Berlim: de meca da ″arte off″ a estação obrigatória do mercado | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 11.10.2010
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Cultura

Berlim: de meca da "arte off" a estação obrigatória do mercado

Art Forum chega ao fim, após reunir mais de 40 mil profissionais ligados à arte em Berlim. Cidade atrai cada vez mais artistas de renome e galerias estabelecidas, mas continua a predileta entre aqueles em ascensão.

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Visitantes circulam por pavilhão da feira

Os organizadores da Art Forum fizeram no último domingo (10/10) um balanço positivo da feira, com um saldo de negócios que deixou todos os envolvidos satisfeitos e alguns estandes até mesmo completamente vazios.

A feira, que aconteceu pela 15ª vez em Berlim, teve a presença de 100 galerias de 18 países, com metade dos expositores vindos do exterior e nenhum tabu em termos de formato: pintura, escultura, desenho, fotografia, instalações e videoarte – de tudo um pouco.

A mídia berlinense, no entanto, ressalta como a feira veio mudando seu perfil no decorrer dos anos. "A Art Forum ganhou uma nova cara e está mais estabelecida, menos experimental e mais semelhante à grande feira suíça", comenta o diário berlinense Der Tagesspiegel, referindo-se à Art Basel.

O jornal acentua que a feira berlinense, cuja peculiaridade era servir de espaço para a descoberta de artistas em ascensão, está se transformando em uma "pequena Basel". O jornal lamenta ainda que, através da tentativa de "nivelar" as obras expostas, a Art Forum acabe perdendo o que fazia com que ela fosse especial dentro das incontáveis feiras do mercado de artes, ou seja, sua ligação com a cidade de Berlim.

Art Forum 2010 Galerie PSM Flash-Galerie

Instalação de áudio 'Plywood City', do artista japonês Ujino, na Art Forum

A virada para o establishment é o que o diário taz também salienta, ao observar que, quem procurou "o contemporâneo" na última Art Forum, acabou de mãos vazias, já que os curadores resolveram abrir o leque de ofertas a artistas cujas obras são sucesso garantido de vendas, como o alemão Georg Baselitz.

Essa é uma tendência que pode ser observada não apenas nos eventos oficiais do mercado das artes em Berlim, mas também na cena informal das artes na cidade.

Mudança de perfil

Na capital alemã, vive hoje um sem-número de profissionais ligados à arte e à cultura, vindos de todo o mundo. Mesmo que muitos desses não sejam conhecidos do grande público, eles acabam sendo responsáveis pela mudança de perfil de determinadas regiões urbanas, como é o que acontece no momento em Neukölln, bairro associado até há pouco ao alto índice de desemprego, à população de imigrantes e a jovens desajustados.

Conhecido como uma área habitada por uma população carente ou por aqueles que se rendem ao áspero charme de bairros problemáticos, Neukölln está mudando vertiginosamente de perfil: a cada semana, são mais bares, galerias, ateliês e uma infinidade de artistas e jovens profissionais, entre estes muitos estrangeiros se fixando na região.

Rede internacional

Guillaume Airiaud

Guillaume Airiaud: contato internacional

"Aqui me sinto livre, há tantas possibilidades e muita coisa para fazer. A atmosfera é agradável e internacional, encontro gente de todo o mundo. Essa dinâmica é ótima, acho isso legal", diz o escultor Guillaume Airiaud, de 26 anos. Embora não venda muito de suas obras, o francês ainda não se deixa levar pelas pressões do mercado.

Airiaud mudou-se para Berlim há três anos, quando participava de um intercâmbio universitário do programa Erasmus. Gostou tanto, que acabou ficando e fundou, junto com amigos, um ateliê no bairro Neukölln, o Studio 54. Os artistas do lugar formam uma rede internacional e apostam no trabalho conjunto. "Sou francês e aqui trabalham ingleses, uma alemã, um italiano e agora chegou um iraquiano", conta o artista.

O britânico Christopher Sage também faz parte do grupo. Natural de Londres, ele cresceu vendo seus pais receberem em casa estudantes estrangeiros. Essa atmosfera cosmopolita é o que ele aprecia em Berlim, com a presença contínua de pessoas de todo o mundo.

Sage, que vive há sete anos na cidade, também observa como o bairro de Neukölln vem se transformando. "É interessante ver como o cenário da artes cresce vertiginosamente aqui no meu bairro. E como as pessoas estão mudando para cá. Nas ruas, você ouve sem parar espanhol ou inglês, além de alemão e turco", comenta.

Improviso e frescor

Christopher Sage

Christopher Sage: atmosfera cosmopolita

Para Sage, no entanto, não é apenas a atmosfera internacional o que interessa, mas também coisa que ele diz não encontrar em nenhum outro lugar do mundo.

"A peculiaridade de Berlim ainda é a história. Isso é visível nos debates sobre arquitetura que acontecem aqui. As pessoas se preocupam profundamente com aquilo que vai ser construído ou demolido. Isso me fascina! Para mim, como artista, a arquitetura é obviamente interessante: como são as ruas, como é o céu na cidade sob o qual você vive. Pensar em pintar sob essa luz aqui já é fantástico", elogia Sage.

Sob o céu de Berlim há certamente lugar para um sem-número de artistas. E quando a cena já estiver estabelecida em Neukölln a ponto de o bairro perder esse frescor e esse charme do improviso, certamente os artistas que chegarem irão migrar para outra região da cidade. Para isso, Berlim é grande o suficiente.

SV/dw/apd
Revisão: Roselaine Wandscheer

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