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Como a crítica europeia reagiu ao filme "O Agente Secreto"

12 de março de 2026

Enquanto maioria dos jornais exalta filme de Kleber Mendonça Filho, há quem considere a obra confusa.

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Imagem mostra Kléber Mendonça Filho manuseando câmera, ao lado de Wagner Moura, nos bastidores do filme "O Agente Secreto"
O filme brasileiro venceu dois Globos de Ouro em melhor filme em língua não-inglesa e melhor ator, com Wagner MouraFoto: Laura Castor

O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, pode fazer história com o Brasil no Oscar. Caso vença a estatueta em melhor filme internacional, o país será laureado pela segunda vez consecutiva nesta categoria após o feito conquistado por Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, em 2025.

Esse bicampeonato aconteceu apenas com Itália, França, Suécia e Dinamarca. A última ocorrência foi há quase 40 anos, com os dinamarqueses A festa de Babette (1987) e Pelle, o conquistador (1988).

Entre as diversas premiações da temporada, o longa-metragem se destaca ao ter recebido dois prêmios no Festival de Cannes e dois Globos de Ouro. No Oscar, que acontece no próximo domingo (15/03), ele concorre a melhor filme, melhor filme internacional, melhor seleção de elenco (nova categoria na premiação) e melhor ator, com a performance de Wagner Moura.

Na Europa, o filme tem sido bem recebido pelo público, e já arrecadou 6.361.813 de dólares (R$ 33 milhões) em bilheteria, o equivalente a 36% de toda receita mundial, segundo Box Office Mojo, principal serviço online de relatórios e análises de bilheteria. Na última semana, O Agente Secreto entrou para o catálogo da Netflix no Brasil.

Polêmicas

No ano passado, a crítica europeia se dividiu em relação a Ainda Estou Aqui, filme que representou o Brasil no Oscar. Uma delas ganhou um destaque desproporcional. O crítico do jornal francês Le Monde, Jacques Mandelbaum, reprovou a atuação de Fernanda Torres, porque "embora premiada pelo Globo de Ouro, pode ser percebida por alguns espectadores como relativamente monótona".

Cena mostra Eunice Paiva, personagem de Fernanda Torres, sentada em cama e rodeada de crianças, que no filme "Ainda Estou Aqui" são seus filhos
Cena do filme "Ainda Estou Aqui" (2024), com Fernanda TorresFoto: Sony Pictures Classics

O artigo gerou uma grande repercussão no Brasil. Internautas invadiram as redes sociais do Le Monde para rebater a avaliação feita pelo jornalista. Em dois dias, o jornal revelou que teve de apagar cerca de 21.600 comentários ofensivos, principalmente no Instagram.

Curiosamente naquele mesmo artigo, Mandelbaum citava o cineasta Kleber Mendonça Filho, "como um intelectual e crítico" e ainda fazia uma previsão de que ele estaria "desenvolvendo lentamente seu próximo filme". O que de fato aconteceu.

Um ano depois, o mesmo Mandelbaum fez uma análise sobre O Agente Secreto e distribuiu elogios ao longa, como "thriller carnavalesco e magistral", "obra-prima e marco à história do cinema brasileiro". Esses elogios vieram ainda com alfinetadas ao filme de Walter Salles.

"Enquanto seu compatriota escolheu um caminho mais patético ao retratar a viúva de um ‘desaparecido', Kleber Mendonça Filho utiliza uma riqueza polifônica e uma sensibilidade pop para construir uma espécie de tipologia – ao mesmo tempo solar e fantasmática, despreocupada e monstruosa – do fascismo tropical", escreveu.

E o resto da Europa

Na Inglaterra, o jornalista do The Guardian, Peter Bradshaw, assina um artigo defendendo que vencer a categoria de produção estrangeira é pouco para o filme de Kleber Mendonça Filho. Para ele, O Agente Secreto deveria ganhar o Oscar de melhor filme.

"Um filme incrivelmente sofisticado, indomável e falante vindo do Brasil, uma obra sobre amor e paternidade, tirania e resistência, e sobre enfrentar o passado. É um filme digressivo e espirituoso e, ainda assim, em seu ato final, evolui de forma impressionante de um mistério sombrio para uma tensão de causar suor frio e violência."

O crítico ainda chama de formidável Dona Sebastiana, personagem de Tânia Maria, e avalia a performance de Wagner Moura de inteligente e forte.

Cena de "O Agente Secreto" mostra Armando (Wagner Moura) falando num telefone público
Cena de "O Agente Secreto" mostra Armando (Wagner Moura) falando em um telefone públicoFoto: Victor Jucá

No artigo Um país e seus tubarões, publicado no alemão Süddeutsche Zeitung pela jornalista Aurelie von Blazekovic, O Agente Secreto é descrito como uma homenagem ao próprio cinema. A autora afirma que é um dos melhores filmes do outono cinematográfico.

"Fala da miséria de um país inteiro: do abismo social, da criminalidade, da corrupção, das pessoas e dos jornais que inventam tudo o que acham engraçado, dos empregados domésticos tratados como servos. E também da beleza profundamente cativante desse país", escreve Blazekovic.

O retorno negativo vem do artigo do espanhol El País, assinado pelo crítico Carlos Boyero. Com o título O agente secreto: o título é estimulante, o resto não, ele descreve as expectativas geradas pelo longa-metragem que não se concretizam na sala de cinema. "Chego até a precisar que algum de seus entusiasmados espectadores me conte o enredo, porque não consigo compreender quase nada", afirma.

Até o elogio à performance de Wagner Moura é acompanhado de críticas. "Admito que ele tem certa presença, naturalidade, e que sua gestualidade é sóbria, embora não me provoque nenhuma sensação especial."

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