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A Marinha e o medo dos dragões do mar

Ynae Lopes dos Santos
Ynaê Lopes dos Santos
9 de maio de 2024

João Cândido e outros marinheiros pagaram pela ousadia de exigirem seus direitos. Por que, mais de 100 anos depois da Revolta de Chibata, a Marinha ainda tem medo de um homem negro que lutou pelo fim de castigos físicos?

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Estátua de João Cândido, o Almirante Negro,
João Cândido, o Almirante Negro, foi homenageado em 2008 com uma estátua na Praça XV, no Rio de JaneiroFoto: Fernando Souza/Zumapress/picture alliance

Opróbio.

Essa é uma palavra muito pouco usado na língua portuguesa, que significa "grande desonra pública", "degradação social", "vexame".

No último dia 29 de abril, o almirante Marcos Olsen, comandante da Marinha brasileira, utilizou essa palavra para se referir a João Cândido, o líder da Revolta da Chibata.

O comandante também classificou como "abjetos” os demais marinheiros que participaram de revolta de 1910, não deixando dúvidas que o discurso oficial da Marinha do Brasil segue enxergando a Revolta da Chibata unicamente como um caso de violação à hierarquia e à disciplina imposta dentro da instituição.

Uma visão de cima para baixo, que se recusa a aceitar que aqueles que estão em situações de subalternidade foram e seguem sendo protagonistas de transformações históricas importantes, sobretudo quando estão vivendo situações-limite.

Herói da Pátria

O tom difamatório adotado pelo almirante Marcos Olsen se deve à possível aprovação de João Cândido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, que desde 2018 tramita no Congresso Nacional, graças a um projeto de lei do ex-senador e hoje deputado Lindbergh Farias (PT-RJ).

Criado em 1992, o Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria (também conhecido como Livro de Aço, pois suas páginas são feitas com o material) tem como objetivo reunir homens e mulheres que dedicaram suas vidas à defesa da democracia e da liberdade no Brasil. Até janeiro de 2024, o livro reunia 71 nomes de personalidades e grupos desde o período colonial até a experiência democrática mais recente.

Pois bem, a posição oficial da Marinha do Brasil é contrária à entrada de João Cândido Felisberto, uma postura que diz muito sobre o que eles entendem como democracia e liberdade – e quem pode usufruí-las.

Como dito, Joao Cândido foi o líder da Revolta da Chibata, um motim que ocorreu entre os dias 22 e 27 de novembro de 1910 em embarcações da Marinha que estavam atracadas na Baía de Guanabara. A principal reinvindicação dos revoltosos, homens negros e mestiços na sua maioria, era o fim de castigos físicos impostos a marinheiros de baixa patente, que frequentemente recebiam chibatadas por eventuais erros cometidos no trabalho.

É importante lembrar que em 1910 o Brasil não tinha mais escravidão (abolida em 1888) e já era um país republicano no qual o exercício da cidadania era relativamente amplo. Em última instância, o que João Cândido e os demais revoltosos fizeram foi exigir que eles pudessem, de fato, viver no Brasil de então, tendo sua integridade física resguardada.

Os meandros dessa revolta nos ajudam muito a entender os projetos de Brasil que estavam em jogo naquele momento. E para quem quiser mergulhar no assunto, sugiro a leitura dos trabalhos de Álvaro Nascimento e Silvia Capanema.

Aqui vou me ater a duas questões. A primeira é a ordenação racial dessa Revolta: marinheiros de baixa patente negros e mestiços que se insurgiram contra os castigos físicos que recebiam dos seus comandantes – homens brancos na sua imensa maioria.

A segunda foram os desfechos do motim: por um lado, a Marinha acelerou uma reforma militar em 1911, que melhorou a condição de vida e de trabalho nas Forças Armadas; por outro, João Cândido foi preso, expulso da Marinha (além de ter sido internado no Hospício Nacional) e teve uma vida de grandes privações, sobrevivendo do trabalho da estiva e da venda de peixe na Praça XV (centro do Rio de Janeiro).

Herói popular

Para mim a equação parece muito evidente: João Cândido e outros marinheiros negros envolvidos na Revolta pagaram em vida pela ousadia de exigirem seus direitos de cidadãos brasileiros. Uma exigência que trouxe melhorias e benefícios institucionais para a Marinha brasileira, mas que eles não puderam experimentar, ainda que tenham sido responsáveis diretos por elas.

Não se trata de aceitar ou não que João Cândido seja um herói nacional, pois como bem disse seu filho Adalberto Cândido, ele já é um herói popular, com a vida sua figura materializada numa estátua no centro do Rio de Janeiro, contada em livros e cantada e em sambas enredos e por importantes vozes da MPB,  a ponto de João Cândido também atender pela alcunha de Almirante Negro, o dragão do mar que reapareceu.

A questão é: por que, mais de 100 anos depois da Revolta de Chibata, a Marinha ainda tem medo de um homem negro, filho de ventre livre, que lutou pelo fim de chibatadas?  O que mete medo, nos dias de hoje, nas lutas por liberdade feitas pelos dragões do mar de outrora?

Afinal de contas: com quem está a desonra pública e a degradação social nessa história toda?

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Mestre e doutora em História Social pela USP, Ynaê Lopes dos Santos é professora de História das Américas na UFF. É autora dos livros Além da Senzala. Arranjos Escravos de Moradia no Rio de Janeiro (Hucitec 2010), História da África e do Brasil Afrodescendente (Pallas, 2017), Juliano Moreira: médico negro na fundação da psiquiatria do Brasil (EDUFF, 2020) e Racismo brasileiro: Uma história da formação do país (Todavia, 2022), e também responsável pelo perfil do Instagram @nossos_passos_vem_de_longe.

O texto reflete a opinião da autora, não necessariamente a da DW.

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Ynaê Lopes dos Santos defende que não há como entender o Brasil e as Américas sem analisar a estrutura racial que edifica essas localidades; e que a educação tem um papel fundamental na luta antirracista.