DEPOIMENTOS DOS USUÁRIOS (2) | Especiais e séries de reportagens da Deutsche Welle Brasil | DW | 04.02.2005

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Especial

DEPOIMENTOS DOS USUÁRIOS (2)

Mais comentários de nossos usuários sobre o final da Segunda Guerra Mundial.

Soldados alemães na costa francesa durante a Segunda Guerra

Soldados alemães na costa francesa durante a Segunda Guerra

Enquanto acontecia a tomada triunfal de Berlim, o mundo comemorava o fim de anos de terror, nazismo, torturas e imensuráveis perdas – nas mais diversificadas acepções da palavra. Sob a ótica de uma nova ordem mundial – a da Guerra Fria –, o mundo ocidental conheceu o progresso, impulsionado pelos planos de reconstrução e reestruturação, presentes principalmente no Oeste Europeu. O fato que poucos fazem questão de recordar é o início de um regime comunista que se instaurava no Leste da Europa e perduraria pelas décadas seguintes. Décadas permeadas de mais angústias, censura, repressão e cerceamento da liberdade.

Fugas, portanto, não cessaram logo ao término da guerra. Conflitos sociais, portanto, não deixavam de irromper com o fim da guerra. Atrasos econômicos, portanto, não foram evitados com aquela conquista tão esperada e celebrada. O fim, portanto, não era fim, e sim apenas o começo.

Para aqueles que sentiram na carne a dura dominação dos comunistas, ou tiveram parentes próximos em situações semelhantes, fica mais fácil compreender o que o simples marco de 1945 representaria.

Tenho 19 anos e moro em São Paulo. Felizmente não tive que passar por experiências decorrentes da insana guerra do século passado, cujo palco foi a Europa. Meu pai, porém, aos 6 anos de idade, teve de fugir com a família, após a eclosão da Revolução de 1956 na Hungria. A questão primordial não é o fato de meu pai ter passado fome, angústia e frio na neve infinda que separava o Leste do Oeste, mas sim o fato de uma revolução – aparentemente irrelevante – ser produto de uma segregação política mundial originada pelo fim da Segunda Guerra. E todos sabemos que não apenas na Hungria e na Tchecoslováquia (com a Primavera de Praga) houve revoluções em prol da liberdade. Toda a Europa Oriental sofreu conseqüências graves decorrentes da ditadura comunista.

Portanto, o 8 de maio de 1945 foi não somente um momento de alegria e libertação para uns, mas também o antônimo disso para outros. E somente através dessa data tão marcante é que somos capazes de perceber o imenso paradoxo que constitui a História dos homens.

Thomas Kiss

Não vivenciei o fim deste conflito mundial, mas através do comentário de pessoas da minha família, tanto no Brasil quanto na Alemanha, significou um dos períodos mais promissores para a reflexão dos homens no que diz respeito ao convívio entre si e à reestruturação de novas relações internacionais, à tentativa de buscar um novo caminho para a humanidade, não pautado mais por veias racistas e, por conseguinte, à eliminação da compreensão da existência do OUTRO, o apenas étnica e culturalmente diferente de mim, todavia não inferior a mim mesmo, mediante os anteriores regimes totalitários do fascismo e do nazismo.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial foi dado um importantíssimo passo para maior desenvolvimento tecnológico e para a constituição da ONU, para a garantia da soberania entre as nações, embora ainda esteja muitas vezes sobrepujada, como pudemos presenciar na invasão do Iraque e do Afeganistão, de maneira geral, a partir do interesse exclusivista de nações que detêm o maior poder político e econômico.

Também com o fim da Segunda Guerra presenciamos não mais um conflito bélico de porte mundial, mas a Guerra Fria entre os EUA e a ex-URSS que levou a outros conflitos isolados no mundo, como a Guerra do Vietnã, em que estas duas nações buscaram a expansão tanto da ideologia capitalista quanto socialista no mundo.

Além do mais, e especialmente a partir da década de 80 do século passado, o fim da Segunda Guerra nos permitiu a configuração de uma nova reestruturação política entre as nações, embasada no neoliberalismo que, se não domina belicamente outras nações, sufoca o desenvolvimento de suas economias internas em favor dos interesses externos dos países e organizações correlatas a seus interesses imperialistas.

Não consigo pensar no significado da Segunda Guerra Mundial sem analisar que a humanidade ainda deve muito refletir sobre os crimes hediondos que foram cometidos com a omissão, naquela época histórica, inclusive da Igreja Católica, para que não se repita mais o fratricídio que foi o Holocausto. Por fim, apesar do término da Segunda Guerra, vale ressaltar que ainda temos na Alemanha a reconfiguração do partido nazista que se pretende democrático...

Fica então a pergunta: será que a humanidade tem aprendido concretamente, nas vivências sociais, a lição do respeito ao próximo, da aproximação dos povos na perspectiva de uma cidadania globalizada e do desafio atual do interculturalismo, ou ainda corremos o risco da repetição na história dos mesmos caminhos anteriores de barbárie de eliminação do homem pelo próprio homem?

A partir destes fatos comentados, parece-me que ainda corremos o risco, infelizmente, da emergência de outro conflito de porte mundial ainda exarcerbado pelos ataques terroristas, dos quais ainda não sabemos, de fato, se existem ou não nações patrocinando este genocidio sem face.

Raquel Elza Oliveira Glotz

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Eu não vivi aqueles tempos, mas como militar de um país amigo, há dois anos tive a oportunidade de estar na Alemanha a serviço e pude visitar desde Munique até Berlim. Estive em Magdeburg num centro de treinamento do Exército alemão e observei que aquele soldado prussiano não mais existe. Isto deixa um pouco de nostalgia no ar, pois esquecer Moltke, o velho, é como esquecer as raízes do povo alemão; além de que apagar determinados valores militares por confundi-los como sendo unicamente pertencentes ao soldado nazista deturpa e corrompe o que existe de mais marcante na personalidade alemã, que é o senso de organização, de honra e lealdade. Estes valores perdidos geram uma lacuna que será preenchida por valores nem sempre sólidos e corretos.

Ainda andando pela Alemanha, observei uma estátua de um líder alemão e perguntei para dois transeuntes, quem era? O primeiro disse que não sabia porque a estátua estava sem nome e o segundo, um senhor, que ficou contente por eu ter reparado na estátua, me disse que se tratava de Bismarck. Como não conhecer Bismarck? Eu que não sou alemão sei de sua importância para a história alemã.

Entretanto foi em Berlim onde senti a presença mais forte da guerra. O cemitério russo perto do Portão de Brandengurgo, as pedras no solo a marcar onde ficava o Muro e a floresta de guindastes tentando reerguer a velha Berlim com ares cosmopolitas. Ao andar pela cidade uniformizado e chegar ao meu quarto perto do rio Spree senti uma pressão e uma animosidade no ar, como se o ar se fechasse em torno de mim e o meu lugar não fosse ali, como se estivesse violando algo que não via, um sentimento muito ruim girava em torno de mim, e sinceramente orei pelas almas daqueles que sofreram aqueles dias tão terríveis, e só após isso senti certa paz...

Hoje, além de analisarmos o homem atual, globalizado e tecnológico, temos que olhar para trás e lembrar daqueles que viveram os dias de fúria e vendaval que caracterizaram a Segunda Guerra Mundial, para que a juventude que não os vivenciou aprenda e olhe para o futuro com a consciência de que nada detém a marcha impune dos ponteiros do relógio. E que, acima de tudo, ainda há um trabalho a ser feito por eles, que não basta reconstruir ruas e prédios, mas resgatar valores que não têm nada a ver com comunismo ou nazismo, mas sim com o significado maior de ser um ser humano, que ser gente significa amar e honrar sua gente e sua terra; e que sua terra está contida em algo muito maior. Creio que para a Alemanha atual é muito pouco ser o coração da Europa, tem que ser parte do mundo.

José Alberto Silveira Ribeiro

Nasci sete anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, mas como todos os garotos da minha geração, ela teve um papel importante na minha vida. Como o meu país enviou uma força expedicionária para lutar no teatro de operações, minha cidade sempre exaltou os veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB), e todo ano no dia 8 de maio eu participava do evento na Associação dos Expedicionários. Era uma festa muito bonita, com a banda executando o Hino dos Pracinhas da FEB, discursos, exposições e muita comida.

Nessa época o meu país já vivia sob a ditadura militar que tinha ocorrido em 1964, e a FEB tinha todo o apoio institucional para comemorar o Dia da Vitória. Além disso vários programas e documentários eram apresentados na televisão, inclusive um americano, sob o título: Século XX, onde o destaque ficava para a Segunda Guerra Mundial, além de uma famosa série americana denominada Combate, muito popular entre nós garotos. Sempre que encontrava algum cidadão de origem germânica, lá estava eu perguntando sobre o assunto, mas a maioria declinava conversar sobre o tema, pois sentia vergonha, eu creio.

Mas me lembro muito bem de um senhor que conheci quando eu trabalhava como carteiro. Seu primeiro nome era Wolf e conversamos durante quase uma hora sobre sua participação nos campos de batalha quando o Exército alemão invadiu a Rússia e sobre sua vinda ao Brasil. Ele dizia que não tinha mais coragem de voltar à Alemanha, pois como sua família era pequena, ele sabia que todos tinham morrido no triste bombardeio aliado sobre a cidade de Dresden, e disse que o dia da vitória para ele foi ter sobrevivido e conseguido morar no Brasil em paz.

Do ponto de vista pessoal, o fim da Segunda Guerra significou o surgimento de uma mentalidade ufanista na minha geração, onde os valores pró-americanos passaram a fazer muito parte das nossas vidas. Os Estados Unidos para nós teria sido "o país mais importante para a derrota do nazi-fascismo” e, a partir disso, nós passamos a exaltar cada vez mais os valores americanos. Claro que uma outra guerra já estava se desenvolvendo no campo ideológico, que era a Guerra Fria.

Música, indumentárias, filmes americanos, entre outros itens, passaram a fazer parte da nossa visão de mundo e, só após o golpe de 64, alguns conseguiram se desprender dessa “escravidão ideológica” e quebrar a idéia dos alemães como um povo belicoso e que uma guerra pior que a Segunda Guerra Mundial poderia acontecer, que era a guerra nuclear.

Cassiano Alves Macedo

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O meu pai, Geraldino Romais, nasceu em 1937, portanto, tem 67 anos de idade. Três gerações de minha família vivenciaram a Segunda Guerra Mundial. Com certeza, o episódio influenciou suas vidas. Se a vida comum, de agricultores, já era difícil, com a Segunda Guerra Mundial piorou. Conforme relatos de meu pai, na época, os descendentes de alemães no Brasil sofreram humilhações pelo simples fato de ser “descendentes de alemães”. Não podiam professar a fé, não podiam conversar no dialeto pomerano e foram julgados culpados por algo que nem bem entendiam, dadas as dificuldades de comunicação da época.

Eu mesmo cresci ouvindo o meu pai relatar alguns preconceitos a que todos os descendentes de alemães eram submetidos. A sociedade local agiu com preconceito um bocado de vezes. Os descendentes, por exemplo, em território espírito-santense, adotaram a farinha de mandioca e milho, usada na culinária pelos nativos, como parte essencial em sua mesa. Os famosos “Milhabrout” (pães de milho) acabaram recebendo o reforço de cereais como o cará e inhame, plantas comuns de regiões quentes do Brasil. Pelo simples hábito alimentar, tanto meu pai, como meu avô, eram classificados como “alemão azedo”. Certamente a pecha era única e exclusivamente um reflexo da Segunda Guerra Mundial.

Ser identificado como descendente de alemão, após a Segunda Guerra, era como se alguém concordasse com a atuação do partido e dos governantes na Alemanha durante os dias de combate. Uma grande injustiça! Foi por isso que muitos descendentes de alemães, aqui no Brasil, viveram reclusos por muitos anos. Muitos sentiram vergonha de “falar em alemão”, ou em “pomerano”, no caso dos descendentes que habitam o Estado do Espírito Santo. Eu mesmo poderia ter aprendido a me expressar no dialeto pomerano, mas a vergonha e o sentimento de rejeição por parte de meus amigos na escola bloquearam esta iniciativa.

Ressalto, entrementes, que meu relato não tem como objetivo dizer que “o povo brasileiro agiu de forma inadequada” ou que “os descendentes ou os alemães são maravilhosos”. Não é isso. Hoje, no entanto, creio que a vergonha e o sentimento de rejeição já não fazem parte do cotidiano dos descendentes. Sei que filhos de primos meus aprendem o dialeto pomerano, tendo aulas com os mais velhos. As gerações são outras. A Segunda Guerra Mundial já não tem aquele impacto de antes na vida das pessoas. Por tudo isso, é preciso que a mídia, governos e sociedades organizadas lutem contra a idéia de novas guerras.

Já na época da Segunda Grande Guerra, a realidade mundial mostrava que não era preciso colocar povos contra povos, países contra países. É inacreditável e inconcebível que, em 2004, uma nação invada a outra, mate seres humanos e distribua toda uma série de infortúnios. É inconcebível que emissoras de rádio e de televisão manipulem notícias sobre guerras e lutas. É preciso que veículos denunciem políticos insanos e perversos que insistem em matar. É preciso paz! É preciso um mundo sem o horror das guerras!


Célio Romais (jornalista) – Porto Alegre (RS)

Estive visitando a região central do conflito, percorri áreas da atual Alemanha, Polônia e Lituânia, pude avaliar como idéias absurdas, defendidas como “verdades absolutas”, despiram sociedades e povos de suas raízes culturais, familiares, além de subjulgá-los a qualquer preço.Os fins justificavam os meios utilizados, não poupando escrúpulos e atos extremistas na execução das atrocidades cometidas.

Os séculos de conhecimento acumulado foram queimados como lenha, ou melhor como lixo, sonegando às gerações vindouras o acesso a história e culturas até extintas.

As construções milenares esfareladas sem propósito algum, milhares de obras de arte perdidas e pilhadas de igrejas, museus, centros culturais, praças, prédios públicos, que denotam que o “homem moderno” regrediu à era da pilhagem dos bárbaros. O extermínio de seres humanos e a utilização de mão-de-obra escrava foram os atos mais covardes cometidos pelo próprio homem, conscientemente, contra seu semelhante, usurpando os valores básicos da pessoa humana, em escala “industrial”, sem prescedentes. Os meios maquiavélicos mostram como as mentes “brilhantes“ foram canalizadas para algo absurdo, desumano, incompreensível.

O poder nas mãos de uma elite sem qualquer escrúpulo, manipulando o inconsciente de uma coletividade, através principalmente dos meios de comunicação e educação, criaram “verdades”, ódios, estímulos e ações que justificavam e identificavam a “correta conduta a ser seguida”. Os limites entre a realidade e a ficção foram superados pelos métodos empregados e atos cometidos num conflito de interesses vazios e extremamente hipócritas. O fim de todo o conflito representou a meu ver o quanto o mal ao próximo é tolerado e permitido, e que a ação de correção só é adotada quando atinge algum interesse, do contrário a situação é ignorada como assunto do “quintal de alguém”, não importando quem, o quê, ou quanto algo está sendo feito contra a dignidade do ser, que ainda parece humano.

Antonio Barroqueiro

Não vivi o conflito e o impacto da Segunda Guerra Mundial, porém o mundo, pela primeira vez, conheceu algo que mudou a vida de todos até hoje. No dia em que tivemos a certeza de que a bomba atômica era realmente uma ameaça à existência da humanidade, creio que a partir daí tivemos que refletir um pouco mais sobre os atos humanos na Terra.

Não houve ética como continua não havendo... e descobrimos que somos nós um perigo à própria espécie.

A visão turva do "poder" não permite ver as conseqüências do futuro. Não creio que antes ou depois da Segunda Guerra houve um resultado maior no sentido de paz. As disputas por territórios continuam cada vez mais intensas. Porém, relembrar essa data é revisar nossos próprios juízos, sermos tocados pelo espírito de reflexão crítica para um possível bem-estar, não apenas de uma nação mas da humanidade enquanto tal.

Maria Célia Scavassani Schultz (Professora de História e Filosofia )

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