."

A verde Eva Glawischnig responsabiliza a política de cortes do governo pela falta de integração dos estrangeiros. "Cerca de 5300 professores e professoras foram cortados, sobretudo nos setores de incentivo, integração e ensino de alemão."

A Áustria não é caso único no tocante à xenofobia. Na Suíça, um plebiscito acaba de decidir o endurecimento das leis de asilo e de estrangeiros. "Contudo, essa decisão mostra com que urgência é necessária uma política de esclarecimento, não apenas na Áustria como em outros países europeus", aconselha Glawischnig.

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