As vítimas inocentes dos campos soviéticos no pós-guerra | Notícias sobre política, economia e sociedade da Alemanha | DW | 26.09.2020

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História

As vítimas inocentes dos campos soviéticos no pós-guerra

Durante a ocupação soviética do leste alemão após a Segunda Guerra, criminosos de guerra nazistas foram mantidos em "campos especiais". Mas entre eles também havia pessoas inocentes, e muitas delas perderam a vida.

Desenho mostra muros, um portão por onde passam pessoas escoltadas por soldados

Desenho de Detlev Putzlar, que morreu em 2018, sobre o campo especial soviético de Sachsenhausen

Karl-Wilhem Wichmann estudava Pedagogia na cidade de Greifswald, no nordeste da Alemanha, logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Ao falar em público sobre o futuro do povo alemão depois da derrota na guerra, ele disse algumas coisas que acabariam significando sua ruína.

O então jovem de 18 anos se pronunciou contra a reforma agrária no estilo soviético. Alguém deve tê-lo denunciado, pois Wichmann foi levado a um tribunal militar soviético e, sob a acusação de espalhar propaganda contra a então União Soviética, ele foi condenado a dez anos de prisão.

Idoso de óculos e cabelos brancos olhando para baixo

"Gostaria que isso nunca acontecesse com nossos netos e bisnetos", diz o ex-prisioneiro Karl-Wilhelm Wichmann

Wichmann, hoje com 92 anos, foi enviado a um campo de prisioneiros perto de Torgau, na Saxônia. "Não podíamos sair, éramos três em uma cela, tínhamos pouco para comer e nada para fazer", disse Wichmann à DW.

Torgau foi um dos dez "campos especiais" da União Soviética entre 1945 e 1950, enquanto os russos ocupavam a Alemanha Oriental depois da Segunda Guerra Mundial. As potências ocidentais também construíram campos para abrigar nazistas de alto escalão e outros criminosos de guerra, a fim de responsabilizá-los por suas atrocidades, segundo um acordo da época entre os Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética.

Stalin queria estender sua ditadura a solo alemão

No entanto, o ditador soviético Josef Stalin e seus serviços secretos tinham algo mais em mente desde o início: eles queriam cortar pela raiz qualquer protesto ou resistência contra o estabelecimento de uma ditadura comunista no solo da futura República Democrática Alemã (RDA). Como resultado, milhares de pessoas inocentes acabaram sendo enviadas para os campos especiais soviéticos.

Desenho mostra julgamento militar

Tribunal militar soviético desenhado pelo Detlev Putzlar, condenado a 10 anos de prisão em um campo de trabalho em 1945

Por mais cínico que pareça, Wichmann ainda teve sorte. Cerca de um terço dos 176 mil prisioneiros, segundo estimativas, não sobreviveram aos maus-tratos.

"Eles morreram de fome, ou por causa de doenças como tuberculose ou disenteria", disse à DW Anna Kaminsky, que dirige uma fundação financiada pelo governo alemão que estuda a ditadura comunista da Alemanha Oriental. Ela começou a analisar os campos especiais soviéticos logo após a revolução pacífica de 1989/90 que derrubou o regime da Alemanha Oriental.

Suas descobertas e as de outros pesquisadores corroboram o sofrimento mental e físico suportado por Wichmann. Ele esteve preso nos campos especiais soviéticos em Torgau e depois em Sachsenhausen até 1950. Mais tarde, ele foi devolvido a Torgau como prisioneiro da recém-fundada RDA, a antiga Alemanha Oriental.

Vítima da propaganda alemã-oriental

Depois de libertado, em 1954, Wichmann foi proibido de falar sobre seu passado nos campos de prisioneiros, ao menos publicamente. "Eu fui seriamente instruído a não falar sobre isso", disse Wichmann, que só compartilhou detalhes com alguns confidentes próximos, como sua esposa.

Esse silêncio se revelou útil, pois todos os prisioneiros foram estigmatizados como nazistas na propaganda oficial da Alemanha Oriental, mesmo que cerca de 20% deles não o fossem. Qualquer um que questionasse ou informasse sobre as condições nos campos era acusado de "agitação" e "calúnia".

Não há fotos conhecidas da época sobre as condições por trás das paredes dos campos especiais. No entanto, alguns prisioneiros puderam documentar secretamente o que aconteceu lá através de fotos privadas e desenhos, como as ilustrações deste artigo, feitas por Detlev Putzlar e Wilhelm Sprick.

Desenho mostra duas pessoas portando um cartaz onde está escrito Wir verrecken

O prisioneiro Wilhelm Sprick documentou uma revolta de presos. No cartaz, lê-se "Estamos morrendo de forma desumana"

Por causa de acusações falsas, eles foram condenados em 1945, ainda adolescentes, a longas penas de prisão e passaram por diversos campos especiais. Um deles foi Sachsenhausen, ao norte de Berlim e originalmente construído pelos nazistas como campo de concentração.

Campos de concentração x campos soviéticos

Após o fim da Alemanha Oriental, foram descobertas valas comuns contendo os restos mortais de 7 mil pessoas em Sachsenhausen. Neste caso, não eram ex-prisioneiros do campo de concentração, mas sim presos do campo especial construído no mesmo local. Devido a esse tipo de descobertas e das altas taxas de mortalidade nos campos especiais, alguns especialistas veem pouca diferença entre os campos soviéticos e os campos de concentração nazistas.

Mas Kaminsky acha que não se pode fazer esta comparação. Também para Axel Drecoll, diretor da Fundação Memoriais de Brandemburgo, no caso de Sachsenhausen, que abrigou dois tipos diferentes de campos, é particularmente importante "apresentar suas diferentes fases, seus contextos históricos e as intenções de seus operadores de forma diferenciada e cientificamente sólida". Segundo ele, "uma grande diferença foi o assassinato em massa, específico ao terror do campo de concentração".

Mas Drecoll lembra que não pode ser omitido o fato de milhares de pessoas terem morrido de fome e doenças no campo especial soviético. Para fazer justiça ao caráter diferenciado dos campos e seus personagens, as duas áreas foram separadas, e as vítimas são homenageadas em locais diferentes. Drecoll considera esta distinção muito importante. 

Wichmann perdoou seus algozes

"Eu não alimento nenhum ódio", diz Wichmann hoje, apesar de tudo por que passou. Ele se via como alguém "que expiou pelos crimes da era nazista". Sua condenação injusta foi confirmada pelo procurador-geral russo no início dos anos 1990 e ele foi oficialmente reabilitado depois que os arquivos da era soviética se tornaram públicos.

Aos 16 anos, ele havia sido ferido durante a Segunda Guerra, enquanto era assistente na Força Aérea nazista. "Sobrevivi ao horror da guerra - e também a um momento terrível depois disso."

Em relação à memória dos crimes contra a humanidade cometidos pelos nazistas e seu destino pessoal nos campos especiais soviéticos, Wichmann tem um desejo: "Gostaria que isso nunca acontecesse com nossos netos e bisnetos."

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