Barcelona: quando a política entra na polícia | Notícias internacionais e análises | DW | 27.08.2017
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Europa

Barcelona: quando a política entra na polícia

Troca de acusações mostra que diversas polícias espanholas têm dificuldade para cooperar, em especial na troca de informações. Especialistas veem ingerência política.

Mesmo que modelos de segurança variem de acordo com o governo, o objetivo de todos é zelar pela ordem e pela segurança dos cidadãos – em especial, diante de uma ameaça comum. Essa tarefa parece enfrentar obstáculos na Espanha.

Depois dos atentados terroristas na Catalunha, ganharam repercussão supostos atritos entre as diversas polícias nacionais e regionais, em especial no que se refere à troca de informações, que deixou entrever deficiências em termos de cooperação.

A lei espanhola afirma que as forças de segurança do Estado são formadas pelos efetivos da Polícia Nacional e da Guarda Civil. Ambas são responsáveis pela segurança interna, mas a mesma lei abre espaço para outros efetivos policiais em regiões distintas. Essa divisão de competências se reflete especialmente no caso da Ertzaintza, da Comunidade Autônoma Basca, e dos Mossos d'Esquadra, a polícia autônoma catalã.

"Ambas as polícias autônomas receberam praticamente todas as competências, salvo as que são unicamente da Polícia Nacional, como estrangeiros e documentação", explica Alfredo Perdiguero, porta-voz do Sindicato Independente da Polícia Espanhola. Pela lei, portanto, não deveria haver muitas complicações, mas a troca de acusações entre os responsáveis, publicada pela imprensa nos dias posteriores aos atentados, indica haver um conflito.

O primeiro problema está no compartilhamento de informações. "Geralmente, a informação é daquele que a trabalha porque ele quer solucionar o caso. Mas, levada ao extremo, essa situação pode se converter num problema", explica o especialista em segurança Jofre Montoto.

A Polícia Nacional reconhece que se trata de um obstáculo para a cooperação. "Foi demonstrado que a cooperação é deficiente. Em 30 anos de polícia, aprendi que o intercâmbio de informações é fundamental e, quanto mais pessoas puderam utilizar uma informação, melhor será para todos, não importa de que polícia se trate", explica Perdiguero.

Atritos na luta antiterrorismo

Essas supostas deficiências não impediram, porém, que a Espanha tenha se destacado pela eficiência na luta contra o terrorismo. "Depois que, em 2015, modificou-se a legislação e se definiu o nível quatro de alerta antiterrorismo, foram detidos 186 jihadistas por doutrinamento ou por conversão. Esse é o nosso maior ganho", afirma Perdiguero.

Mas esses números parecem estar em desacordo com as divergências entre as polícias, em parte motivadas pela política. "O que se diz nos efetivos é que não há problemas entre os de baixo, mas que os problemas estão lá em cima", comenta Montoto. "Mas existe, de fato, certa desconfiança entre as polícias espanhola e catalã, como demonstra o fato de a polícia catalã não estar representada no Centro de Investigações contra o Terrorismo e o Crime Organizado [Citco]. "

Nesse ponto, Perdiguero afirma que a responsabilidade é dos representantes políticos da Catalunha. "A presença de um representante da polícia catalã no Citco está aprovada desde julho, mas não se indicou nenhum candidato. Trata-se de um cartão vermelho para aqueles que estão mais preocupados com um suposto processo de independência do que por zelar pela segurança de seus cidadãos."

Sobre a investigação em curso, Perdiguero reclama de deficiências no compartilhamento de informações por parte de seus colegas catalães, principalmente se for considerado que eles podem recorrer à Polícia Nacional e à Guarda Civil, que se destacam por sua experiência na luta antiterrorismo e por terem uma base de dados maior e mais pessoas infiltradas na cena jihadista. "Qual o sentido de deixar os demais efetivos policiais de lado?", questiona.

Segundo ele, a Polícia Nacional ficou sabendo da identidade dos terroristas mortos em Cambrils pela imprensa. "Isso não faz sentido. Deve-se destacar o grande trabalho dos Mossos, mas seus dirigentes mostraram ser uma polícia politizada. Quando a política se mete na polícia, põe tudo a perder."

Apesar de a atuação da polícia ter evitado uma tragédia ainda maior, os dois especialistas concordam que mudanças são necessárias. "O problema das forças policiais na Espanha é que foram criadas com base numa estrutura centralizada e foram sendo remendadas pouco a pouco, com certa desconfiança na hora de transferir competências a polícias de outras regiões. Além disso, às vezes o remendo é fruto de negociações políticas que eram convenientes num determinado momento", explica Montoto.

O analista defende um modelo de polícia mais descentralizado e mais próximo do cidadão, em nível local ou regional. Mas ele também reconhece que o momento político atual não permite experiências.

Já Perdiguero quer estruturas mais definidas, com uma polícia central e cooperação em nível internacional, que fomente a formação e o intercâmbio. "Temos que ser permeáveis a aprender com os colegas de outras polícias. Os terroristas aprendem com cada atentado, e devemos estar preparados para o próximo. Aprender é fundamental e imprescindível para estar em dia contra um terrorismo tão difícil de prevenir e de evitar", argumenta.

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