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CriminalidadeFrança

Antes de Nahel, outros casos de violência policial na França

3 de julho de 2023

Morte do jovem Nahel, em Nanterre, não foi o primeiro caso de óbito associado à má conduta da polícia francesa. Nos últimos anos, outros casos também provocaram série de protestos no país.

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Jovem passa pelos retratos de Zyed e Bouna, que adornam a entrada de centro comunitário em frente à Prefeitura de Clichy-sur-Bois, perto de Paris, França, em 24 de outubro de 2006.
Retratos de Zyed Benna e Bouna Traoré, mortos em Clichy-sur-Bois, perto de ParisFoto: EPA/LUCAS DOLEGA/picture alliance/dpa

Em 2022, houve 138 situações em que policiais franceses dispararam contra carros em movimento, resultando na morte de 13 pessoas. Agora foi a vez de Nahel, jovem de 17 anos assassinado na última terça-feira (27/06) no subúrbio parisiense de Nanterre. O caso desencadeou uma série de tumultos e manifestações pelo país contra uma suposta violência policial racista.

Enquanto nem todos os casos de mortes associadas à violência policial provocaram tamanha indignação na França, outros permanecem vivos na memória de muitos franceses ainda hoje. Relembre alguns nomes.

27 de outubro de 2005, Clichy-sous-Bois - Zyed Benna e Bouna Traoré

Traoré, de 15 anos, e Benna, de 17, estavam entre os dez jovens que voltavam para casa depois de uma partida de futebol. Naquele mesmo momento, a polícia havia recebido uma chamada de emergência sobre a invasão de um quartel e, atrás dos responsáveis, resolveu abordar o grupo. Sem documentos de identificação, Traoré, Benna e um amigo, Muhittin Altun, preferiram fugir.

A polícia chamou reforços e deu início a uma perseguição feroz. Os três adolescentes fugiram para uma área fechada e se esconderam em uma central de distribuição elétrica. Lá, Traoré e Benna morreram eletrocutados. O amigo Altun, por sua vez, conseguiu sobreviver, mas ficou com queimaduras graves.

Na época, uma mensagem de rádio gravada pela polícia gerou polêmica: "Se eles entrarem na EDF [produtora e distribuidora de energia da França], não dou muita esperança pela vida deles", disse um dos policiais que os perseguiam ao ver os jovens escalando uma cerca rumo ao terreno de propriedade da empresa. Posteriormente, contudo, o policial justificou as declarações alegando não imaginar que eles haviam ficado no local. Uma colega que estava na delegacia no momento da perseguição acompanhava os acontecimentos pelo rádio.

Jovens residentes de Clichy-Sous-Bois se reúnem no dia 29 de outubro de 2005, em Clichy-sous-Bois, leste de Paris, para prestar homenagem a Bouna Traore, 15, e Zyed Benna, 17,  que morreram eletrocutados enquanto se escondiam da polícia em central de energia.
Jovens residentes de Clichy-sous-Bois prestam homenagem a Traoré e Benna em 29 de outubro de 2005Foto: AP Photo/Christophe Ena/picture alliance

Os dois policiais foram acusados de omissão de socorro e de não alertarem a empresa de energia sobre a presença dos invasores, cuja vida estava em risco. Dez anos depois, ambos foram absolvidos por um tribunal criminal em Rennes. A justificativa foi de que o perigo não era óbvio no momento e que os policiais, portanto, agiram de forma adequada.

17 de junho de 2007, Belleville - Lamine Dieng

Após uma discussão entre Dieng e sua namorada, a polícia prendeu o jovem de 25 anos e o colocou em uma viatura. Segundo a organização de direitos humanos Anistia Internacional, cinco policiais o seguraram à força e o mantiveram imobilizado por meia hora com o rosto no chão e os pés amarrados. Dieng acabou perdendo a consciência e morreu sufocado.

Pessoas marcham carregando faixa com os dizeres "Sem justiça, sem paz para Lamine Dieng" durante manifestação realizada no dia 17 de junho de 2017, em Paris, em homenagem a Lamine Dieng, jovem morto por policiais dez anos antes.
Manifestação em Paris relembra os dez anos da morte de Lamine DiengFoto: Francois Guillot/AFP via Getty

Treze anos depois, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos em Estrasburgo ordenou à França que pagasse à família da vítima 145 mil euros. O caso levou as irmãs de Dieng a formarem a primeira Comissão da Verdade e Justiça para esclarecer o que realmente aconteceu naquele dia. Outros casos viriam a seguir.

9 de junho de 2009, Argenteuil - Ali Ziri

Em viagem à França para comprar presentes de casamento para seu filho, o argelino de 69 anos decidiu tomar uns drinks com um amigo após as compras. Na volta, porém, Ziri teve o carro parado pela polícia. Embriagado, o aposentado tentou resistir, mas teve as mãos presas pelas costas e foi levado até uma viatura, onde foi mantido algemado e com a cabeça entre os joelhos.

Em 17 de junho de 2017, manifestantes seguram faixa com os dizeres "Justiça para Ali Ziri" em homenagem a Ali Ziri, aposentado que morreu em 2009 após uma custódia policial em Paris.
Justiça para Ali Ziri: manifestação em Paris em 17 de junho de 2017Foto: Francois Guillot/AFP

Ziri vomitou várias vezes, entrou em coma e acabou morrendo no hospital em decorrência de asfixia. Aqui, mais uma vez, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos condenou a França por "negligência". A filha de Ziri recebeu 30 mil euros por danos morais, além de 7,5 mil euros pelos custos e despesas com o julgamento.

19 de julho de 2016, Beaumont-sur-Oise - Adama Traoré

Filho de pais malianos, o jovem de 24 anos havia conseguido escapar de uma perseguição policial, mas acabou sendo detido pela Gendarmaria francesa. Três policiais se ajoelharam sobre suas costas e, segundo os registros da prisão, Traoré disse que não conseguia respirar. A polícia chamou uma ambulância, mas quando ela chegou, Traoré já estava morto.

Assa Traoré (centro), irmã do falecido Adama Traoré, de 24 anos, morto ao ser detido pela polícia em julho de 2016, em Beaumont-sur-Oise, participa de manifestação em Paris, França, em 5 de novembro de 2016.
O caso Adama Traoré teve muitos paralelos com a morte de George Floyd, quatro anos depois, nos EUAFoto: Jerome Gilles/NurPhoto/picture alliance

Na falta de testemunhas ou gravações de vídeo, a causa exata da morte gerou controvérsia: de um lado, um tribunal atribuiu o óbito a uma doença pré-existente; de outro, uma autópsia feita a pedido da família de Traoré concluiu que Traoré morreu sufocado em decorrência de violência externa.

5 de janeiro de 2020, Paris - Cédric Chouviat

O homem de 42 anos estava andando de moto perto da Torre Eiffel quando foi parado pela polícia por supostamente falar ao telefone enquanto dirigia. A checagem de rotina, no entanto, saiu completamente fora do controle: houve uma troca de agressões verbais, até que os quatro policiais imobilizaram Chouviat com a cabeça no chão, ainda de capacete.

Em janeiro de 2021, manifestantes marcaram o aniversário de um ano da morte de Chouviat em frente à Torre Eiffel, em Paris
Em janeiro de 2021, manifestantes marcaram o aniversário de um ano da morte de Chouviat Foto: PHOTOPQR/LE PARISIEN/Olivier Corsan/picture alliance

"Estou sufocando", teria gritado sete vezes o pai de cinco filhos, conforme mostram as gravações de vídeo e áudio apreendidas. Os policiais, no entanto, não reagiram. Chouviat perdeu a consciência e morreu no hospital 48 horas depois. Segundo o laudo da autópsia, o óbito se deu em decorrência de uma fratura laríngea.