Crise da dívida ameaça também os países emergentes | Notícias e análises sobre a economia brasileira e mundial | DW | 09.08.2011
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Economia

Crise da dívida ameaça também os países emergentes

Problemas financeiros nos EUA e na Europa podem levar à redução nos investimentos de empresas estrangeiras nos países emergentes. Fluxo de capitais especulativos supervaloriza as moedas locais e prejudica exportações.

default

Pregão da Bovespa

A ascensão dos emergentes assemelha-se a um conto de fadas: muitos países antes classificados – com uma certa dose de compaixão – como integrantes do Terceiro Mundo evoluíram hoje para locomotivas da expansão econômica, em benefício também de nações exportadoras como a Alemanha.

Como lembra o jornal alemão Handelsblatt, entre as doze maiores potências econômicas da atualidade estão a China, a Rússia e a Índia, três nações que, no século 20, ainda lutavam contra a pobreza e a fome, que atingiam grande parte da população.

Mas os emergentes não estão completamente desatrelados das turbulências do mercado financeiro internacional, afirma a economista Maria Lanzeri, do Deutsche Bank Research. "Uma crise com a mesma força que aquela que veio depois da queda do banco Lehman Brothers seria ruim para os emergentes. Ela traria uma nova recessão", afirma.

Caso a crise da dívida na Europa e nos EUA se agravar haveria o chamado "efeito líquido negativo": não apenas haveria uma queda nos investimentos de empresas estrangeiras nos países emergentes, como também retirada de capital. O dinheiro antes usado em investimentos seria necessário em outras áreas, para remendar buracos causados pela perdas originadas pela crise.

Dependência de investimentos externos

O risco de contágio é alto principalmente nos países onde os mercados internos são dominados pelos investimentos estrangeiros. Isso se aplica especialmente para nações do Leste Europeu, como a Hungria e a Polônia, mas também para Israel, México, Rússia, Brasil, Indonésia e África do Sul, afirma Lanzeni.

China e Índia, ao contrário, possuem economias mais robustas. Com taxas de crescimento entre 8% e 10% ao ano, essas nações acumulam reservas suficientes, que permitem manobras como, por exemplo, programas de estímulo econômico.

"Acredito que, a longo prazo, os emergentes continuarão sendo atraentes", diz Lazeni. Segundo a especialista, há muitos fatores favoráveis, como "a idade média da população, uma nova classe média como nova classe consumidora, fundamentos econômicos muito melhores do que nas nações ocidentais e, por fim, uma política econômica claramente melhor."

Pilares da economia mundial

O papel dos emergentes como pilares da recuperação econômica mundial trouxe vantagens principalmente para as empresas alemãs, durante a crise pós-Lehman Brothers. China, Índia e Brasil compraram máquinas industriais, equipamentos e carros made in Germany.

Também para os investidores os países emergentes se tornaram atraentes: eles optaram por colocar seu dinheiro nesses mercados, de olho nos altos juros pagos. Mas agora essa situação levou a um superaquecimento do mercado financeiro, com a ameaça de bolhas especulativas e de aumento da inflação.

"Eu só posso alertar em relação a ações de empresas chinesas", diz Vincent Strauss, chefe do Magellan, mais antigo fundo de investimento em países emergentes, ao jornal Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung. Ele disse não acreditar que o governo chinês vá conseguir controlar a inflação, que cresce em ritmo acelerado.

Segundo ele, a potência asiática sofre de "superinvestimento": a construção da malha ferroviária e de estradas é muito rápida, e as indústrias de cimento e aço estariam sobrecarregadas. Segundo Strauss, a transformação de uma sociedade industrial para uma sociedade de serviços, o que deveria acontecer nos próximos anos, é muito difícil dentro de um sistema comunista, no qual não se pode falar em deficiências. "Em resumo: a China é um acidente que ainda está por vir."

Inflação importada

Os efeitos da crise de endividamento já podem ser sentidos há algum tempo nos países emergentes. Com juros baixos devido à crise, a Europa e os Estados Unidos inundam os mercados com capital. Esse dinheiro vai parar nos mercados emergentes, que pagam juros mais altos, e acaba gerando inflação.

Para desestimular o consumo e assim combater a inflação, essas nações precisam elevar ainda mais os seus juros, o que por sua vez atrai ainda mais capital, além de atrapalhar o crescimento do setor produtivo.

Além disso, as chamadas carry trades voltaram ao uso: investidores contraem empréstimos a juros baixos nos Estados Unidos, por exemplo, e investem o dinheiro no dólar de Cingapura, no real do Brasil ou no rublo da Rússia, países que pagam juros mais altos. "Com isso essas moedas se valorizam, prejudicando as empresas exportadoras desses países", comenta Strauss.

Uma rápida análise do mercado de ações de alguns países emergentes mostra como a conjuntura nesses locais piorou em decorrência da crise nos mercados mundiais. Enquanto que as principais ações na China perderam 6,5% do valor desde o começo do ano, países como Polônia, Taiwan e Turquia acumulam perdas que ultrapassam os 10%. A Índia sofreu perda de mais de 15%, ficando somente atrás do Brasil, com perdas superiores a 20%.

"Também nos países emergentes há desaceleração, ainda que o crescimento seja relativamente robusto. A desaceleração econômica global, temperada pela crise das dívidas europeia e norte-americana, traz consequências para todos os lugares", avalia Thomas Mayer, economista chefe do Deutsche Bank.

Autor: Klaus Ulrich (np)
Revisão: Alexandre Schossler

Leia mais