A peste ainda existe | Notícias internacionais e análises | DW | 08.07.2020

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Ciência

A peste ainda existe

A infecção bacteriana que devastou um terço da população europeia na Idade Média ainda não desapareceu completamente. Embora amplamente sob controle, ela ainda mata em algumas regiões do mundo.

Ilustração do século 19 mostra médico durante combate à peste bubônica

Ilustração do século 19 mostra médico durante combate à peste bubônica

No início de julho, três casos de peste bubônica foram registrados na Ásia. No primeiro fim de semana do mês, um pastor adoeceu na província da Mongólia Interior, no norte da China. Na segunda-feira seguinte, na Mongólia, foi a vez de um adolescente de 15 anos que havia comido carne de marmota. Na semana anterior, duas pessoas na província mongol de Khovd haviam adoecido. E, em 2019, um casal na Mongólia morreu também após comer uma marmota.

Os casos levaram as autoridades sanitárias a proibir a caça e o consumo de animais que possam transmitir a doença nas áreas afetadas –  especialmente as marmotas.

Embora a peste possa hoje em dia ser bem controlada com medicamentos, infecções sempre voltam a ocorrer em certas regiões do mundo. Isso porque o patógeno tem um reservatório natural em certos animais. Na Ásia, por exemplo, aparece em marmotas, e nos EUA, em cães da pradaria. Os gatos também podem ser infectados como hospedeiros intermediários.

Outras áreas endêmicas incluem a República Democrática do Congo e especialmente Madagáscar. Em Peru, Bolívia e EUA, infecções também volta e meia ocorrem novamente.

O patógeno da peste ainda hoje ocorre em populações de animais selvagens no sul da África, na América do Norte e do Sul e na Rússia e na Ásia. No entanto, os surtos são geralmente contidos rapidamente. Raramente atingem até mesmo taxas baixas de infecção de dois dígitos. 

Madagáscar, um caso especial

Madagáscar, uma ilha da África Oriental, é um dos últimos lugares do mundo onde ocorrem repetidamente surtos graves de peste. A última epidemia começou em agosto de 2017.

As autoridades sanitárias declararam o assunto como encerrado no final de novembro de 2017, mas continuaram a esperar casos isolados. A praga geralmente ocorre no país sazonalmente, entre setembro e abril. 

De 1 de agosto a 27 de novembro de 2017, 209 pessoas morreram da doença e 2.417 foram infectadas. A epidemia de peste pneumônica começou na província de Toamasina, no nordeste da ilha, mas logo se espalhou para a capital, Antananarivo. 

Pneumônica

A peste pode ocorrer de diferentes formas. Mas todas têm o mesmo patógeno: a bactéria yersinia pestis.

Se a doença ocorrer como peste pneumônica - como recentemente em Madagáscar - as pessoas podem infectar umas às outras. Mas a peste pneumônica não é tão altamente infecciosa quanto a gripe, por exemplo. Os patógenos morrem relativamente rápido no ar.

Para que a peste pneumônica se propague, as pessoas têm de se aproximar muito umas das outras, por exemplo, em cidades densamente povoadas. Surtos de peste pneumônica em humanos muitas vezes começam quando as pessoas que são infectadas pela primeira vez têm contato próximo com animais que já têm peste pneumônica.

Bubônica

A peste pneumônica em populações de roedores quase sempre ocorre em conjunto com uma epidemia anterior de peste bubônica. As pessoas também podem contrair a peste bubônica diretamente. Isso é quase sempre causado pela mordida de uma pulga de rato, que transmite o patógeno do roedor para os humanos.

A grande epidemia europeia de peste, entre 1346 e 1353, que matou uma em cada três pessoas, causando cerca de 25 milhões de mortes, foi sobretudo uma epidemia de peste bubônica.

Os roedores infectados e suas pulgas provavelmente viajavam a bordo de navios mercantes. Primeiro eles trouxeram a bactéria da Ásia para a Sicília. A partir daí, a peste se espalhou rapidamente. As condições de vida pouco higiênicas favoreceram sua difusão. As pessoas ignorantes e supersticiosas da época eram praticamente incapazes de neutralizar o patógeno. 

Morte rápida

Embora atualmente os médicos possam tratar bem a peste com antibióticos, as chances de recuperação diminuem rapidamente se passar muito tempo.

Especialmente no caso de uma infecção por peste pneumônica, os pacientes devem consultar um médico imediatamente. O período de incubação é de um a três dias. Se a doença não for tratada imediatamente, ela é quase sempre fatal. No último estágio da doença, ocorre a tosse sangrenta. Somente então existe o risco de infecção para outras pessoas. 

Na história, há apenas alguns exemplos onde uma epidemia de peste pneumônica pura se espalhou por todo o país. Normalmente a doença eclodiu tão rapidamente que os pacientes não podiam mais viajar longas distâncias e infectar pessoas em outras cidades. 

E em quase todos os casos conhecidos onde as epidemias de doenças pulmonares fizeram muitas vítimas, tratava-se sobretudo pessoas vivendo em moradias extremamente apertadas, superlotadas e pouco higiênicas.

A situação é diferente com a peste bubônica: os roedores infectados carregam o patógeno por muito tempo, e as pulgas podem infectar várias pessoas. Como os roedores podem transportar o patógeno por quase um mês antes de morrer, uma epidemia pode facilmente se espalhar de uma população de ratos para outra. Foi assim que a "Peste Negra” se espalhou pela Europa no final da Idade Média.

O período de incubação após uma picada de pulga pode variar muito em humanos. Às vezes, leva apenas algumas horas para que um paciente apresente sintomas. Mas também pode levar uma semana.

Os primeiros sintomas

Inicialmente uma doença derivada da peste é difícil de distinguir de uma gripe: provoca febre, dores de cabeça, membros doloridos. Os pacientes reclamam de vertigens e perda de consciência.

Os sintomas típicos da peste bubônica são os gânglios linfáticos inflamados, que aparecem como grandes inchaços sob as axilas, no pescoço e na virilha (bubões pestosos). Devido ao sangramento interno, os bubões mais tarde se tornam escuros, como um hematoma.

Se os patógenos da peste entram na corrente sanguínea - por exemplo, quando o bubão se abre internamente ou como resultado de lesões externas - ocorre a septicemia da peste. Esta forma de envenenamento do sangue é quase sempre fatal se não for tratada. 

No caso de peste pneumônica, ocorrem dificuldades respiratórias e uma tosse grave e dolorosa. Os lábios ficam azuis. No final, o sangue entra nos pulmões. Ao tossir, o sangue escuro é expelido. Após alguns dias, sem tratamento, há uma falha na circulação sanguínea. O paciente morre.

Antibiótico

Desde o desenvolvimento do anibiótico estreptomicina, em 1943, os médicos têm em suas mãos um remédio eficaz contra o patógeno da peste. Mas mesmo antes disso, já havia longos períodos em que quase não havia mais casos de peste após uma epidemia. Esses períodos também podem durar décadas ou mesmo séculos.

Uma razão para isso pode ser que as pessoas possam desenvolver imunidade após uma infecção inicial relativamente leve.

Várias campanhas de vacinação contra a peste também são baseadas nisso. Elas existem desde o início do século 20. No entanto, elas são pouco utilizadas na prática porque só são eficazes por alguns meses. Além disso, funcionam apenas contra a peste bubônica, não contra a peste pneumônica. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda a vacinação somente para grupos de risco, como caçadores ou agricultores em áreas onde vivem roedores infectados.

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