″A pandemia mostra coisas que a UE precisa aprender″ | Notícias internacionais e análises | DW | 02.05.2020

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Entrevista

"A pandemia mostra coisas que a UE precisa aprender"

Em entrevista à DW, às vésperas de conferência mundial sobre a crise do coronavírus, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, enumera os atuais desafios econômicos, médicos e democráticos à UE.

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia: "Vacinas de covid-19 devem ser acessíveis a todos por preço justo e acessível"

Numa conferência de doadores nesta segunda-feira (04/05), a União Europeia tentará, juntamente com parceiros de todo o mundo, angariar a soma de 7,5 bilhões de euros, destinados ao desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus Sars-cov-2 e ao teste de terapias contra a covid-19.

À frente das negociações estará Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, o mais alto órgão administrativo da UE. Antes de assumir o cargo, em dezembro de 2019, a democrata-cristã alemã de 61 anos foi ministra da Defesa no gabinete de Angela Merkel.

Em entrevista à DW, a também médica licenciada defende que as vacinas sejam acessíveis a todos "por um preço justo e acessível". Ela traça um quadro dos desafios econômicos, médicos e aos valores democráticos com que a pandemia confronta o bloco europeu, mostrando-lhe "coisas que precisamos aprender".

No entanto, Von der Leyen também destaca aspectos positivos, como as crescentes manifestações de solidariedade entre os países: "Há muitos exemplos disso, é uma coisa boa de ver."

DW: Qual é sua principal meta, na conferência de doadores de 4 de maio?

Ursula von der Leyen: É muito importante para nós encontrar em conjunto uma resposta forte para o coronavírus, que não conhece fronteiras, nem nacionalidades. Só podemos combatê-lo com vacinas, por isso é preciso agir de forma global e coordenada, para evitar que só os que podem pagar se lancem sobre a vacina quando ela for desenvolvida um dia.

Começamos a procurar a vacina coordenadamente, mas agora também temos que prover os meios de produzi-la, quando a tivermos – vão ser necessários "zilhões" de doses. E aí temos que garantir que ela seja distribuída em todos os cantos do mundo por um preço justo e acessível.

Estamos trabalhando por isso, e para tal precisamos de dinheiro. Temos agora uma rede global, e na segunda-feira utilizaremos a conferência de contribuintes para reunir 7,5 bilhões de euros. Isso é só o começo; acho que, com o tempo, vamos precisar de mais.

A senhora diz ser necessário um preço justo e acessível. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, vai um passo mais longe, no tocante à distribuição da vacina, ao dizer que ela deve pertencer a todo o mundo, não a Estados, regiões ou firmas. A senhora apoiaria isso? A vacina pertence à humanidade?

Claro que todos devem ter acesso a essa vacina. Por isso temos a bordo todos os participantes necessários, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Fundação Melinda e Bill Gates, o Welcome Trust, os United Global Funds, para só citar alguns. Temos apoio de muitas, muitas nações. Levei essa iniciativa ao G20 [grupo das 20 principais potências econômicas]. Isso é necessário para poder perseguir uma abordagem realmente global e coordenada.

A economia da União Europeia sofreu um impacto realmente duro. Há muitas advertências de que ela estaria empreendendo pouco e tarde demais. A senhora tenta no momento obter o financiamento de um fundo de reconstrução para a UE. No entanto ainda não existe um plano concreto. Qual é o grau de urgência?

De início, nós – a UE e os Estados-membros – mobilizamos a quantia de 3,4 trilhões de euros para a crise aguda. A aplicação das ajudas estatais foi flexibilizada, assim como todos os fundos europeus disponíveis. Criamos um programa para manter os cidadãos empregados: eles recebem salários reduzidos, para que empresas – em si, saudáveis – possam dar partida assim que a economia volte a tomar impulso.

Mas o senhor tem razão: precisamos de um instrumento grande para a reconstrução. Para isso propusemos trabalhar com o orçamento de sete anos da UE, ampliado com um instrumento de reconstrução, semelhante a um Plano Marshall. Podemos implementar isso com o orçamento e repassar aos países-membros. Trata-se de um instrumento para investimentos e solidariedade financiado por todos os 27 países. Estamos trabalhando nele com a importante ajuda do Conselho Europeu. É um empreendimento gigantesco, mas estou segura de que vamos realizá-lo.

Há países meridionais, como a Itália e a Espanha, que exigem subvenções e títulos de dívida comuns, "coronabonds". Estados como a Alemanha e a Holanda se opõem. Como será esse instrumento, o que ele conterá?

No instrumento como um todo, teremos certamente um bom equilíbrio entre subvenções e créditos. Vamos precisar negociar com os 27 Estados-membros, mas é importante que todos já tenham concordado em trilhar esse caminho. Então, no momento estamos trabalhando simultaneamente no orçamento de sete anos e num instrumento de reconstrução suplementar.

Trata-se de uma medida forte. É claro que precisamos falar sobre os detalhes e programas específicos, sob medida – mas assim é numa democracia. Porém todos concordam que se ver apoiar os países mais afetados pelo vírus e por suas consequências econômicas.

Outro tema recorrente na crise do coronavírus são os valores e princípios europeus. A senhora se preocupa que a crise na UE possa ser usada para restringir os direitos democráticos, por exemplo, na Hungria?

Vinte países da UE adotaram medidas extraordinárias, o que é correto numa crise, pois é preciso ser rápido e agir. Porém as medidas devem ser proporcionais e por prazo limitado, está bem claro, e ser democraticamente avaliadas. Estamos prestando muita atenção à implementação de medidas, quando se trata, por exemplo, de liberdade de expressão ou de imprensa. Estamos prontos a intervir imediatamente, se algo não for proporcional ou por tempo limitado.

Quando, em 30 de março, a Hungria aprovou o estado de exceção, a senhora disse que a crise do coronavírus não podia ser pretexto para cercear a democracia, mas sem mencionar expressamente esse país, e foi criticada por isso. Hoje lamenta não ter citado a Hungria pelo nome?

Para nós, é importante julgar cada Estado-membro da mesma maneira. É fato que já tivemos experiências difíceis com a Hungria. Vamos examinar tudo cuidadosamente, mas também precisa haver justiça entre os membros. Nossa ambição de preservar os direitos fundamentais na UE e de sermos a guardiã dos acordos só funciona se nos comportarmos de maneira absolutamente neutra perante os países. Contudo, precisamos estar prontos a agir se algo dá errado. Digo com toda clareza: vamos intervir, se notarmos que as medidas não são pertinentes.

Quando, na qualidade de médica, a senhora olha a situação no mundo e na Europa, sente-se às vezes consternada ou devastada?

A crise do coronavírus é avassaladora, mas ela também tem outros aspectos. Por um lado, nos mostra coisas que temos de aprender. Precisamos de um intercâmbio muito melhor de dados médicos na UE, mas também em âmbito mundial, para estar mais bem preparados.

Além disso, percebemos como é importante ter sistemas de saúde eficazes, capazes de enfrentar choques e crises como estes. Precisamos ampliar a capacidade de adquirir, armazenar e distribuir conjuntamente na Europa artigos médicos indispensáveis, como vestes protetoras e respiradores artificiais.

O outro lado bom que vimos nas últimas semanas, foi o enorme aumento da solidariedade. Temos médicos poloneses e romenos que foram para a Itália; esta partilhou os testes do vírus com outros países-membros; a França transferiu pacientes para a Alemanha e a Áustria, enviou máscaras [de proteção] à Espanha e Itália. Há muitos desses exemplos de solidariedade, é uma coisa boa de ver.

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