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Dois homens e uma mulher com olhares preocupados em um ambiente pouco iluminado
A série "1899" entrou no top ten da Netflix logo após a estreiaFoto: Netflix

Acusações de plágio no mundo das séries e filmes

Silke Wünsch
24 de novembro de 2022

De "Stranger Things" a "Jogos Vorazes": casos como o de uma quadrinista brasileira que acusa de plágio os criadores da série "1899", da Netflix, são recorrentes.

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Pouco após a estreia da nova série da Netflix 1899, a quadrinista brasileira Mary Cagnin já estava causando furor nas redes, ao afirmar que várias partes da produção haviam sido roubadas de um de seus quadrinhos.

"ESTOU EM CHOQUE", escreveu Cagnin em letras garrafais no Twitter. Ela apontava a série 1899 como "simplesmente idêntica" ao quadrinho Black Silence, obra sua publicada em 2016.

Como semelhanças, ela citou "a pirâmide negra", "o navio/nave", "a tripulação multinacional", levantando a hipótese de que os criadores da série descobriram seu trabalho em uma feira do livro internacional.

Em seguida, escreveu que há "inúmeros ​​casos de gringos copiando a gente", seja em filmes, séries ou músicas, evocando sobretudo o sucesso cinematográfico As Aventuras de Pi. E de fato, o escritor canadense Yann Martel, cujo livro virou sucesso de bilheteria na versão para o cinema, admitiu que se inspirou em uma crítica sobre o livro Max e os felinos, de Moacyr Scliar.

Baran Bo Odar e Jantje Friese, criadores de 1899 e da aclamada série Dark, dizem estar sendo acusados injustamente e negam conhecer a brasileira ou sequer sua obra. E salientam que jamais roubariam de outros artistas, já que eles mesmos se veem como artistas. O caso agora está nas mãos de advogados.

Baran Bo Odar e Jantje Friese sorriem para a câmera na première da série
Baran Bo Odar e Jantje Friese, criadores de "1899"Foto: Frederic Kern/Future Image/IMAGO

Stranger Things: uma reminiscência de E.T. e Goonies

O sucesso da série Stranger Things tem muitas reminiscências de filmes de aventura dos anos 80, como Os Goonies e E.T., de Steven Spielberg, ou o drama sobre amadurecimento Conta Comigo, baseado numa história de Stephen King. Mas nem Spielberg nem King foram se queixar de forma alguma com Ross e Matt Duffer, os criadores de Stranger Things.

Isso coube a um cineasta relativamente desconhecido chamado Charlie Kessler. Em seu curta-metragem Montauk, ele contava a história de um menino que desaparecia sem deixar vestígios, em um cenário de eventos paranormais em uma pequena cidade que, por acaso, ficava perto de uma misteriosa instalação militar.

Kessler conta que comentou sobre seu filme com os gêmeos Duffer nos bastidores do Tribeca Film Festival, em Nova York, mas nenhuma parceria jamais se concretizou.

Dois anos depois, a Netflix lançou Stranger Things — uma história sobre o desaparecimento de um menino no contexto de eventos paranormais em uma pequena cidade que fica perto de uma misteriosa instalação militar. Somente quando a série fez sucesso, Kessler veio a público com acusações de plágio.

Os irmãos Duffer passaram tudo para um advogado. A sentença: o processo contra eles nada mais era do que uma tentativa de lucrar com a criatividade e o trabalho árduo de outras pessoas.

De Jogos Vorazes a Round 6

Alguns meses atrás, o diretor Quentin Tarantino comentou em um programa de TV americano que considerava a série de filmes Jogos Vorazes uma cópia do filme japonês Battle Royale.

Uma garota ensina outra como lançar uma flecha com um arco.
Em "Jovens Vorazes", jovens têm que caçar e matar uns aos outrosFoto: Murray Close/AP/picture alliance

Isso não era novidade para Suzanne Collins, autora de Jogos Vorazes. Ao longo de sua carreira, ela foi repetidamente acusada de ter roubado a ideia para seus livros. Ela teria copiado, por exemplo, o escritor Stephen King, que em seu livro O Concorrente (1982) fala de um pai de família que participa de um game show mortal para poder pagar os medicamentos de sua filha gravemente doente. A história foi filmada em 1987 sob o título O Sobrevivente, com Arnold Schwarzenegger.

Seja Battle Royale, Jogos Vorazes ou O Sobrevivente — em todas essas distopias, as pessoas são jogadas umas contra as outras e lutam pela sobrevivência para o deleite de um público pervertido.

O exemplo mais recente é o mega-sucesso coreano Round 6. Dizem as más línguas que a série foi copiada do filme de terror japonês As The Gods Will, de 2014. Sim, aqui também se jogam jogos infantis, e os perdedores devem morrer. Mas a história toda é completamente diferente: em Round 6, adultos altamente endividados participam dos jogos voluntariamente na disputa por bilhões. Já As The Gods Will se passa em uma escola japonesa, e as crianças são forçadas a participar dos jogos assassinos.

Homem olha preocupado para biscoito partido que segura com uma das mãos.
Cortar biscoitos se transforma num desafio mortal em "Round 6"Foto: Netflix/ZUMAPRESS/picture alliance

Quem teve a ideia primeiro?

De fato, não se pode acusar o diretor de Round 6, Hwang Dong-hyuk, de plágio, pois ele já tentava vender sua história desde 2008 — até que a Netflix topou.

Seja em músicas, histórias ou filmes, acusações de plágio são frequentes. Não é fácil provar quem teve uma ideia primeiro ou sequer que uma ideia tenha sido roubada. Afinal, não é totalmente impossível que duas pessoas, numa população mundial de 8 bilhões, tenham pensamentos, melodias ou até mesmo histórias semelhantes em suas cabeças.

É por isso que processos de plágio raramente vingam na Justiça — especialmente no caso de filmes que envolvem a criatividade de muitas pessoas e cujo processo de criação é longo. Sem contar que grandes estúdios de cinema ou grandes produtoras possuem exércitos inteiros de bons advogados e muito dinheiro para conseguir vencer tais processos.

Debate na rede

No Twitter e no Instagram, os criadores de 1899 foram alvo de uma verdadeira shitstorm de fãs da quadrinista brasileira. Seguindo o fio do polêmico tuíte, iniciou-se um grande debate sobre quais cenas, personagens ou símbolos teriam sido roubados.

Por outro lado, fãs de 1899 dizem que os exemplos mencionados são meras referências comuns no mundo da ficção científica.

Baran Bo Odar, um dos criadores de 1899, também se manifestou no Instagram sobre o alvoroço na rede, que abrangeu ataques pessoais contra ele e sua esposa, a coautora da série, Jantje Friese. A internet, diz ele, tornou-se um lugar estranho.

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