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Manifestantes portam faixa "Combater o anticiganismo"
Protesto contra a discriminação dos sinti e rom em Berlim, outubro de 2013Foto: picture-alliance/dpa
Igualdade de direitosAlemanha

"Anticiganismo é um problema da sociedade como um todo"

Gilda-Nancy Horvath
28 de maio de 2022

Mehmet Daimagüler é o primeiro encarregado do combate à discriminação das etnias nômades na Alemanha. Ele critica falta de reflexão sobre passado e papel da mídia em perpetuar preconceitos como "criminalidade de clã".

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Que condutas racistas e discriminatórias têm tradição histórica? Como elas influenciam as instituições estatais até hoje? Essas são as questões que mais motivam o deputado federal alemão de origens turcas Mehmet Daimagüler.

Já há décadas ele se ocupa de racismo, o qual conhece por experiência própria, também como advogado das vítimas no processo da Clandestinidade Nacional-Socialista (NSU), célula neonazista que entre os anos 2000 e 2007 matou nove estrangeiros e uma policial na Alemanha.

Desde o começo de maio de 2022, Daimagüler atua como encarregado federal contra o anticiganismo e pela vida das etnias nômades sinti e rom (ciganos). Segundo ele, muitos dos desafios que enfrenta resultam da falta de análise e processamento da história.

"Foi recalcado o fato de que esses criminosos não eram só nazistas, mas também alemães. Nossos avós mandaram assassinar ou assassinaram os avós [dos ciganos]. Assim, também depois de 1945, se fez de tudo para que os criminosos de então permanecessem livres de culpa. Para tal, os mortos foram criminalizados. Essa narrativa da criminalidade dos sinti e roma é, justamente, um eco daqueles tempos."

Deputado federal alemão Mehmet Daimagüler
Mehmet Daimagüler representou as vítimas nos processos da NSUFoto: Revierfoto/dpa/picture alliance

"Policiais precisam de treinamento de direitos humanos"

Esse eco se manifesta, ainda hoje, no trabalho da Polícia e da Justiça. Por isso é preciso agir também sobre as gerações mais jovens, na política de contratação e no material didáticos para formação profissional e carreira dos funcionários, frisa o deputado.

"Assim como os policiais têm que fazer treinamento de tiro regularmente, também deveriam ter que cumprir regularmente treinamento de direitos humanos, com a participação de integrantes da comunidade [sinti e rom], como recurso importante e como parceiros em pé de igualdade."

Devido às experiências negativas da comunidade na interação com Polícia e Justiça, a maioria dos delitos cometidos contra seus integrantes nunca são registrados, permanecendo, assim, invisíveis. "Os atingidos são abandonados. Muitos, justificadamente, depositam pouca confiança na Polícia e no Ministério Público. A política deve cuidar mais, justamente, desses casos desconhecidos."

A nova Central de Denúncias de Anticiganismo (Meldestelle Antiziganismus, MIA) deverá dar uma contribuição vital nesse aspecto: no futuro, os afetados poderão registrar sua queixa sem passar por uma delegacia. "A MIA deverá se tornar um instrumento importante para que ao menos se calcule o número real dos casos. E aqui não se trata apenas de casos de relevância penal, mas também de agressões que vão além disso."

Monumento no Tiergarten de Berlim pelos ciganos assassinados pelo regime nazista
Nomes, água, sons de violino: monumento no Tiergarten de Berlim pelos ciganos assassinados pelo regime nazistaFoto: imago/C. Ditsch

Imagem de nômades na mídia: "sensacionalismo irresponsável"

A narrativa racista da "criminalidade de clã" também domina a representação dos sinti e roma na mídia, prossegue Daimagüler. Vez por outra ele esbarra em assim chamadas "reportagens investigativas" que visam ampliar suas tiragens e alcance instigando medos.

"Aqui, através de exemplos assustadores isolados de criminalidade, se tira conclusões sobre o comportamento de toda a comunidade. Gosta-se de afirmar que a cultura e a suposta incapacidade de aceitar regras seriam as causas de um comportamento criminoso."

Para o jurista, tais matérias atestam "falta de respeito fundamental pelo ofício jornalístico" e "sensacionalismo irresponsável em nome das quotas de audiência". Os membros das etnias nômades chegados à Alemanha como refugiados são ainda mais visados pela tradicional desconfiança generalizada.

"Os roma em geral, em especial os dos Bálcãs – parte dos quais vive há décadas aqui com um status de permanência incerto – devem ser classificados como especialmente necessitados de proteção. Para eles, aquela região não é segura: é imoral e indecente enviar esses indivíduos de volta ao perigo que os espreita lá. Atualmente, os roma que fugiram da Ucrânia são submetidos a triagens – e utilizo essa palavra muito intencionalmente – nas estações ferroviárias, e tratados pior do que os outros."

Manifestantes dançam, mulher leva bandeira das etnias sinti e rom sobre os ombros, Portão de Brandemburgo ao fundo
Bandeira sinti e rom em manifestação pelos direitos das etnias nômades em Berlim, abril de 2015Foto: Adam Berry/Getty Images

"Anticiganismo é traição dos valores da nossa sociedade"

Uma das bases importantes para o programa de trabalho do deputado turco-alemão é o relatório da Comissão Independente Anticiganismo (UKA, na sigla alemã), que documenta as injustiças continuadas contra sinti e roma. Assim, mesmo depois da época nazista, a minoria foi excluída do sistema educacional e de diversas profissões. E mais da metade dos processos por discriminação se refere à interação com autoridades e instituições públicas.

Por esses motivos, o diálogo, feedback e crítica partindo das etnias nômades é um pilar importante para a atuação de Daimagüler, em cuja opinião no futuro deveria ser a própria comunidade a orientar os processos transformadores importantes.

Mehmet Daimagüler reflete criticamente sobre o fato de não possuir raízes nômades: está claro que ele não pode sentir a dor e sofrimento da mesma forma que seus membros. No entanto, sua função não é representar os sinti e roma, mas sim consolidar estruturalmente a participação dos sinti e roma nos processos decisórios da política, ressalva, já que só assim a voz deles ganhará peso duradouro.

"Sei que preciso trabalhar para conquistar a confiança da comunidade. A integração estrutural dos sinti e roma nos grêmios consultores, assim como o intercâmbio de conteúdos com organizações e representantes, é enormemente importante para mim e para a qualidade do nosso trabalho."

No fim das contas, trata-se de o Estado e a sociedade majoritária assumirem a responsabilidade pelo fim da exclusão das etnias nômades e para que essa comunidade não seja deixada só com o racismo e a discriminação, pois "anticiganismo é um problema para os afetados, mas, acima de tudo, um problema para a sociedade majoritária, pois representa uma traição dos nossos valores".