China acusa Weintraub de racismo e difamação | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 06.04.2020
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Brasil

China acusa Weintraub de racismo e difamação

Ministro da Educação zombou de sotaque chinês e insinuou que China usa covid-19 para "dominar o mundo". Embaixada reage com indignação, menos de três semanas depois de episódio similar provocado por Eduardo Bolsonaro.

Abraham Weintraub

Weintraub negou que tenha sido preconceituoso com a China: "Tenho um monte de amigos chineses"

Menos de três semanas depois de um episódio que já havia provocado desgaste entre a China e o Brasil, outro membro do círculo do presidente Jair Bolsonaro voltou a enfurecer a diplomacia chinesa ao insinuar que o país asiático é culpado pela covid-19.

Desta vez, a provocação partiu do ministro da Educação, Abraham Weintraub. No último sábado (04/04), ele publicou no Twitter uma mensagem que não só continha a insinuação, como zombava do sotaque que muito asiáticos têm ao falar português. A publicação reproduzia uma capa do gibi Turma da Mônica e o texto fazia referência ao modo de falar do personagem Cebolinha, que troca o "R" pelo "L" nas palavras.

"Geopolíticamente (sic), quem podeLá saiL foLtalecido, em teLmos Lelativos, dessa cLise mundial? PodeLia seL o Cebolinha? Quem são os aliados no BLasil do plano infalível do Cebolinha paLa dominaL o mundo? SeLia o Cascão ou há mais amiguinhos?", escreveu o ministro. Nesta segunda-feira, a publicação já não estava no ar.

A reação chinesa não demorou. Em comunicado publicado hoje no Twitter, a embaixada do país asiático no Brasil acusou o ministro Weintraub de fazer "declarações difamatórias contra a China" com conteúdo "fortemente racista".

"Deliberadamente elaboradas, tais declarações são completamente absurdas e desprezíveis, que têm cunho fortemente racista e objetivos indizíveis, tendo causado influências negativas no desenvolvimento saudável das relações bilaterais China-Brasil", diz a nota. "O lado chinês manifesta forte indignação e repúdio a esse tipo de atitude."

A embaixada ainda apontou que a epidemia de covid-19 "está se espalhando globalmente" e que "nenhum país" vai conseguir superar esse desafio sozinho”.

"A maior urgência neste momento é unir todos os países numa proativa cooperação internacional para acabar com a pandemia com a maior brevidade, com vistas a salvaguardar a saúde pública mundial e o bem-estar da humanidade", completa a nota.

O responsável pela missão diplomática da China no Brasil, Yang Wanming, também usou o Twitter para classificar a mensagem de Weintraub como racista. "Nós somos cientes de que nossos povos estão do mesmo lado ao resistir às palavras racistas e salvaguardar nossa amizade", escreveu o embaixador.

Mesmo diante de uma nova crise diplomática, o ministro Weintraub demonstrou que pretende seguir o mesmo curso de colisão com as autoridades da nação asiática, que é a maior parceira comercial do Brasil. Nesta segunda-feira, em entrevista à Rádio Bandeirantes, ele voltou a fazer acusações, afirmando, sem apresentar provas, que os chineses esconderam informações sobre a pandemia para depois venderem equipamentos médicos ao resto do mundo.

"O governo da república chinesa, aonde começou o coronavírus, poderia ter alertado o mundo inteiro que ia faltar respirador. Que nós teríamos 3 meses para fazer respirador. Isso não foi feito. Agora, que estamos desesperados correndo atrás de respirador, o que é que acontece? Aparece 60 mil respiradores na China e eles estão leiloando", disse o ministro.

O ministro disse que só vai pedir desculpas se os chineses venderem mil respiradores para sua pasta a preço de custo.

"Eu vou fazer o seguinte, meu acordo: Eu vou lá, eu peço desculpas, peço 'por favor, me perdoem pela minha imbecilidade'. A única coisa que eu peço é que dos 60 mil respiradores que estão disponíveis, eles vendam mil para o MEC, para salvar vida de brasileiros, pelo preço de custo. Manda a embaixada colocar aqui nos meus hospitais, e eu vou lá à Embaixada e falo 'eu sou um idiota, me desculpem'", disse.

Por fim, Weintraub negou que tenha sido preconceituoso. "Tenho um monte de amigos chineses", disse.

A publicação de Weintraub ocorreu cerca pouco mais de duas semanas depois de um dos filhos do presidente Bolsonaro, o deputado Eduardo, seguindo uma retórica similar ao do governo americano, ter usado o Twitter para acusar a China de inicialmente acobertar o surto inicial de coronavírus.

No caso de Eduardo, a embaixada chinesa no Brasil reagiu com uma irritação incomum e, em um comunicado, disse que Eduardo "contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizade entre os nossos povos".

Após a reação dos chineses, alguns membros do governo brasileiro, como o vice-presidente, Hamilton Mourão, tentaram minimizar o episódio apontando que Eduardo não tem nenhum cargo no governo. Já a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou à época que a "posição do governo brasileiro é de amizade com a China".

No entanto, outros, como o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, trataram de escalar a troca de farpas. Araújo chegou a afirmar que os chineses é que deviam desculpas ao Brasil, por terem, segundo o ministro, ofendido Jair Bolsonaro.

Tanto Weintraub quanto Araújo e Eduardo Bolsonaro são seguidores do guru ultraconservador Olavo de Carvalho, que vem difundido teorias conspiratórias contra a China nas redes sociais, como a de que a covid-19 seria uma arma biológica chinesa. Redes sociais ligadas à família Bolsonaro também vêm publicando acusações contra Pequim e insistindo em chamar o coronavírus de "peste chinesa".

O episódio provocado por Eduardo só esfriou após o presidente Bolsonaro e seu homólogo chinês, Xi Jinping, terem conversado por telefone no dia 24 de março. Na ocasião, o presidente comentou que ele e o líder chinês reafirmaram "laços de amizade, troca de informações e ações sobre a Covid-19 e ampliação de nossos laços comerciais".

JPS/ots

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