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Brasil, onde algozes são transformados em vítimas

Ynae Lopes dos Santos
Ynaê Lopes dos Santos
1 de agosto de 2022

A história da "mulher da casa abandonada", acusada de manter uma mulher negra em condições análogas à escravidão, me fez pensar sobre a perversidade do racismo no Brasil, um país construído sob privilégios dos brancos.

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Protesto em Brasília contra racismo, fascismo e o governo de Jair Bolsonaro, em junho de 2020
Protesto em Brasília contra racismo, fascismo e o governo de Jair Bolsonaro, em junho de 2020Foto: Getty Images/A. Anholete

Podemos contar histórias por meio de pessoas, objetos, coisas, memórias. Recentemente, uma casa em um dos bairros mais ricos de São Paulo causou um verdadeiro furor. Uma casa decadente, num bairro nobre, que chamou atenção de um jornalista investigativo. Uma casa decadente, num bairro nobre, da qual saíam odores estranhos e desagradáveis, colocando em questão as condições sanitárias da pessoa e dos animais que habitavam a casa.

Uma casa decadente, num bairro nobre, sem condições sanitárias e habitada por uma suposta criminosa.

Grande parte das facetas da história por trás daquela que ficou conhecida como a casa abandonada foram narradas num podcast que se tornou um dos mais ouvidos do Brasil. Episódios que descortinavam a história de uma mulher vinda de uma família quatrocentona e que cometeu um crime nos Estados Unidos. O marido da então senhora foi preso e cumpriu a pena de reclusão nos Estados Unidos. Sua esposa, a brasileira herdeira da tal casa abandonada parece ter tido mais sorte – ou mais presença de espírito – e conseguiu fugir a tempo, mesmo que essa fuga tenha custado a inclusão do seu nome na lista dos procurados pelo FBI.

Para o grande público, essa história só ficou conhecida por meio da trama narrada pelo jornalista Chico Felitti, da Folha de S.Paulo. Mas, para a vizinhança, que devia olhar torto para a mulher e sua casa aparentemente abandonada, a história já era conhecida.

As pessoas sabiam que uma suposta criminosa morava no casarão naquele bairro rico de São Paulo. E mais: as pessoas sabiam qual foi o crime atribuído à mulher. Ela e o marido foram acusados de manter uma empregada doméstica negra em condições análogas à escravidão por quase 20 anos quando moravam nos Estados Unidos. Um crime previsto nas leis estadunidenses e nas leis brasileiras – duas das maiores sociedades escravistas das Américas até o final do século 19.

O curioso é que grande parte do furor por trás da história da mulher da casa abandonada passou longe do crime do qual ela foi apontada como suspeita. A suposta escravista virou uma espécie de superstar das notícias brasileiras, transformando assim sua casa abandonada em um ponto turístico de São Paulo, além de mobilizar milhares de pessoas e de órgãos públicos.

Uma mobilização que quanto mais crescia, mais se distanciava do fato de essa mulher ter supostamente escravizado uma outra mulher, uma mulher negra.

E o que há de novo nesse fato?

Absolutamente nada.

Acompanhei de longe a repercussão dessa história. E o que mais me chamou atenção foi justamente a falta de surpresa entre ativistas e intelectuais negros na constatação de que a história da mulher da casa abandonada se tornou qualquer coisa menos uma história de racismo – a despeito da boa vontade e intenção do jornalista que construiu a narrativa no podcast.

No Brasil, quando a temática racial está evidenciada, há um movimento quase que automático de transformar os autores dos crimes em vítimas das circunstâncias. Uma perversidade típica do nosso racismo.

Pergunto-me: se o crime tivesse sido outro, a vizinhança teria sido tão complacente com a senhora da casa abandonada? A multidão que passou a frequentar a casa para tirar fotos e postar nas redes sociais não teria ao menos algum tipo de freio para fazer do crime um espetáculo?

A resposta para essa minha pergunta saiu na semana passada, com a decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais de não ver racismo no fato de torcedores terem xingado um segurança negro de "macaco". Uma prática secular dos órgãos de Justiça brasileiros, que insistem em não tipificar como crime ações racistas, mesmo as mais evidentes. Uma postura que muitas vezes transforma o autor do crime racial numa vítima.

No Brasil, construído sob os privilégios da população branca – que são as pessoas que frequentemente contam as histórias, julgam os crimes e governam a nação – , a exploração e a violência contra negros e indígenas está apenas nos olhos daqueles que veem racismo em tudo.

E talvez esse seja o único privilégio de não ser branco no Brasil: a capacidade crítica (muitas vezes experimentada na própria pele) de perceber que é exatamente isso: o racismo está em toda parte.

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Mestre e doutora em História Social pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de História das Américas na UFF. É autora dos livros Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro (Hucitec 2010), História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017) e Juliano Moreira: médico negro na fundação da psiquiatria do Brasil (EDUFF, 2020), e também responsável pelo perfil do Instagram @nossos_passos_vem_de_longe.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.