Como cheguei lá, mesmo com TDAH | Colunas semanais da DW Brasil | DW | 10.06.2021

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Coluna Vozes da Educação

Como cheguei lá, mesmo com TDAH

Minha natureza hiperativa me acompanha desde criança e criou dificuldades de atenção durante todo meu ensino. Com isso, é gratificante poder dizer que consegui entrar na Unesp, escreve João Lucas Nacinben.

 João Lucas Coli de Souza Monteneri Nacinben

"Para um TDAH, seguir horários, metas e cronogramas é uma tarefa difícil", diz João

Entre turbilhões de vontades e pensamentos, sempre acreditei que minha natureza hiperativa era comum e que não havia nada em mim que diferia do restante dos meus amigos e familiares.

Quando pequeno, identificaram em mim o Transtorno de Hiperatividade e Déficit de Atenção (TDAH). Embora tenha relutado muito para aceitar, me conformei, ao longo dos anos, com essa minha condição. Fui uma criança sempre muito ativa, desatenta e repleta de impulsividade, que pensava mais rápido do que a própria fala e se enrolava todo na hora de se comunicar.

Muitos acreditam que um lugar silencioso e sem pessoas faz com que um TDAH mantenha o foco. Mas isso não é verdade, todas as vezes que busquei um local neutro, fui menos produtivo. Quando se tem um transtorno como esse, quanto mais "entediante" for o espaço de estudo ou trabalho, pior é.

Nossa mente costuma facilmente entrar num mundo paralelo e perdemos totalmente a noção de tempo e espaço. Isso é conhecido como hiperfoco, uma condição que atrapalha, mas que também pode beneficiar o portador — dependendo de para onde seu foco irá ser direcionado.

No começo da minha educação, era comum me perder em pensamentos ou me distrair com facilidade. Um lápis, uma figura no caderno ou qualquer som adverso da sala de aula já era motivo para o meu desfoque. Isso é comum na infância, mas a distração perdurou até a minha adolescência e se tornou um estorvo.

É difícil seguir horários, metas e cronogramas

Ao ingressar no Ensino Médio me deparei com dificuldades novas. Nesse período, a necessidade de disciplina e comprometimento era maior, ainda mais em um ensino público e integrado a um técnico. Por muitas horas diárias, o cansaço físico e mental tornou-se um companheiro.

Para um TDAH, seguir horários, metas e cronogramas é uma tarefa difícil. Tudo o que não é importante começa a se tornar mais interessante do que os compromissos e qualquer dificuldade se torna um grande problema, acabando com toda a nossa vontade. Tudo isso resulta numa pilha de tarefas e trabalhos incompletos, isso se começados. Toda frustração gerada resultou em mim num comportamento depressivo, que trouxe aos meus dias de aula o desânimo diário, algo que só melhorou no fim do meu segundo ano do médio, em 2019.

O ano de 2020, meu último na escola, foi o período em que eu havia decidido me dedicar aos estudos para os vestibulares, mas enfrentei, junto ao meu transtorno, uma pandemia e um ensino remoto. Comecei a notar o agravamento do meu TDAH. Um comportamento explosivo incomum apareceu em mim, perdia a cabeça rapidamente e por motivos mínimos, como ruídos ou sons que me traziam incômodo. Além disso, comecei a ter tiques motores, que faziam eu me movimentar bruscamente várias vezes em um curto intervalo de tempo, por conta do desinteresse pela aula.

Além de toda a limitação em seguir horários e cumprir com deveres, enfrentei, também, crises de hiperatividade. Em meio às aulas, era quase impossível não me distrair comigo mesmo. O ato de sair da frente da tela e vagar sem rumo pela casa estava presente em todos os meus dias.

Apoio da família

Não poder sair de casa foi prejudicial. A minha inquietação me obrigava a estar constantemente em movimento. E esse sentimento era transportado para o meu rendimento nas aulas. Todas as vezes que pensei em buscar ajuda médica, neguei pelo medo da pandemia e por não querer me apoiar em "muletas". Mas o que eu não enxergava era que eu necessitava de um amparo profissional.

Pesquisei e li muito sobre o tema e aos poucos ia entendendo o porquê do meu desânimo. Entendi como o transtorno pode estar relacionado diretamente com doenças como ansiedade e depressão e como uma grande parcela da sociedade é portadora de TDAH e nem sabe.

Ao refletir sobre o assunto, me lembrei de todas as vezes que precisei fazer provas importantes. Estar em uma carteira, parado, não poder sair nem falar com quem está ao meu redor é algo desesperador. Além disso, a leitura de vestibular, que é naturalmente cansativa, se torna um desafio surreal.

Eu cheguei a escutar muitas vezes que era preguiçoso e que fazia corpo mole. Poucos eram os que se preocupavam em realmente entender o que se passava comigo. Mas, graças a Deus, sempre pude procurar apoio na minha família.

Entendi meus limites

Com dois irmãos em universidades públicas e pais que reconheciam a necessidade de um ensino superior de qualidade, via neles, muitas vezes, um refúgio desse mundo, mesmo que eles não entendessem bem as minhas limitações. "Faça o seu melhor enquanto não tiver condições melhores para fazer melhor ainda", minha mãe sempre me dizia.

Desde muito novo sempre soube que queria ser agrônomo. Vivi numa casa arborizada e repleta de plantas, o manejo do solo e o cuidado com a vida vegetal serviram como terapia durante muito tempo para mim. Decidido a cursar engenharia agronômica, tracei como objetivo as duas grandes universidades estaduais e referências no meu curso: a Unesp de Jaboticabal e a USP de Piracicaba.

Assim que meu ensino médio terminou, meu único compromisso era com o vestibular, então me esforcei, mesmo que falhando algumas vezes. Por não conseguir manter uma rotina, tive que aprender a lidar com minha inconstância nos estudos. Abri mão de uma rotina perfeita e entendi meus limites. Adaptei-me a outros métodos de estudo não convencionais, com horários diversificados e sem uma ordem certa, focando nas minhas dificuldades e no que me atraía mais.

Com isso, é gratificante poder dizer que consegui. Hoje, matriculado na Unesp, prestes a iniciar minha graduação em engenharia agronômica, nem consigo acreditar que superei aquela confusão e todos os desafios.

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Vozes da Educação é uma coluna quinzenal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do Salvaguarda no Instagram em @salvaguarda1

O autor desta coluna é João Lucas Coli de Souza Monteneri Nacinben, de 19 anos.

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