Campanhas ″Gays contra Guido″ atacam ″neo-individual-liberalismo″ | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 04.03.2010
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Alemanha

Campanhas "Gays contra Guido" atacam "neo-individual-liberalismo"

O fato de um político se declarar homossexual é garantia do apoio incondicional da comunidade gay? Duas campanhas independentes sobre o ministro do Exterior e líder liberal-democrata Westerwelle provam o contrário.

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Ministro liberal-democrata alemão Guido Westerwelle

Durante a recente entrega do Teddy Award, o prêmio para o cinema homossexual e transgênero promovido à margem do festival Berlinale, o diretor alemão Rosa von Praunheim atraíu as atenções, entre tantas figuras espalhafatosas, devido a um detalhe.

GAG Button Gays against Guido Westerwelle FDP Homosexuelle Kampagne

'Button' da campanha

De terno azul claro, camisa, gravata e chapéu em variados tons de rosa, ele ostentava um button amarelo com os dizeres "Gays against Guido". Ostensivamente enquadrado pelas câmeras durante a transmissão televisiva da cerimônia, o distintivo despertou curiosidade para uma campanha que o artista e ativista gay Wolfgang Müller realiza há alguns meses. Seu objeto é o ministro alemão das Relações Exteriores, Guido Westerwelle.

"Não" ao FDP

Talvez o político liberal-democrata tenha motivos para começar a se sentir perseguido pelos gays do país. Pois Wolfgang Müller não está sozinho com seus botões.

"Homossexualidade está longe de ser motivo para votar no FDP – GAG: Gays against Guido". O statement consta de Samstag ist ein guter Tag – "blog com tendências, notícias e opiniões homossexuais". O FDP em questão é o Partido Liberal Democrático, do qual Westerwelle é presidente. O blogueiro e desenhista Rainer Hörmann esclarece que sua ideia nasceu no contexto das eleições de setembro de 2009, independentemente da campanha de Müller.

Porém, as coincidências são curiosas: ambos não só utilizam exatamente o mesmo slogan – "Gays contra Guido" – como as cores do partido de Westerwelle, amarelo e azul, jogando com a impressão de que se trataria de material para uma (anti)campanha eleitoral para liberal-democratas.

Zeitgeist ?

Künstler Wolfgang Müller

Artista Wolfgang Müller

Müller, pelo menos, não se mostra preocupado com a questão da autoria absoluta. Ele afirma que não conhecia o blog de Hörmann ao desenvolver seus buttons, em outubro do mesmo ano. "Às vezes também há paralelos, então é porque há alguma coisa no ar...", comentou a jetzt.de, o site jovem do periódico Süddeutsche Zeitung.

Mesmo não se considerando um artista político, seu alvo principal é claro: o "neo-individual-liberalismo", do qual Westerwelle é, a seu ver, representante. Essa visão sociopolítica "parte do princípio de que vivemos hoje numa sociedade esclarecida, de que toda pessoa que trabalhar com afinco receberá o pagamento justo. Mas isso é um engano!"

Como exemplo, Wolfgang Müller cita homens que, por viverem sua homossexualidade abertamente, têm chances de carreira inferiores às de outros, mais discretos. E de mulheres cujos salários são inferiores aos dos homens. "O neo-individual-liberalismo age como se tudo já tivesse sido discutido, todas as diferenças eliminadas. Sobre essa base tiram-se conclusões falsas", analisa o ativista.

O fato de Westerwelle ser, ele próprio, gay não suscita nenhum tipo de "solidariedade de classe". Pelo contrário: "Ele age como se não houvesse qualquer relação entre sua vida particular e o resto da sociedade. Mas não é assim! Se hoje ele pode atuar como ministro do Exterior, é também mérito do movimento gay e lésbico", repreende Müller.

As declarações derrisórias de Westerwelle sobre os menos favorecidos da sociedade alemã, por exemplo, impedem fortemente que Müller se identifique com o político que ele considera populista. "Quando uma pessoa cheia de dinheiro se manifesta de forma negativa sobre os dependentes do Hartz IV [ajuda social para desempregados], sugerindo que sejam 'decadentes', então é preciso eu me distanciar. E me posicionar."

Senso de oportunidade

Deutschland Bundestagswahlen 2009 FDP Feier Guido Westerwelle

Michael Mronz (e) ao lado de Westerwelle, comemorando vitória do FDP nas eleições 2009

"Gaydo", "Schwesterwelle" ( Schwester = irmã, em alemão). Ao contrário do que ocorre com o prefeito social-democrata de Berlim, Klaus Wowereit, o coming out relativamente tardio de Guido não parece ter lhe angariado simpatia, popularidade ou, muito menos, respeito. Dentro da comunidade gay, talvez nenhum político jamais tenha sido tão malquisto, apesar de ser, ele próprio, homossexual.

A ocasião para a grande revelação – daquilo que muitos sabiam e quase todo o mundo suspeitava – foi escolhida a dedo: o aniversário de 50 anos da atual chefe de governo alemã e amiga pessoal, Angela Merkel, em julho de 2004. Pela primeira vez o líder liberal-democrata apareceu em público com seu parceiro de longos anos, o empresário Michael Mronz.

Plakat Kampagne Gays against Guido GAG FDP Homosexualität

Também em amarelo e azul: cartaz de Rainer Hörmann

Embora afirme o contrário, até então Westerwelle dissimulava. Notória foi sua performance em um retrato filmado para a TV alemã. Com o usual repertório de argumentos tão inconvincentes quanto embaraçosos ("carreira política na frente de tudo", "preservação da privacidade", "zelo filial", etc.), o político tentou, durante uns bons quartos de hora, esquivar-se da questão crucial: por que, quarentão, ele era solteiro e ainda vivia num anexo à casa do pai?

Guido Westerwelle, um oportunista político, para quem nada é sagrado, nem a própria opção sexual? Uma acusação dura. Mas fato é que os anos se passaram, a ascensão de outros políticos provou que ser homossexual não é necessariamente uma desvantagem para a carreira. E atualmente Westerwelle consegue até fazer piada sobre o assunto – com direito a, vez por outra, reescrever sua história pessoal.

O blogueiro Hörmann registra sua irritação: "Com toda a seriedade, Westerwelle acaba de ditar, letra por letra, a um magazine gay – sem ser contrariado – que nunca passou sua vida no closet, ele somente nunca a colocou na vitrine. Francamente...!". E explicando por que não fornece o endereço da revista em questão: "Acabei de decidir que não vou lincar vidas mentirosas no meu blog".

Autor: Augusto Valente
Revisão: Simone Lopes

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