A queda do Muro vivenciada por quatro brasileiros | Página especial sobre a data da queda do Muro de Berlim | DW | 09.11.2009
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9 de novembro de 1989

A queda do Muro vivenciada por quatro brasileiros

Dos quatro brasileiros que vivenciaram o 9 de novembro de 1989 nos dois Estados alemães, três só perceberiam a queda do Muro mais tarde. Hoje, todos atuam em instituições de ensino superior no Brasil.

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Brasileiro Ernani Pinheiro Chaves esteve na Alemanha quando Muro caiu

O paraense Ernani Pinheiro Chaves, na época doutorando de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), estivera, quatro dias antes da queda do Muro, nas proximidades do Portão de Brandemburgo, onde emissoras de radiodifusão já faziam plantão 24 horas por dia. Ele reforça: "Entre os brasileiros e estrangeiros com quem conversava, ninguém cogitava a possibilidade de abertura do Muro."

Em 9 de novembro de 1989, ele se mudou do bairro de Wedding para Neukölln. Exausto após a mudança, ligou a tevê, assistiu algumas notícias e adormeceu. "Na manhã seguinte, o jornal Bild Zeitung trazia a manchete Die Mauer ist weg (O Muro desapareceu). Li e reli várias vezes. Dizia a mim mesmo que ainda não sabia alemão suficiente, pois como não haveria mais muro, se ontem mesmo ele estava lá, imponente e ameaçador?", recorda Ernani, que chegara à Alemanha Ocidental alguns meses antes. Só acreditou depois de telefonar para um amigo brasileiro e religar a tevê.

Ele foi confrontado com a nova realidade a caminho da aula de alemão: uma multidão, com roupas escuras, todas aparentemente iguais, e um olhar estranho, que talvez misturasse alegria e medo, diante das lojas, das vitrines. "Vinte anos depois, após ter feito amizade com alguns ossis (pessoas do Leste alemão), posso compreender melhor a excitação e a euforia daqueles dias, que pareciam intermináveis", conta Ernani. Depois da aula, o estudante foi conferir pessoalmente a dilapidação do Muro perto do parque Görlitzer Park.

Estado em crise profunda

O então estudante de Arquitetura da USP Renato Cymbalista desembarcara em Berlim Ocidental em março de 1989 e passara a frequentar como ouvinte a Escola Superior de Artes de Berlim. Apesar de perceber que a então Alemanha Oriental era um Estado em crise profunda, Renato não tinha ideia de que estava em vias de desaparecimento.

"O cotidiano em Berlim Ocidental não mostrava transformações até a queda do Muro" e, assim, a noite de 9 de novembro foi mais uma entre outras tantas. "No dia seguinte, percebi as ruas anormalmente cheias e só soube do acontecido quando cheguei à faculdade. Mesmo assim, não saí da rotina", conta.

Zwei Brasilianer vor dem Reichstag

Karleno Márcio Santos (esq.) com Gorbachov de papelão diante do Reichstag

Com uma bolsa do governo alemão-oriental, em agosto de 1989 o maranhense Karleno Márcio Santos Oliveira chegou a Leipzig para estudar alemão. Sem televisor na residência estudantil e orientado a não se envolver nas manifestações que aconteciam na cidade considerada o berço da revolução pacífica, Karleno igualmente só soube da reviravolta em Berlim no dia 10 de novembro, ao chegar ao Instituto Herder, onde estudava.

"Minha professora estava bastante feliz e, ao mesmo tempo, ansiosa. Ela tornou a aula uma discussão sobre nossas expectativas diante das mudanças que certamente viriam", conta Karleno. Cauteloso, acatou a recomendação de manter a rotina de estudos e só foi a Berlim conferir a nova realidade meses depois.

Bolão sobre a queda do Muro

Ao contrário dos três, Karen Macknow Lisboa estava na Alemanha a passeio. Chegara em junho e acompanhava atenta a ocupação das embaixadas alemãs-ocidentais em Praga, Varsóvia e Budapeste por alemães-orientais. "A atitude daquelas pessoas recusando o sistema, a opressão, a exploração, a humilhação, e mostrando coragem de largar o que tinham para se exilar me impressionava", observa.

Em outubro, foi visitar Berlim, cidade natal de seus pais e avós. Hospedou-se em uma república de estudantes no lado ocidental. "Haviam criado uma espécie de bolão sobre a queda do Muro. Os mais otimistas achavam que não havia mais como segurar. Os mais pessimistas temiam que houvesse um massacre como na China."

Clima de desconfiança

Levar o namorado ao lado oriental, onde já estivera em sua primeira viagem à cidade quase 10 anos antes, era programa obrigatório, apesar do complicado momento político. Em meio ao desmantelamento do regime comunista, preparava-se a festa dos 40 anos da República Democrática Alemã (RDA), que teria a presença do presidente soviético, Mikhail Gorbachov.

Karen recorda como ficou nervosa com a demora em ser liberada pelo guarda da fronteira da Alemanha Oriental, com as ruas coalhadas de soldados e com o clima de desconfiança. "Fomos abordados por um cidadão que insistia em saber se tínhamos marcos ocidentais para trocar. Ainda que o quiséssemos, não o faríamos, por medo. O policiamento acirrado, a falta de cordialidade entre as pessoas e o cinza das ruas e dos prédios me angustiavam. São impressões de um momento muito breve, resultado da rapidez da visita, da incerteza do que estava ocorrendo e da consciência de que éramos turistas numa ditadura em crise."

Ela estava com a família em Flensburg, na Alemanha Ocidental, festejando os 90 anos da avó, quando um dos convidados deu a notícia da queda do Muro. A avó ficou completamente emocionada. Não acreditava que viveria para ver a queda do muro. Depois da festa, Karen "grudou" na tevê para assistir as imagens históricas. "No dia seguinte, os trabis já tinham chegado onde estávamos, na fronteira com a Dinamarca", ressalta.

Fim da guerra continuava próximo

Embora já tivesse visitado Berlim Oriental antes, mas sobretudo pontos turísticos tradicionais, foi numa viagem à cidade em 15 de novembro, seis dias após a queda, que Ernani se deu conta da realidade daquele lado do muro. "Quando o metrô subiu à superfície na Senefelder Platz, nenhuma boa consciência militante de esquerda poderia deixar de ficar absolutamente chocada, estarrecida com o socialismo real. O hoje chique Prenzlauer Berg era quase um bairro em ruína total."

Renato também relata: "Antes da queda do Muro, ir a Berlim Oriental era um programa incrível, uma viagem no tempo. A iluminação das ruas, a roupa das pessoas, a comida, as lojas, tudo era diferente. Sentia-se que ali o fim da Segunda Guerra Mundial permanecia muito próximo. Alguns edifícios ainda exibiam buracos de balas.

Karleno igualmente teve a impressão de chegar a "um lugar irreal", quando desembarcou em Leipzig. "Lembro da palidez das cores. Os carros, as casas, as roupas e o semblante das pessoas, tudo parecia cinzento e triste. E todos envolvidos por um silêncio sufocante, como se uma ameaça pairasse sobre todos, prestes a abater aquele que violasse as regras do estranho mundo."

Autor: Marcio Weichert
Revisão: Roselaine Wandscheer