Artista do Leste alemão estimulou pintura avessa ao socialismo | Página especial sobre a data da queda do Muro de Berlim | DW | 05.11.2009
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9 de novembro de 1989

Artista do Leste alemão estimulou pintura avessa ao socialismo

Pintor da antiga República Democrática Alemã (RDA) Hans-Hendrik Grimmling, conseguiu escapar do Realismo Socialista na RDA. Ele e cinco outros artistas foram pioneiros ao organizar o 1° Salão de Outono de Leipzig.

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Desde jovem, Grimmling tentou escapar das convenções

Hans-Hendrik Grimmling nasceu praticamente com um pincel na mão. Aos 14 anos, ele e um amigo já tinham seu próprio ateliê em sua cidade natal, Zwenkau, próximo a Leipzig, na então República Democrática Alemã (RDA).

Mas, na realidade, não era bem arte o que os dois garotos tinham na cabeça. Embora pintassem, copiassem quadros de artistas como Franz Marc e vendessem até mesmo algumas peças, o ateliê servia antes como um santuário de liberdade. Eles usavam o espaço para beber e fazer festas, além de alugá-lo para casais jovens, em troca de um copo de cerveja.

Após completar sua formação escolar e o serviço militar obrigatório no Exército Popular Nacional (um tempo de humilhação e lágrimas escondidas, como revela Grimmling), foi aceito para cursar em Leipzig a mais renomada escola superior de arte da RDA. Ele e seus colegas ganharam fama de selvagens, mas também incrivelmente produtivos.

"Imaginação completamente estranha"

Grimmling terminou seus estudos com Werner Tübke, um dos pintores mais famosos da Alemanha Oriental, e foi aceito, juntamente com outros cinco colegas, na classe avançada chamada Arte Livre. A classe era dirigida por Wolfgang Mattheuer, importante figura na cena artística de Leipzig. Na classe de Mattheuer, Grimmling vivencia a liberdade artística.

Hans-Hendrik Grimmling, Berliner Maler

Hans-Hendrik Grimmling, em 2008

No entanto, Grimmling foi impedido de se graduar, pouco antes de finalizar seus estudos. Como justificativas para sua reprovação, a faculdade mencionou sua "imaginação completamente estranha" e a influência da "decadência imperialista" em seu trabalho. Não se podia encontrar nada do proletariado em suas pinturas, criticaram.

Diante da ameaça de expulsão, Grimmling aceitou a tarefa de pintar dois mineiros em um quadro chamado Heróis do trabalho. " E foi o que eu fiz. Ainda não tinha esse páthos alternativo – 'Vão se danar, vocês todos!' – Eu queria esse primeiro reconhecimento estatal que era do diploma."

Heróis do trabalho possibilitou a formatura de Grimmling com a nota "muito bom". Ele foi então convidado a trabalhar na Associação de Artistas Visuais. O emprego lhe possibilitava suprir suas necessidades básicas e lhe oferecia oportunidades de participar em projetos e negócios artísticos patrocinados pelo Estado.

Chamando a atenção dos censores

Paralelamente à função oficial, no entanto, Grimmling desenvolveu sua própria visão. Ele pintava pássaros sem asas ou com corpos contorcidos, articulava-se com outros artistas, experimentava caminhos, testava fronteiras.

Seu trabalho começou a chamar a atenção dos censores da Alemanha Oriental. Em particular, um verso de um poema que ele e Olaf Wegewitz, um artista amigo, colocaram em 1980 sobre a porta de uma galeria gerou desconfiança. Ele dizia: "A palavra estraga os caminhos". Os censores se perguntaram se Grimmling estaria fazendo alusão ao SED, partido único do governo alemão oriental.

No dia anterior à abertura da exposição nessa galeria, autoridades do governo cancelaram e ordenaram seu desmonte. O episódio frustrou Wegewitz e Grimmling, que se recordam: "Fomos humilhados, mas, ao mesmo tempo, sentimos uma espécie de prazer por termos sido capazes de nos definir de forma diferente e de não sermos um deles".

umerziehung_FB.jpgACHTUNG - NUR FÜR DP-KULTUR! Hans-Hendrik Grimmling: Umerziehung der Vögel, Öl auf Hartfaser, 200 X 400, 1978

'Reeducação dos Pássaros', 1978

Para além da imaginação do Estado

Outra exposição de Grimmling foi proibida no ano seguinte, mas o artista não desistiu. Ele procurou novos caminhos para exibir seu trabalho, até que, finalmente, uma ideia genial lhe ocorreu. Juntamente com outros cinco artistas, Grimmling organizou o 1° Salão de Outono de Leipzig. O evento de 1984 tornou-se a primeira exposição não censurada a acontecer na República Democrática Alemã.

Graças à filiação à Associação de Artistas Visuais, Grimmling e seu amigo pintor Günther Huniat puderam alugar o espaço de uma agência governamental em Leipzig para a realização da mostra. As autoridades oficiais não imaginavam que os artistas não planejavam expor obras da arte oficial da Associação, mas sim suas próprias criações independentes.

Finalmente, a Stasi – a polícia secreta da Alemanha Oriental – tomou conhecimento dos planos do grupo e classificou o trabalho de Grimmling e seus companheiros como hostil e negativo. Autoridades da segurança questionaram, no entanto, se proibir a exposição não iria atrair atenção demais para os artistas.

Com vista a essas preocupações, a realização da exposição foi permitida, mas com uma importante ressalva: não mais que seis visitantes poderiam vê-la diariamente. No entanto, a mostra foi um sucesso, atraindo mais de 10 mil pessoas ao longo de quatro semanas.

ACHTUNG - NUR FÜR DP-KULTUR! Hans-Hendrik Grimmling: Ich in Leipzig, Öl auf Hartfaser, 100 X 80, 1978

'Eu em Leipzig', 1978

Uma ameaça ao comunismo

Apesar do sucesso da exposição, ela se tornou uma derrota para Grimmling. Para ele, ficou claro que o Estado nunca permitiria a instalação de um segundo Salão de Outono. Essa conclusão o levou a uma importante decisão: ele preencheu uma requisição oficial para deixar a Alemanha Oriental.

O arquivo da Stasi relativo a Grimmling revela que ele era visto como uma causa perdida que não poderia ser reconquistada para o "bem da sociedade". Assim, de forma pouco usual, o pedido de Grimmling para deixar o país foi encaminhado e rapidamente aprovado.

Mudando para Berlim

Em 1986, o artista viajou para Berlim Ocidental, juntamente com sua esposa e a filha pequena. Eles viveram na casa de amigos, enquanto Grimmling montava um ateliê provisório, e começou a pintar, com os parcos materiais de que dispunha, sobre papel de embalagem de uma loja de ferramentas. Ele também vendeu algumas pinturas que sobraram da época em Leipzig.

Pouco a pouco, Grimmling se estabeleceu cada vez mais em Berlim Ocidental. Em 1988, começou a dar aulas de pintura. Três anos mais tarde, tornou-se professor da Escola Superior de Tecnologia da Arte (BTK) em Berlim.

Sobre seu trabalho na BTK, ele explica: "De vez em quando, tento explicar a meus alunos que não só faz sentido, como pode até trazer certo prazer, envolver-se em processos que, você percebe, podem estar manipulados. E há bastante deles, mesmo após a queda do Muro".

Autora: Nadine Wojcik (ca)
Revisão: Augusto Valente

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