Coreia do Norte faz ofensiva contra ″cultura estrangeira″ | Notícias internacionais e análises | DW | 08.06.2021

Conheça a nova DW

Dê uma olhada exclusiva na versão beta da nova DW. Sua opinião nos ajudará a torná-la ainda melhor.

  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages
Publicidade

Mundo

Coreia do Norte faz ofensiva contra "cultura estrangeira"

Cortes de cabelo, roupas, música e até gírias de jovens entram na mira da polícia política norte-coreana. Para especialista, um sinal de que o regime sabe que está ameaçado.

Mulher caminha em Pyongyang: patrulha política monitora vestimentas nas ruas

Mulher caminha em Pyongyang: patrulha política monitora vestimentas nas ruas

Recentemente, adolescentes foram levados para um tribunal norte-coreano algemados, com claros sinais de que haviam passado por um duro interrogatório. Segundo o NK News, site de notícias sobre a Coreia do Norte baseado nos EUA, tratou-se de um julgamento público em Nampo, para os três meninos e quatro meninas.

Os adolescentes foram acusados de "crimes graves”, segundo a promotoria pública: assistir a filmes e séries de televisão sul-coreanos e compartilhá-los com colegas de escola. Sem alarde, foram condenadas a passar cinco anos num dos notórios campos de reeducação da Coreia do Norte.

Intensificação da patrulha política

Nos últimos três anos, o governo norte-coreano intensificou drasticamente os esforços para impedir que seus cidadãos tenham acesso a notícias, filmes e outros programas de fora das fronteiras.

A polícia vem detendo quem tiver um corte de cabelo de "influência sul-coreana", por usar roupas que sejam consideradas estrangeiras ou por usar gírias ou termos cotidianos mais comuns ao sul da Zona Desmilitarizada que divide a Península Coreana.

Agindo com base em denúncias, a polícia secreta realiza batidas policiais em casas onde haja suspeitos de ter assistido a programas em DVDs ou USBs. O material geralmente chega aos norte-coreanos contrabandeado a partir da China ou enviado pela fronteira anexado a balões lançados no Sul por desertores e ativistas dos direitos humanos.

Batidas em casas suspeitas

A força da repressão revela que o regime de Kim Jong-un está genuinamente preocupado com o fato de as gerações mais jovens de norte-coreanos estarem sendo influenciadas por eventos além das fronteiras do país.

Com informações e provas das mentiras de seus líderes, o ressentimento e a resistência podem crescer gradualmente entre os jovens.

"Kim e os escalões superiores do regime norte-coreano têm muito medo de mensagens e informações de fora entrando no país e influenciando a maneira como as pessoas pensam", diz Toshimitsu Shigemura, professor da Universidade Waseda de Tóquio e autor de uma série de livros sobre a dinastia Kim.

"Eles temem que os jovens virem as costas à cultura norte-coreana - o que significa essencialmente devoção à dinastia Kim - e ao seu sistema político, o que poderia muito facilmente ser fatal", comenta ele à DW.

"Eles estão se esforçando para derrubar qualquer um que apanhem porque sabem que se os militares acabarem 'infectados' com ideias externas e isso se espalhar para o partido, tudo isso pode vir abaixo", acrescenta ele.

Rah Jong-yil, um ex-diplomata e chefe do departamento de inteligência da Coreia do Sul encarregado de monitorar a Coreia do Norte, afirma que Pyongyang conseguiu sobreviver a intensas pressões geopolíticas, militares e econômicas durante o último meio século.

Elas incluem sanções internacionais impostas devido a seus programas de armas nucleares e mísseis.

Segundo o especialista, seria "profundamente irônico" se o regime fosse finalmente colocado de joelhos pelas telenovelas sul-coreanas contrabandeadas.

Weltspiegel 08.06.2021 | Nordkorea Pjöngjang | Kim Yong-un

O ditador Kim Jong-un, que segundo especialista sabe o que significa para os jovens ganhar acesso a informação

Paralelos com fim da URSS

"Em um estado totalitário como a Coreia do Norte, algo tão simples quanto isso é uma ameaça muito séria à sobrevivência do regime", diz Rah. "E não importa o que sua polícia secreta faça, acho que será virtualmente impossível colocar o gênio de volta na garrafa agora: muitas pessoas na Coreia do Norte conseguiram vislumbrar como é a vida no resto do mundo."

Rah diz que há paralelos claros entre o que está acontecendo hoje na Coreia do Norte e o colapso da União Soviética.

Ele diz que os sinais do colapso do comunismo estão lá atrás, nos anos 50, quando foi feito um programa de intercâmbio em que Estados Unidos e União Soviética enviaram um único exemplo de sua maior conquista para a capital do outro país.

Enquanto os soviéticos enviaram um modelo do Sputnik, os EUA mandaram uma cozinha totalmente equipada de uma casa de classe média. A resposta entre os residentes de Moscou foi "incrível", conta Rah, com uma cozinha revelando-se uma das armas mais poderosas na guerra de propaganda entre as duas superpotências.

E os programas de televisão estrangeiros, prevê o especialista, terão o mesmo impacto na Coreia do Norte.

"Eles estão se esforçando muito para suprimir as influências externas, mas a tecnologia chegou ao ponto de que é fácil contrabandeá-la para o país e depois escondê-la", diz. "Mas o fato de estarem tão preocupados e estarem aprovando novas leis tão poderosas é revelador. Isso mostra como a ameaça é séria."

Fuzilado por traficar filmes

Em março, o jornal oficial Rodong Sinmun publicou uma série de textos condenando a forma "degenerada" com que muitos norte-coreanos estariam agora se vestindo, falando e usando maquiagem.

"O uso de linguagem desonrosa prejudica a harmonia e a unidade dos comunistas e tem uma má influência na sociedade", diz o texto. Proteger a cultura da nação, prossegue o jornal, "é uma questão de saber se seremos capazes de proteger nossa identidade nacional contra uma invasão por todo tipo de ideologias e estilos de vida insalubres e degenerados".

Em maio, a esposa, o filho e a filha de um homem identificado apenas pelo sobrenome, Lee, foram forçados a sentar na primeira fila para assistir enquanto ele era executado por um pelotão de fuzilamento em Wonsan. Ele fora considerado culpado de vender CDs e USBs contendo filmes e vídeos musicais sul-coreanos.

A família entrou em colapso quando a sentença foi executada, segundo o site NK News. Depois, eles foram forçados a entrar em um veículo para serem transportados para um campo de prisioneiros políticos pelo crime de não terem denunciado a venda ilegal de CDs.

Leia mais