Como autoridades agem para conter atual surto de hantavírus
12 de maio de 2026
A Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou nesta terça-feira (12/05) para 11 o número de casos confirmados de hantavírusassociados ao surto no cruzeiro MV Hondius, incluindo três óbitos. A cepa Andes do hantavírus, que circula na América do Sul, foi identificada como a causa da infecção. Ela é a única conhecida que é transmissível entre humanos.
O navio, que partiu da Argentina em 1º de abril, levava cerca de 150 pessoas a bordo de 23 países. Depois de vários dias à deriva no Atlântico, a embarcação pode atracar nas Ilhas Canárias, e os passageiros puderam desembarcar e foram transferidos para seus países de residência.
Vários países enviaram aviões para repatriar os próprios cidadãos, incluindo Alemanha, França, Bélgica, Irlanda, Holanda e Estados Unidos. A União Europeia (UE) também forneceu aeronaves para o transporte de cidadãos de outros países do bloco. EUA e Reino Unido apoiaram a retirada de cidadãos de fora da UE cujos países de origem não têm condições de providenciar o transporte aéreo.
Ao voltar para casa, os passageiros enfrentam medidas ligeiramente diferente nos próximos dias e semanas, dependendo do nível de infecção e das reações de seus países a surtos como esse.
Um casal holandês, que foi o primeiro a adoecer e posteriormente faleceu, estava visitando a América do Sul antes de embarcar no navio em Ushuaia, a cidade mais ao sul da Argentina, no final de março.
O Ministério da Saúde da Argentina está investigando se o casal foi infectado pela exposição a fezes de roedores durante um passeio de observação de pássaros em um aterro sanitário na cidade.
O que ocorreu no navio de cruzeiro?
Os hantavírus são relativamente bem conhecidos, embora raros, e transmitidos principalmente de roedores para humanos. Eles podem causar a síndrome pulmonar por hantavírus (SPH), com uma "taxa de mortalidade que chega a 40-50%", segundo a OMS.
A gravidade também varia de acordo com a região. Na Europa, as cepas geralmente causam doenças mais leves e uma taxa de mortalidade entre 1% e 15%, enquanto os casos na América do Norte e do Sul frequentemente ultrapassam os 30%.
Os passageiros do navio contraíram a cepa Andes, a qual se acredita ser a única é transmissível entre humanos. Geralmente, é necessário contato próximo e prolongado, como as condições encontradas em um navio, para que o vírus seja transmitido dessa forma.
No entanto, a OMS e a comunidade científica se apressaram em informar que a atual situação não é comparável à da pandemia de covid-19. "O vírus dos Andes exige um contato muito, muito mais próximo e prolongado entre as pessoas, pelo que sabemos", afirmou Ann Rimoin, professora de Epidemiologia da Escola de Saúde Pública Fielding da Universidade da Califórnia (UCLA), nos Estados Unidos.
"Entendo que as pessoas estejam muito ansiosas, tendo vivenciado a pandemia, mas este é um vírus muito diferente e há um conjunto de circunstâncias diferente", acrescentou.
Um período de incubação de seis a oito semanas, durante o qual os sintomas podem não ser aparentes, fez com que a doença no MV Hondius demorasse a se manifestar. De acordo com a OMS, havia 147 pessoas a bordo.
Enquanto isso, o Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDPD), uma autoridade médica da União Europeia, afirmou que rastrear os movimentos dos passageiros antes e depois do embarque é fundamental para evitar a propagação do vírus.
O que aconteceu com os passageiros?
Depois de vários dias à deriva, o navio atracou em Tenerife no fim de semana. Como a maioria das pessoas a bordo ainda não testou positivo ou apresentou sintomas, os passageiros puderam desembarcar e foram transportados até seus países de residência. Aqueles com sintomas foram enviados para diversos hospitais na África do Sul, Holanda e Suíça.
Nesta segunda-feira, quatro alemães desembarcaram em Frankfurt, e os pacientes assintomáticos foram encaminhados para hospitais ou para autoisolamento após exames médicos, dependendo das circunstâncias.
Quatorze espanhóis voaram para Madri no domingo e serão isolados em um hospital na capital. Passageiros turcos, belgas, gregos, britânicos e argentinos estão sendo encaminhados para instalações médicas após voos com distanciamento social neste domingo. O último voo de repatriamento para a Holanda ocorreu na tarde desta segunda-feira.
Cinco franceses que estavam a bordo do Hondius serão colocados em "isolamento rigoroso até segunda ordem", depois que um deles apresentou sintomas da doença no avião de volta para casa, disse o primeiro-ministro Sébastien Lecornu. Um dos 17 passageiros americanos testou positivo em Cabo Verde, de acordo com o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, que realizará testes adicionais.
Como impedir a propagação do hantavírus?
A OMS recomenda que os "contatos de alto risco" de casos confirmados fiquem em quarentena por "42 dias após a última exposição". Aqueles que tiveram menos contato com um paciente doente devem apenas "realizar automonitoramento passivo e procurar avaliação médica caso apresentem sintomas".
Embora os países geralmente sigam essas diretrizes, as circunstâncias de isolamento são específicas para cada indivíduo. Aqueles com boa saúde e sem sintomas podem ser enviados para casa para se isolarem após exames médicos, enquanto outros permanecerão sob supervisão por mais tempo. A especialista em doenças infecciosas Rimoin disse que, como acontece com qualquer vírus, monitorar a movimentação das pessoas e suas interações é um fator importante.
"Estamos falando de múltiplas jurisdições, múltiplas organizações, pessoas que viajaram globalmente, então a coordenação e a colaboração internacional serão fundamentais para obter todas as informações, compreendê-las e evitar que casos como este aconteçam no futuro", pontuou.
Como foram gerenciados surtos anteriores de hantavírus?
O surto mais notável da cepa Andina ocorreu na Argentina, entre 2018 e 2019, após três pessoas que entraram em contato com roedores infectados transmitirem o hantavírus para outras 34. No total, 11 pessoas morreram.
O rastreamento de contatos e o isolamento foram estabelecidos de maneira relativamente rápida após a descoberta do vírus, com a primeira transmissão rastreada até uma festa de aniversário.
Segundo Kai Kupferschmidt, biólogo molecular e jornalista científico, embora a transmissão em eventos sociais possa trazer lembranças imediatas da covid-19, o hantavírus não representa esse nível de ameaça e pode ainda servir como um caso de teste útil.
"Foi interessante ver que houve dificuldades para que o barco pudesse atracar em algum lugar e para que os países trabalhassem juntos. Mas, no geral, até agora, estou bastante aliviado que a ciência pareça estar prevalecendo em termos de como as pessoas estão respondendo", acrescentou Kupferschmidt.