Assim Angela Merkel neutraliza a oposição | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 29.08.2017
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Eleição na Alemanha

Assim Angela Merkel neutraliza a oposição

Flexibilidade política de Merkel não conhece limites: sempre que pesquisas de opinião mostram nova tendência na população, ela não hesita em abandonar até mesmo vacas sagradas do seu partido, como a energia nuclear.

Angela Merkel

Merkel a caminho do quarto mandato, tomando para si temas centrais da oposição

Se há algo de que não se pode acusar Angela Merkel é de ser inflexível. Pelo contrário: a chanceler federal e candidata a um quarto mandato tem mostrado uma capacidade ilimitada de absorver os temas da oposição e chamá-los de seus.

Com a eleição parlamentar às portas, a chefe de governo tem nova oportunidade para exibir seu domínio do mimetismo político. Seu principal instrumento de seleção de temas são as pesquisas de opinião, que indicam o clima e as expectativas entre a população.

A seguir, algumas das guinadas na política de Merkel nos últimos anos, quer em campanha eleitoral, quer no governo.

Leia a cobertura completa sobre a eleição na Alemanha em 2017

Adeus ao átomo

Ainda em 2009, a doutora em física comentava: "Quando vejo quantas usinas nucleares estão sendo construídas pelo mundo, acho que seria uma grande pena se abandonássemos esse setor."

Mas foi exatamente isso o que ela faz dois anos depois: sob a impressão da catástrofe da usina de Fukushima, no Japão, ela muda radicalmente de direção e declara o rápido e definitivo fim da energia termonuclear na Alemanha – o que era uma exigência central do Partido Verde há décadas. Desde então, Merkel argumenta que "não é possível dominar com segurança os riscos da energia nuclear" e passa a defender as energias renováveis, como a eólica.

Energia renovável entrou e saiu da agenda da chanceler várias vezes

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Nada de alistamento obrigatório – por enquanto

O serviço militar obrigatório é outra vaca sagrada sacrificada sem aviso prévio em 2011, para horror sobretudo da clientela conservadora do partido de Merkel, a União Democrata Cristã (CDU). A ela não escapou o fato de que muitos jovens preferem um Exército profissional. Mas, como as opiniões sobre o serviço militar são mistas, de início ela apenas suspendeu o modelo "cidadãos de uniforme".

Modelito "papai-mamãe" de ponta-cabeça

Também para consternação de muitos democrata-cristãos, Merkel deslocou vigorosamente o partido da direita para o centro, ignorando até hoje o apelo por mais valores conservadores. E também corrigiu decididamente a política da CDU para a família.

O modelito "papai traz o dinheiro para casa, mamãe põe a comida na mesa" está descartado desde que se abriu a oferta de creches para crianças menores de 3 anos. Também essa é uma reação às realidades radicalmente mudadas, tanto no mundo do trabalho como na sociedade. Essa exigência era sobretudo da esquerda, mas quem a implementou foi a chanceler, ao menos no papel, conservadora.

Primeiro ingresso ilimitado para refugiados, depois pacto com Erdogan para contê-los

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Alemanha, país de imigrantes

Durante décadas evitou-se, calou-se, negou-se o assunto: a Alemanha jamais seria um país de imigrantes – esse era o consenso dentro da CDU. Afinal, o que não se quer não pode existir.

Fato é que, na prática, há muito se trata de um país de imigração – até mesmo o segundo destino mais apreciado do mundo, depois dos Estados Unidos (até antes da presidência de Donald Trump). Além disso, há anos que indústria, economistas e institutos demográficos reiteram o indiscutível fato de que um Estado com taxas de natalidade minguantes precisa urgentemente de novos cidadãos.

O partido de Merkel foi o que por mais tempo sustentou a mentira política de que os estrangeiros vivendo na Alemanha seriam "trabalhadores convidados" – ou seja, mais cedo ou mais tarde teriam que ir embora. Atualmente quase um quarto da população alemã descende de imigrantes. Também aqui a chanceler conservadora percebeu o espírito dos tempos e cumpriu as exigências defendidas especialmente pela oposição esquerdista.

O islã é parte da Alemanha

A frase "O islã é parte da Alemanha" pode não ser de Merkel – ela é de seu correligionário, o então presidente Christian Wulff –, mas também essa correção político-cultural traz o selo de aprovação da chanceler. Depois de a sua CDU se afirmar como principal opositora da constatação aforística de Wulff, Merkel abriu mão de mais essa posição fundamental dos conservadores. E desde então a cultura ocidental-cristã da Alemanha foi enriquecida pela islâmica. E, também aqui, a líder conservadora fez política para a metade esquerda da república.

Refugiados antes de tudo mais

A possível maior surpresa veio em meados de 2015, quando a chanceler federal abriu todas as portas para os refugiados, que inundaram o país, ao menos na percepção dos conservadores. Justamente uma líder da CDU, tão apegada à "lei e ordem", deixava entrar centenas de milhares de migrantes sem qualquer controle.

De início, muitos alemães ficaram entusiasmados, a oposição esquerdista se mostrou fascinada – mas na CDU reinava a perplexidade. Só quando a nova cultura das boas vindas ameaçou sair dos trilhos, Merkel deu uma nova guinada. Agora, apesar de continuar rechaçando um limite máximo para a acolhida de requerentes de asilo, por motivos constitucionais, ela já admite a deportação também para o Afeganistão. Pactos com a Turquia do presidente Recep Tayyip Erdogan e outros Estados cuidam para sustar de forma ainda mais eficaz o afluxo migratório.

Golpe de mestre: Merkel garantiu aprovação do casamento gay, ao mesmo tempo reservando-se o direito de votar contra

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Por fim, "casamento para todos"

Nada prova tanto a maleabilidade política da chefe de governo quanto o tema "casamento para todos". Uma sondagem representativa em meados de 2017 trouxe o surpreendente resultado de que 73% dos alemães são a favor da equiparação das uniões homossexuais ao modelo clássico homem e mulher. Até mesmo entre os democrata-cristãos, a taxa de aprovação é de 64%.

Merkel sempre fora contra, mas os social-democratas, liberais e verdes elegeram o tema como pré-condição para uma eventual coalizão governamental após as eleições legislativas.

Diante dessa situação, ela repentinamente se adapta aos fatos: o que antes era um "não" categórico da chefe de governo e líder partidária vira questão de consciência para os deputados, que são liberados de seguir a orientação partidária. Mais uns dias e o Parlamento vota a questão, e o "casamento para todos" se transforma em realidade – assim, de uma hora para a outra.

Merkel, aliás, votou contra, mas a decisão majoritária do Parlamento refletiu a posição da maior parte da população. Os verdes exultaram, pois, mais uma vez, a chanceler federal conservadora implementou uma de suas bandeiras de décadas – ou, pelo ângulo oposto, mais uma vez Merkel tomou para si um tema da oposição.

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