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Copa em tempos de crise

14 de junho de 2018

Faltam poucos dias para o Mundial da Rússia, mas a empolgação entre os brasileiros ainda é comedida. O país do futebol é, no momento, também o da crise econômica, política e da desconfiança. Há clima para Copa?

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Vendas no comércio de rua do Rio de Janeiro estão devagar
Vendas no comércio de rua do Rio de Janeiro estão devagarFoto: Agencia Brasil/Fernando Frazão

Uma pesquisa divulgada pelo Datafolha nesta terça-feira (12/06) mostrou que 53% dos brasileiros não tinham interesse pela Copa do Mundo, em comparação à taxa de 18% registrada em 2009.

Diante do apelo histórico do evento no país, era de se esperar que a aproximação do pontapé inicial, nesta quinta-feira, acabasse por empolgar a população.

Porém, o que se observa nas ruas e conversas é, ao menos por enquanto, um surpreendente desânimo com o Mundial. No Rio, palco da final da última edição, ruas que são tradicionalmente enfeitadas para o torneio exibem pinturas desgastadas nos muros, feitas há quatro anos.

É na cidade que acontece a mais antiga e popular festa de rua para acompanhar os jogos do Brasil. O Alzirão, na Tijuca, Zona Norte, recebeu pelo menos 300 mil pessoas em 2014 e não iria acontecer neste ano pela falta de patrocinadores.

O imbróglio só foi resolvido na última sexta-feira (08/06), com a entrada em cena do governador Luiz Fernando Pezão. Ele ligou pessoalmente para o presidente da cervejaria Ambev e pediu os 500 mil reais necessários para o custeio da festa.

As explicações dos que manifestam indiferença com a Copa são diversas e, por vezes, complementares. Há quem enxergue no evento, por exemplo, uma oportunidade para que o governo Michel Temer crie um falso clima de otimismo.

"Eu costumava ficar empolgada com a Copa, mas não tem clima desta vez. A gente acabou de sair da crise dos caminhoneiros, e a população está mais ligada no governo tentando mascarar as principais necessidades”, diz a vendedora Andressa Santos, de 22 anos.

A opinião é compartilhada pelo produtor cultural Vinícius Wu, de 38 anos. "O governo vai usar a Copa para tentar mostrar uma normalidade institucional que não existe. A gente vê um desânimo generalizado”, comenta.

No último domingo (10/06), pesquisa divulgada pelo Datafolha revelou que a reprovação a Michel Temer subiu 12 pontos percentuais desde abril e chegou a 82%. Com isso, ele se tornou o presidente mais impopular da história.

A insatisfação com a política, refletida no desânimo com o Mundial, se estende à administração do futebol no Brasil, representada na figura da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

O ex-presidente da entidade José Maria Marin, de 86 anos, cumpre prisão em Nova York. Ele foi condenado pela Justiça dos EUA em dezembro do ano passado por integrar organização criminosa; três delitos de lavagem de dinheiro e outros dois de fraude em subornos envolvendo a cessão dos direitos de televisão e marketing de competições futebolísticas.

Seu sucessor, Marco Polo del Nero, foi banido para sempre do futebol pela Fifa em abril deste ano. A federação o considerou culpado em acusações que envolvem "suborno e corrupção”; "oferecer e aceitar presentes e outros benefícios” e "conflitos de interesse”.

Uniforme canarinho rejeitado

Para uma parte da população, a repulsa à CBF vai além da associação aos crimes praticados pelos "cartolas”. O tradicional uniforme canarinho passou a ser visto como um símbolo daqueles que foram às ruas pedir o impeachment de Dilma Rousseff entre 2015 e 2016.

"É impossível não associar uma coisa à outra. Para piorar, o Neymar, estrela da seleção, apoiou publicamente o Aécio Neves na campanha de 2014”, reclama Vinícius Wu.

Uma reportagem da revista Época desta semana mostra que o uniforme reserva do Brasil, na cor azul, esgotou em poucas semanas nas lojas da Nike, fornecedora de material esportivo da seleção.

Quem recorreu ao site da marca, por sua vez, teve que esperar a reposição de estoque. O bom resultado das vendas chama atenção especialmente pelo preço do produto, que varia de 249 a 449 reais.

No Saara, tradicional mercado popular do Centro do Rio onde são vendidas réplicas da camisa oficial e outros artigos com as cores da seleção, a situação era contrastante.

A maioria dos vendedores reclamava do desempenho das vendas. "O pessoal vem olhar, demonstra interesse, mas muda de ideia quando vê o preço”, comenta Damara Oliveira. O valor dos modelos variava entre 30 e 50 reais. "Mas tenho a esperança de que melhore durante a Copa”, diz.

"A venda nem se compara às outras Copas. O estoque só não encalhou porque a gente já percebia que não ia vender muito. Quem passa aqui comenta que tem a ver com tudo isso da política e o 7 a 1”, avalia Marcelo Domingues. "Sem falar que o povo está duro, né?”, acrescenta.

O somatório de três fatores leva a uma baixa empolgação antes da Copa: situação política; crise econômica, com 13,4 milhões de desempregados e alto endividamento das empresas, e o desencanto com a Seleção após a eliminação traumática em casa na última edição.

"Vou estar animado como? A situação do país é horrível, quase não tem jogadores que estejam na Seleção por amor à camisa e não está sobrando nem dinheiro para o churrasco”, sintetiza o porteiro Reinaldo Ferreira, de 36 anos.

O clima de apatia, contudo, não é regra, e há quem esteja contando as horas para o início da Copa na Rússia. "Estou muito animada. Eu não quero saber dos problemas, vivo a minha vida com alegria. Já marquei de ver a estreia do Brasil com a família no próximo domingo”, conta a gari Maria Cláudia, de 48 anos.

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