A Jamairia de Kadafi: um sistema de poder perto do fim | Notícias internacionais e análises | DW | 23.02.2011
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Mundo

A Jamairia de Kadafi: um sistema de poder perto do fim

Oficialmente ele não é presidente, mas líder revolucionário: a Jamairia, o tipo de Estado inventado pelo ditador Muammar Kadafi para a Líbia, enfrenta o seu ocaso.

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Kadafi em foto de 2008

Mais uma vez – talvez pela última – o ditador líbio Muammar Kadafi exibiu, nesta terça-feira (22/02), em seu discurso televisivo, aquela característica mistura de radicalismo, loucura e esperteza simplória a que seu país e o mundo tiveram que se acostumar, nos seus quase 42 anos de regime.

Um dos argumentos centrais era: ele não ocupa um cargo no governo, não é "presidente", mas sim "líder revolucionário". Por isso, não pode renunciar a um posto. Assim, Kadafi apontou mais uma vez para o que um de seus filhos, Saif el-Islam, ventilara, dois dias antes: a Líbia não é o Egito nem a Tunísia. E Kadafi não é um líder como os outros.

A Jamairia

O chefe de Estado mais antigo no poder – independentemente de como ele se veja ou se apresente – é produto de uma antiquíssima sociedade de clãs e tribos. Assim como o era o rei Idris, que Kadafi derrubou em 1969, após 18 anos de reinado. E é, sem dúvida, mérito de Kadafi haver mantido coesa essa sociedade marcada por interesses multifacetados e díspares.

O integrante da pequena tribo kadafa conseguiu isso por meio de alianças e da participação inteligente de outras tribos no poder. Ao mesmo tempo, Kadafi cuidou de posicionar a si próprio e alguns poucos fiéis de primeira hora na supostamente intocável posição de "líderes revolucionários", pela qual os demais ditadores árabes certamente o invejam. Pois eles têm – ou tinham, dependendo do caso – que mudar as leis eleitorais de anos em anos, ou falsificar as eleições, a fim de se manter no poder.

Kadafi jamais precisou se rebaixar a tanto. Em vez disso, ele criou uma nova forma de Estado em 1977, decretando a "liderança das massas" no que chamou de Jamairia, termo cunhado por ele e que significa algo como "república popular". Comitês populares nos mais diversos níveis simulavam uma democracia de base para os 6,3 milhões de líbios. Porém, na realidade, há muito a Líbia se tornara uma ditadura, sem partidos, sem oposição e sem imprensa livre.

Flash Galerie Ansprache Gaddafi

Em discurso, Kadafi ameaçou seu povo com uma 'carnificina'

Ocaso de um regime

Depois que se distanciou do apoio aberto ao terrorismo, revelando o início de um programa atômico e interrompendo-o, o excêntrico líder passou a circular na Europa, e os Estados Unidos também pareceram aceitá-lo. A situação na própria Líbia aparentemente não interessava a ninguém. Importante era o livre fluxo de petróleo e gás natural, os investimentos no país e a cooperação de Kadafi para conter o afluxo de imigrantes africanos à Europa.

Na política interna, o líder líbio soube diluir a insatisfação crescente dos jovens através de presentes, como a concessão de moradias. Porém nas tribos se adensava uma resistência que, no decorrer dos anos, levou a confrontações armadas e a amplas ondas de prisões.

Libyen Soldaten

Forças de segurança são trunfo do regime

Diante de uma população de 6,3 milhões, o aparato de segurança mantido por Kadafi é relativamente grande: Forças Armadas, polícia, serviço de segurança e serviço secreto abarcam quase 140 mil pessoas. Com elas, o líder de 68 anos crê poder esmagar a atual revolta dos "ratos e drogados", como depreciativamente denomina os manifestantes.

No momento, contudo, parte das forças de segurança já se distanciou dele. Só assim foi possível Kadafi perder o controle sobre a cidade de Bengasi e a região de Cirenaica, no nordeste do país. Também em outras regiões, integrantes das forças de segurança consideram mudar de lado – um passo que diversos diplomatas e até mesmo os ministros do Interior e da Justiça já deram.

Autor: Peter Philipp (av)
Revisão: Alexandre Schossler

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