Da revolução à guerra civil na Líbia | Notícias internacionais e análises | DW | 05.04.2019
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África

Da revolução à guerra civil na Líbia

Oito anos depois de intervenção liderada pela Otan ajudar a derrubar ditador Muammar Kadafi, país está mergulhado numa guerra civil envolvendo uma série de grupos armados e governos rivais. Entenda o conflito.

Membros do Exército Nacional Líbio em Sebha

Membros do Exército Nacional Líbio em Sebha, a maior cidade do sul do país

A Líbia mergulhou no caos após uma revolução apoiada pela Otan em 2011, que resultou na morte do ditador de longa data Muammar Kadafi. Desde então, o país está dividido entre governos rivais no leste e no oeste e uma série de grupos armados que disputam poder e petróleo.

Em seu cerne, o conflito gira em torno de diferenças entre campos islâmicos e nacionalistas; rivalidades étnicas e tribais; identidades regionais e locais; e acesso a petróleo e recursos financeiros.

Como a Líbia acabou ficando com governos rivais?

Em 2014, eleições parlamentares contestadas levaram à formação de dois governos rivais: um na capital ocidental, Trípoli, e outro no leste do país.

A divisão se deu após um bloco islamista apoiado por grupos armados se recusar a encerrar o mandato transitório de 18 meses do agora extinto Conselho Geral Nacional depois de o bloco ser derrotado nas eleições.

Confrontos em Trípoli entre facções islamistas e forças leais ao comandante militar Khalifa Haftar levaram a recém-eleita Câmara dos Representantes a se mudar para a cidade de Tobruk, no leste do país. O governo oriental foi apoiado pelo autointitulado Exército Nacional Líbio, de Haftar, que liderou a luta contra milícias islamistas.

O que aconteceu com o governo apoiado pela ONU?

Em 2015, a ONU mediou um acordo de compartilhamento de poder que estabeleceu um órgão conhecido como Conselho Presidencial, liderado por Fayez al-Sarraj. O governo reconhecido internacionalmente foi instalado em Trípoli no início de 2016, mas desde então vêm enfrentando dificuldades para controlar o país e uma série de milícias ao redor de Trípoli.

O Conselho Presidencial e o governo que ele supervisiona – o interino Governo do Acordo Nacional – deveriam acabar com diferenças políticas entre os governos rivais no leste e oeste do país.

No entanto, a Câmara dos Representantes, que permaneceu como o Parlamento reconhecido internacionalmente como legítimo, nunca endossou o Governo do Acordo Nacional, como previa o acordo apoiado pela ONU.

Em vez disso, o Parlamento apoiou o governo oriental de Abdullah al-Thinni e reconheceu o Exército Nacional Líbio de Haftar.

O resultado foi a formação de estruturas de segurança concorrentes nos governos no leste e no oeste. Os dois governos rivais também estabeleceram bancos centrais paralelos e corporações petrolíferas nacionais concorrentes.

E os recursos petrolíferos?

A disputa em torno dos recursos de gás e petróleo da Líbia – a principal fonte de receitas públicas, representando uma grande parte da economia – tem sido um dos principais motores do conflito.

A luta pelo petróleo foi exacerbada por reclamações históricas de populações do leste do país, que argumentam ter tradicionalmente recebido menos recursos do que o oeste, apesar de produzirem 80% do petróleo líbio.

Desde 2014, as forças de Haftar vêm tirando o controle sobre o petróleo líbio das mãos de milícias alinhadas sobretudo ao governo e de grupos islamistas no leste, onde campos de petróleo e terminais de exportação estão localizados. No começo deste ano, as forças de Haftar lançaram uma ofensiva no sul do país, rico em petróleo, e garantiram o controle sobre postos de fronteira.

Qual a posição da comunidade internacional?

A guerra civil na Líbia foi complicada por rivalidades internacionais. Preocupados com o papel da organização islâmica radical Irmandade Muçulmana em Trípoli, o Egito e os Emirados Árabes Unidos apoiaram o governo no leste e deram apoio militar ao Exército Nacional Líbio. A Rússia também apoia Haftar.

A União Europeia, os Estados Unidos e a Turquia declararam apoio ao governo baseado em Trípoli, no oeste. No entanto, rivalidades entre a França e o antigo colonizador da Líbia, a Itália, minaram uma posição europeia comum.

Embora Itália e França tenham apoiado o Governo do Acordo Nacional, ambos os países cortejaram Haftar devido ao seu papel de liderança na luta contra militantes islamistas. A França forneceu a Haftar apoio militar e de inteligência.

Particularmente Roma preocupa-se com a desordem que transformou a Líbia num trampolim para migrantes que chegam à Europa. A Itália apoiou o Governo do Acordo Nacional e trabalhou junto a milícias para conter fluxos migratórios da Líbia para o continente europeu, os quais diminuíram drasticamente ao longo do último ano.

Há uma solução política à vista?

A ONU deve realizar uma Conferência Nacional da Líbia neste mês com o objetivo de desenvolver um plano para eleições parlamentares e presidenciais atrasadas, com o objetivo de unir o país. A tentativa da ONU vem após esforços da Itália e da França, no ano passado, para unir facções líbias rivais e potências internacionais e, assim, reduzir as diferenças entre leste e oeste do país.

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