Como a religião convive com a Teoria da Evolução de Darwin | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 19.02.2009
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Mundo

Como a religião convive com a Teoria da Evolução de Darwin

O valor das teorias darwinianas parecia acima de dúvida. Até que, em pleno século 21, os EUA impuseram o ensino do "intelligent design" nas aulas de Biologia. Darwin versus Bíblia: esta oposição ainda vale hoje?

default

Caricatura de Darwin na revista 'La Lune'

"No princípio, Deus criou os Céus e a Terra": assim reza a primeira frase da Bíblia, no livro do Gênesis. Em sete dias, o Criador fez a água e a terra, a luz e a escuridão, os animais e o homem. Se aceitarmos de forma literal esse relatório da Criação, nosso planeta azul contaria, diga-se de passagem, apenas 6 mil anos de existência.

Em 1859, o biólogo e teólogo inglês Charles Darwin apresentou sua obra Sobre a origem das espécies através da seleção natural, a primeira tentativa científica de explicar a biodiversidade natural e o surgimento do ser humano.

Na época, uma onda de indignação varreu a Inglaterra vitoriana. E hoje? "Darwin contra a Bíblia" – esta oposição ainda vale?

Impasse antigo

BdT Darwin Ausstellung Käfer

Darwin e a diversidade dos besouros

Darwin (1809-1882) representa muito mais do que a Teoria da Evolução: ele provocou uma reviravolta em nossa visão de mundo. Não teria sido um Deus a criar, premeditadamente, toda a vida, mas sim a "seleção natural", agindo sem qualquer plano. O que está em questão é nada menos do que a ideia que fazemos de nós. Foram os macacos os nossos antepassados ou nascemos de um monte de barro?

A maioria das pessoas se deparou com essa questão já nos tempos de escola. Hiltrud Stärk-Lemaire, que ensina Religião no Lessing Gymnasium de Colônia, é confrontada com o impasse, toda vez que os alunos vêm da aula de Biologia para a sua – ou vice-versa. "Como pode ser que o Gênesis 1 diga que Deus criou o mundo em sete dias? Ou tratou-se de um processo evolutivo?": duas perguntas que se excluem mutuamente.

"Para certos alunos ajuda encarar a Escritura como texto mitológico. Outros, entretanto, se recusam a fazê-lo. Eles perguntam: 'Como é agora, assim ou assim? Um dos dois tem que estar certo'. Esse questionamento é, por um lado, justificado, por outro, é claro que não leva a discussão adiante."

Complementaridade, não oposição

Segundo o teólogo luterano Michael Meyer-Blanck, da Universidade de Bonn, o texto bíblico e as teorias de Darwin não devem ser entendidos como opostos. Ambos podem – e devem – ser encarados como perspectivas distintas do mesmo fenômeno.

"A Bíblia descreve a Criação como uma espécie de representação artístico-poética, interpretando a vida, enquanto Darwin tentou descrever a vida e a Criação como um observador." Enquanto as ciências naturais existem para explicar, a religião, a cultura e a arte servem à compreensão da vida. "Deste modo, ciência e religião não são concorrentes, mas sim formas distintas de descrever a vida, que não são mutuamente redutíveis."

Mas a opinião dos assim chamados criacionistas é bem diferente. Eles tomam o Antigo Testamento ao pé da letra, ou seja: Deus concebeu o mundo, fez crescer a grama e voar os pássaros, coroando tudo com a criação do homem à sua imagem e semelhança. Uma versão em que todos acreditavam, pelo menos até o início da Era Moderna.

O Gênesis ao pé da letra

BdT deutsch 28.05.2007 Kreationisten Museum öffnet in den USA

O Jardim de Éden no Museu Criacionista, EUA

O criacionismo nasceu nos Estados Unidos no início do século 20, representado, em especial, pelos cristãos evangélicos. Sob sua influência, o então presidente George W. Bush decretou em 2005 que, nas aulas de Biologia, a doutrina do intelligent design deveria ser ensinada em pé de igualdade com a Teoria da Evolução.

Afinal, 84% da população estadunidense crê na existência de um Criador e quase a metade se recusa a aceitar qualquer prova para o evolucionismo. Fatos que reforçam a impressão de que nenhum outro país ocidental leva a religião tão a sério quanto os EUA.

Raciocinando como as crianças

Do ponto de vista dos criacionistas, o princípio da vida só é explicável recorrendo-se a uma inteligência superior, um criador. E a existência da criação seria, em si, prova suficiente de que há um criador. Uma tese equivocada, comenta Michael Meyer-Blanck, um "problema de identificação religiosa" nascido de um raciocínio, em última análise, infantil.

"A criança pensa que Deus interfere neste mundo diretamente, de forma mágica, podendo alterar as leis naturais ou a realidade. Este modo de raciocinar – segundo o qual a experiência de Deus e o cálculo com números e provas são duas coisas diferentes – tem que ser superado na adolescência ou na idade adulta."

O criacionismo não é um fenômeno puramente norte-americano. Também na Alemanha certos cristãos, sobretudo os teologicamente conservadores, rejeitam a Teoria da Evolução.

O "grupo de estudos" Wort und Wissen (Palavra e Saber), de Baiersbronn, no sudeste da Alemanha, é a mais importante organização criacionista dos países de língua alemã. Ela praticamente se estabeleceu como autoridade contra a ciência e o Iluminismo. Uma prova de que Darwin e a Bíblia, afinal de contas, nem sempre são compatíveis.

Leia mais