Como entrei na universidade pública, mesmo tendo morado na rua | Colunas semanais da DW Brasil | DW | 02.09.2021

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Coluna Vozes da Educação

Como entrei na universidade pública, mesmo tendo morado na rua

Órfão de pai e em meio à saúde mental instável da mãe, Vitório da Silva Ferreira saiu de casa aos 16 anos. Ele narra os desafios de viver em situação de rua enquanto estudava para uma vaga na faculdade de Direito.

Vitório da Silva Ferreira sentado no chão lendo papéis

"Passei a ver o estudo como única maneira de ter uma vida melhor"

Pobre, filho de pedreiro e empregada doméstica, família humilde: uma história que poderia representar a realidade de grande parcela da população brasileira, se não fosse o fato de ter vivido em situação de rua e de ter sido aprovado no curso de Direito na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte. Esse sou eu, um jovem que acreditou e ainda acredita na educação como sua porta de ascensão social.

Desde minha infância, sempre estive inserido em um contexto de vulnerabilidade econômica e social. Aos 6 anos de idade, o falecimento do meu pai abalou tanto a mim quanto a minha mãe. Meu pai me deixou como grande legado o poder que a educação pode exercer na vida das pessoas. Por mais que ele não tenha conseguido concluir o ensino fundamental, a difícil realidade que ele me contava em suas histórias de infância em um município localizado no interior do Rio Grande do Norte me fazia, e ainda faz, acreditar na educação.

Minha mãe, por mais que não tenha conseguido ingressar no ensino superior, sempre me incentivava a estudar. Ela me forneceu grandes ensinamentos, que guardo comigo até hoje, como uma de suas mais repetidas frases: "Estude, porque o conhecimento é a única coisa que ninguém vai conseguir tirar de você''.

Há algum tempo, eu era apenas um estudante do ensino médio na Escola Estadual Berilo Wanderley que, assim como todos os outros alunos desse contexto, enfrentava dificuldades econômicas. Sem internet em casa, eu utilizava o wi-fi da sala de informática da minha escola para estudar de forma mais aprofundada as matérias que me eram lecionadas dentro da sala de aula. Graças à ajuda disponibilizada pela diretora, eu tinha acesso também às refeições dos demais turnos: matutino e noturno. Então, dessa forma, consegui permanecer na escola durante o dia inteiro.

A decisão de ir embora

Entretanto, com a pandemia, a situação se intensificou ainda mais. Em razão do fechamento de todos os estabelecimentos pela situação sanitária, já não me era mais permitido o acesso à internet. Além disso, o fato de minha mãe possuir distúrbios psiquiátricos agravava a situação dentro de casa. Durante esse período, eu estudava por meio de livros didáticos que possuía, lia os conteúdos e fazia as questões das apostilas. Após algumas semanas, as condições dentro de casa se agravaram ainda mais em virtude do estado de minha mãe. Foi nesse contexto que não consegui suportar a situação e decidi ir embora.

Muitas coisas se passaram na minha mente enquanto tomava aquela decisão, mas o sentimento de que eu deveria encarar a educação como uma forma de sair daquela situação que eu vivenciava diariamente era a única certeza que eu tinha até então. Nesse cenário, vi a UFRN como possibilidade de manter os estudos para os vestibulares. A faculdade possuía wi-fi amplo e banheiros no campus, então pensei nela como um abrigo em que eu poderia acessar as aulas por meio da internet.

Já na rua, a missão que ainda restava era de encontrar algum lugar próximo ao campus em que eu pudesse dormir, já que os seguranças da UFRN não podiam permitir que eu passasse as noites lá. Encontrei o estacionamento de uma farmácia. Depois de alguns dias, consegui uma cesta básica da escola, o que me possibilitou comer com alguma regularidade.

Durante o dia, eu ficava na UFRN e utilizava o wi-fi para assistir às aulas gratuitas e baixar materiais didáticos, com a intenção de ter acesso nos momentos em que eu não estivesse na UFRN. Sempre fazia anotações das aulas a que eu assistia para que, durante a noite, quando o acesso à UFRN já não me era possibilitado, eu pudesse revisar o que havia estudado.

Estudo, única forma de ter uma vida melhor

Após dois meses nessa situação, busquei conversar com um dos meus amigos para que pudesse ficar um tempo em sua casa, ele gentilmente me acolheu. Comida e abrigo deixaram de ser uma das minhas preocupações eminentes. Com isso, eu já podia estudar com mais tranquilidade. Mesmo em uma situação mais confortável, até chegar o Enem foi difícil manter regularidade nos estudos. Meus pensamentos em relação a como estaria minha mãe me preocupavam bastante.

Diante de tudo isso que me aconteceu, minha trajetória com projetos sociais e diante de tantas dificuldades que me foram impostas, o Direito surgiu para mim como uma escolha natural em busca de tentar construir uma sociedade melhor.

Durante todo esse período, na grande maioria do tempo eu estava pensando nos estudos. Eu tinha ciência de que a única coisa que poderia mudar a minha realidade seria isso. Algumas poucas vezes pensei na minha mãe, mas chegou um momento em que tive a percepção que aquela questão já não estava mais ao meu alcance. Recentemente, com a ajuda do poder público, tive a possibilidade de fazer contato com ela. Cheguei a falar sobre o fato de ter sido aprovado no curso de Direito, mas, em razão da situação e do fato de ela não aceitar acompanhamento psiquiátrico, acredito que ela não tenha entendido muito bem tudo que aconteceu.

Na rua, a situação era muito complexa, tudo era difícil, mas o principal era o receio de que algo pudesse acontecer com a minha integridade física. Guardo na memória esses momentos. Até hoje, não sei explicar todos os meus pensamentos naqueles momentos, era um garoto de 16 anos em situação de rua. Talvez outras pessoas buscassem por outros caminhos, mas eu procurava não desviar o foco de estudar. Nesse momento, o estudo já havia deixado de ser apenas uma opção para mim, passei a vê-lo como a única maneira de ter uma vida melhor no futuro. Nem sempre motivado, mas sempre acreditando que, se eu permanecesse estudando, algum dia eu iria conseguir ser aprovado e a situação iria melhorar.

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Vozes da Educação é uma coluna quinzenal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do Salvaguarda no Instagram em @salvaguarda1

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