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Como remédios despejados em rios favorecem superbactérias

29 de maio de 2026

Resíduos farmacêuticos vêm contaminando águas e solos em todo o mundo, contribuindo para o avanço de bactérias resistentes a antibióticos, que podem causar até 10 milhões de mortes por ano nas próximas décadas.

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Vário comprimidos sobre a palma de uma mão
Uso cada vez mais irrestrito de antibióticos favorece superbactériasFoto: Aleksandra Sagan/Canadian Press/empics/picture alliance

Aos 25 anos, Vanessa Carter sofreu um grave acidente de carro em Joanesburgo, na África do Sul. Todos as ossos do lado direito do seu rosto quebraram, dando início a anos de cirurgias reconstrutivas.

Seis anos depois, Carter recebeu um implante protético para reconstruir a maçã do rosto. Parecia que o pior já tinha passado. Mas, um dia, percebeu pus escorrendo do rosto. Era uma infecção — que durou quase um ano.

"Eu estava tomando antibióticos, consultando médicos, mas ninguém conseguia me dar respostas”, contou à DW. "E, durante todo esse tempo, a infecção bacteriana estava basicamente destruindo o tecido do meu rosto.”

O culpado acabou sendo identificado: a MRSA (Staphylococcus aureus resistente à meticilina) — uma das chamadas superbactérias, contra as quais muitos antibióticos já não funcionam.

Crise global pode causar 10 milhões de mortes por ano

A resistência antimicrobiana — quando bactérias, vírus, fungos e parasitas evoluem para resistir aos medicamentos — é considerada pelas Nações Unidas um dos principais desafios globais de saúde.

A organização estima que, até 2050, a resistência antimicrobiana pode causar 10 milhões de mortes por ano. Se não for controlada, poderá gerar custos anuais de 412 bilhões de dólares e reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) global em até 3,4 trilhões de dólares por ano na próxima década.

Micrografia eletrônica de varredura de bactérias "Staphylococcus aureus resistentes à meticilina"
Muitos antibióticos já não funcionam contra a bactéria MRSA — as cepas tornaram-se resistentesFoto: IMAGE POINT FR/BSIP/picture alliance

Entre as causas do problema estão o uso excessivo ou inadequado de antibióticos e a poluição por medicamentos no meio ambiente.

"Você pode irrigar uma plantação com água que contém essas bactérias. Depois comemos esses alimentos ou bebemos essa água”, explica Alistair Boxall, professor de ciências ambientais da Universidade de York. "Essa resistência acaba voltando para o nosso corpo".

Contaminação por todo o planeta

Resíduos farmacêuticos foram detectados em rios e solos em todo o mundo. Um estudo recente analisou águas fluviais em mais de 1.000 locais em 104 países.

"Procuramos 61 tipos diferentes de medicamentos e, com poucas exceções, encontramos esses resíduos em praticamente todos os lugares", disse Boxall.

Os únicos locais sem vestígios de medicamentos foram a Islândia e uma aldeia remota na floresta venezuelana, onde os moradores não utilizam a medicina moderna. Em todos os outros locais, foram encontrados Metformina (para diabetes), antibióticos, medicamentos para depressão, epilepsia, dores e alergias. Em 25% dos locais, os níveis eram considerados prejudiciais à vida selvagem.

Paisagem da aurora boreal
Islândia foi um dos poucos lugares analisados a não apresentar remédios nos riosFoto: Owen Humphreys/dpa/PA Wire/picture alliance

Como os remédios chegam ao ambiente

Quando tomamos medicamentos, apenas parte deles é absorvida pelo corpo. O restante é eliminado e vai parar nos sistemas de esgoto.

Além disso, antibióticos são frequentemente usados em excesso. Humanos consomem mais de 30 mil toneladas por ano, e cerca de um terço vai parar em rios. Muitas estações de tratamento não conseguem remover essas substâncias completamente. Globalmente, pouco mais da metade da água residual é tratada antes de ser liberada.

Em países de menor renda, a situação é pior, devido à falta de infraestrutura — especialmente em partes da África subsaariana, sul da Ásia e América Latina.

Outras fontes de poluição incluem indústrias farmacêuticas e a agropecuária (uso de medicamentos em animais). Estimativas indicam que animais recebem pelo menos o dobro de antibióticos consumidos pelos humanos. Quando o esterco é usado como fertilizante, rios próximos podem ser contaminados.

Os efeitos sobre a vida selvagem podem ser severos. Por exemplo, hormônios artificiais de pílulas anticoncepcionais causaram "feminização” de peixes machos na América do Norte, levando à queda de populações. Um estudo no Reino Unido mostrou que o antidepressivo Prozac fez estorninhos, uma espécie de pássaro, perderem o apetite e a libido

Quais são as soluções?

Uma das principais soluções é melhorar o tratamento de águas residuais, com novos níveis de filtragem e uso de carvão ativado ou produtos químicos.

Mas isso envolve alto custo, maior consumo de energia e possível geração de novos compostos tóxicos. 

A União Europeia tem tomado medidas nesse sentido. Novas regras exigirão que estações de tratamento sejam modernizadas e que indústrias farmacêutica e cosmética cubram 80% dos custos.

Micrografia eletrônica de varredura de bactérias "Staphylococcus aureus resistentes à meticilina"
Muitos antibióticos já não funcionam contra a bactéria MRSA — as cepas tornaram-se resistentesFoto: IMAGE POINT FR/BSIP/picture alliance

Nos EUA, a agência ambiental passou a incluir medicamentos na lista de contaminantes da água potável. Ainda assim, especialistas alertam que o avanço é lento — e soluções caras são inviáveis para países mais pobres.

Medicamentos biodegradáveis 

O químico Klaus Kümmerer acredita que o futuro está na criação de medicamentos que se decomponham totalmente após o uso.

"O ideal seria que se transformassem completamente em dióxido de carbono e água", disse.

Sua equipe já desenvolveu medicamentos anticâncer biodegradáveis e alternativas ao antibiótico ciprofloxacino. Essas drogas são projetadas para se decompor quando chegam à bexiga, por meio de mudanças no pH.

No entanto, elas ainda não chegaram ao mercado. "Somos um grupo universitário pequeno. Não conseguimos levar isso até a comercialização. Agora, a indústria precisa assumir", destacou Kümmerer.

Especialistas destacam que usar menos medicamentos já ajudaria muito. E é bom sempre lembrar: antibióticos não funcionam contra vírus (como resfriados). Os médicos também deveriam prescrever remédios apenas quando realmente necessário, mas infelizmente não é o que ocorre em muitos lugares. 

Kümmerer resume com um ditado popular: "Minha avó dizia: 'um resfriado dura uma semana com remédio — e sete dias sem'".

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