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Rua alagada na Índia: mudanças climáticas deverão tornar cheias cada vez mais frequentesFoto: DW/S. Bandopadhyay

Aquecimento global fará milhões de vítimas, diz texto da ONU

23 de junho de 2021

Dezenas de milhões de pessoas deverão sofrer de fome, seca e doenças nas próximas décadas devido às mudanças climáticas, segundo rascunho de relatório de 4 mil páginas preparado por painel de especialistas.

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As mudanças climáticas irão remodelar fundamentalmente a vida na Terra nas próximas décadas, mesmo que os humanos consigam domar as emissões de gases de efeito estufa que causam o aquecimento do planeta, de acordo com um relatório preliminar dos consultores de ciência do clima da ONU revelado nesta quarta-feira (23/06) pela agência de notícias AFP.

Dezenas de milhões de pessoas a mais deverão sofrer de fome, seca e doenças nas próximas décadas devido às mudanças climáticas, conforme o cenário traçado num relatório preliminar do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

"O pior ainda está por vir, afetando muito mais a vida de nossos filhos e netos do que a nossa", diz o texto.

Em 4 mil páginas, os mais de 700 autores mostram, entre outras coisas, como o aquecimento global afeta a saúde humana. As decisões políticas que estão sendo tomadas agora podem mitigar essas consequências, mas muitas já são inevitáveis, de acordo com o relatório da ONU.

Extinção de espécies, maior disseminação de doenças, calor insuportável, colapso de ecossistemas, cidades ameaçadas pela elevação do mar – esses e outros impactos climáticos devastadores estão se acelerando e devem se tornar evidentes de forma dolorosa nos próximos 30 anos.

"Peça de acusação"

O catálogo mais abrangente já reunido até agora sobre como a mudança climática está transformando o mundo, o relatório se assemelha a uma volumosa peça de acusação à administração do planeta pela humanidade.

O relatório é muito mais alarmante que o antecessor, divulgado em 2018. O documento deve ser publicado em fevereiro de 2022, após a aprovação pelos 195 Estados-membros da ONU e depois da conferência climática COP26, marcada para novembro, em Glasgow, na Escócia.

Prevista originalmente para novembro de 2020, a 26.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26).

Em resposta à divulgação do texto, o IPCC divulgou uma nota dizendo que "não comenta o conteúdo dos relatórios preliminares enquanto o trabalho ainda está em andamento".

Fogo em floresta na Califórnia
Fogo na Califórnia: aquecimento global aumentou duração das temporadas de incêndiosFoto: Ringo Chiu/ZUMA/picture alliance

Há pelo menos quatro conclusões principais no relatório preliminar, que pode estar sujeito a pequenas alterações nos próximos meses.

A primeira é que com o 1,1 grau Celsius de aquecimento até agora, em relação aos níveis pré-industriais, o clima já está mudando.

Uma década atrás, os cientistas acreditavam que limitar o aquecimento global a 2 graus Celsius acima dos níveis de meados do século 19 seria o suficiente para salvaguardar o futuro da humanidade.

Essa meta está consagrada no Acordo de Paris de 2015, adotado por quase 200 nações que prometeram limitar coletivamente o aquecimento para "bem abaixo" de dois graus Celsius – e 1,5 grau, se possível.

Aquecimento de 3 °C

Seguindo as tendências atuais, o mundo ruma para um aquecimento de 3 graus Celsius, na melhor das hipóteses.

Mas o relatório preliminar da ONU diz que o aquecimento prolongado, mesmo além de 1,5 grau Celsius, pode produzir "consequências progressivamente sérias, de séculos e, em alguns casos, irreversíveis".

No mês passado, a Organização Meteorológica Mundial projetou 40% de chance de que a Terra supere o limite de 1,5 grau por pelo menos um ano até 2026.

Para algumas plantas e animais, pode ser tarde demais. "Mesmo com 1,5 grau Celsius de aquecimento, as condições irão mudar além da capacidade de adaptação de muitos organismos", observa o relatório. Os recifes de coral – ecossistemas dos quais dependem meio bilhão de pessoas – são um exemplo.

Fome crônica e pobreza extrema

O aquecimento global também aumentou a duração das temporadas de incêndios, duplicou áreas potenciais para incêndios e contribuiu para as perdas nos sistemas alimentares.

O mundo deve enfrentar essa realidade e se preparar para reagir, o que é uma segunda lição importante do relatório. "Os níveis atuais de adaptação serão inadequados para responder aos riscos climáticos futuros", adverte.

Dezenas de milhões de pessoas a mais provavelmente enfrentarão a fome crônica até 2050, e mais 130 milhões poderão experimentar a pobreza extrema em uma década, se a desigualdade continuar se aprofundando.

Em 2050, centenas de milhões de moradores das cidades costeiras na "linha de frente" da crise climática serão afetadas por enchentes e tempestades cada vez mais frequentes, tornadas mais mortais pela elevação do mar.

Gelo no mar da Antártida
Elevação do mar causada pelo derretimento do gelo polar gerará calamidades em cidades costeirasFoto: picture-alliance/dpa/blickwinkel/A. Rose

Ondas de calor extremas

Cerca de 350 milhões a mais de pessoas que vivem em áreas urbanas estarão expostas à escassez de água devido a secas severas, consequências do 1,5 grau Celsius de aquecimento – 410 milhões com 2 graus Celsius.

Esse meio grau adicional também significará 420 milhões de pessoas expostas a ondas de calor extremas e potencialmente letais. "Prevê-se que os custos de adaptação para a África aumentem dezenas de bilhões de dólares por ano com o aquecimento superior a dois graus", adverte o relatório.

Em terceiro lugar, o relatório descreve o perigo de impactos compostos e em cascata, juntamente com limites de ponto de não retorno no sistema climático, conhecidos como pontos de inflexão, que os cientistas mal começaram a medir e compreender.

Uma pesquisa recente mostrou que o aquecimento de 2 graus Celsius poderia empurrar para além do ponto de não retorno o derretimento das camadas de gelo na Groenlândia e na Antártida Ocidental – com água congelada o suficiente para elevar os oceanos em 13 metros.

Calamidades em áreas costeiras

Outros pontos de inflexão poderão levar à transformação da Bacia Amazônica de floresta tropical em savana, e fazer com que bilhões de toneladas de carbono escapem do permafrost da Sibéria, alimentando ainda mais o aquecimento global.

Em um futuro mais imediato, algumas regiões – leste do Brasil, sudeste da Ásia, Mediterrâneo, China central – e litorais em quase todos os lugares podem ser atingidos por várias calamidades climáticas ao mesmo tempo: seca, ondas de calor, ciclones, incêndios florestais, inundações.

Mas os impactos do aquecimento global também são amplificados por todas as outras maneiras pelas quais a humanidade destruiu o equilíbrio da Terra. Isso inclui "perdas de habitat e resiliência, superexploração, extração de água, poluição, espécies não nativas invasivas e dispersão de pragas e doenças", diz o relatório.

"Não há solução fácil para esse emaranhado de problemas", diz Nicholas Stern, ex-economista-chefe do Banco Mundial e autor do histórico estudo sobre alterações climáticas Relatório Stern.

"O mundo está enfrentando um conjunto complexo de desafios interligados", disse Stern, que não contribuiu para o relatório do IPCC. "A menos que você os enfrente juntos, você não vai se sair muito bem em nenhum deles."

md/lf (AFP, Lusa)