A hipocrisia climática norueguesa | Meio Ambiente | DW | 18.08.2017
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Meio Ambiente

A hipocrisia climática norueguesa

A Noruega se vende como a vanguarda no combate ao aquecimento global. Mas estudo desafia essa reputação: país cada vez mais exporta petróleo e gás, e aumento na exploração no Ártico deve elevar emissões em 150%.

Norwegen Tromso Öl Industrie Küstenwache (DW/Irene Quaile)

Indústria petrolífera gera empregos na região de Tromso

Nas cúpulas anuais das Nações Unidas sobre o clima, a Noruega é frequentemente a queridinha da sala.

Embora seja um país produtor de energia, os noruegueses fazem questão de enfatizar as medidas ousadas de redução de emissões. Por lei, o país estipulou chegar à neutralidade climática em 2030 – muito mais cedo que outros. Está na vanguarda da eletromobilidade – e também vai banir o uso do combustível fóssil no aquecimento de edifícios a partir de 2020.

No entanto, um novo relatório da organização Oil Change International, baseada em Washington, está desafiando a reputação da Noruega como campeã do clima.

Embora esteja adotando louvados esforços de redução de emissões em casa, o país está exportando uma quantidade dez vezes maior que suas emissões domésticas, através da extração e exportação de petróleo e gás natural do Mar do Norte.

A Noruega é o sexto maior produtor de gás natural e 15° maior produtor de petróleo do mundo.

Crescente exploração petrolífera

O que mais preocupa a Amigos da Terra Noruega, sociedade de preservação da natureza que patrocinou o relatório, é que essas exportações deverão aumentar.

Oslo está vendendo em ritmo rápido licenças para exploração de petróleo e gás natural em seus territórios no Mar do Norte e no Ártico. Segundo o relatório, com esses novos campos de combustíveis fósseis, as emissões de carbono norueguesas aumentariam em 150% em relação aos números de hoje.

Norwegische Bohrplattform (picture-alliance/dpa/O. Hagen)

Noruega empreende intensa prospecção de petróleo no Mar do Norte

"A Noruega quer ser líder em matéria de clima – mais toda venda de concessão, toda nova peça de infraestrutura para o combustível fóssil e toda expansão que leve à queima de carbono em outros lugares aponta para outro caminho", afirma Silja Ask, da Amigos da Terra.

O relatório representa o primeiro cálculo do planejado alargamento da extração de petróleo e gás natural da Noruega, comparado com os objetivos do Acordo de Paris. A pesquisa afirmou que 12 gigatoneladas de carbono a mais poderiam provir de sítios de exploração no Mar de Barents e em outras partes do Ártico ao longo dos próximos 50 anos. Os planos são incompatíveis com os objetivos do acordo climático de Paris, que pretende limitar o aquecimento global a não mais de 2°C.

O olhar sobre as políticas de petróleo da Noruega vem em hora estratégica, apenas um mês antes das eleições gerais. O relatório apela ao novo governo para que congele as concessões ou permissões de novos projetos de extração de petróleo e gás natural, ou de infraestrutura de transporte que iria incentivar novas explorações.

O "bom produtor"

A Noruega insistiu por muito tempo que as contínuas extrações em seus territórios – particularmente de gás natural – estão de acordo com a estratégia de redução global de emissões porque o gás norueguês emite muito menos emissões que o petróleo do Oriente Médio.

"Este relatório assume que a produção reduzida na Noruega levará a uma queda nas encomendas de petróleo e gás no mesmo montante que produzimos", afirma Tommy Hansen, diretor de política industrial da Associação de Petróleo e Gás da Noruega.

Para ele, a quantidade de petróleo e gás natural que o mercado vai demandar estará em linha com o que a Agência Internacional de Energia está prevendo. Hansen diz que a pergunta é: quem vai produzir esse petróleo e gás natural? "Acreditamos que há uma série de razões pelas quais a Noruega deveria ser um dos países a produzi-los."

Uma das razões é que o gás natural, responsável pela maior parte das exportações norueguesas de combustível fóssil, é uma fonte de energia muito mais limpa do que o petróleo ou o carvão. O aumento de importações de gás norueguês permitiu aos vizinhos europeus diminuir suas emissões ao usar menos petróleo e carvão – como foi o caso do Reino Unido.

Norwegen Fjord (Getty Images/AFP/O. Morin)

Oslo emitiu licenças de exploração no arquipélago Lofoten, dentro do Círculo Ártico

"No início do ano que vem, o Reino Unido terá um dia livre de carvão pela primeira vez desde 1892 – e a razão de poder fazê-lo está no gás norueguês, que emite metade das emissões de carvão", informa Hansen.

A outra razão por que a Noruega acredita que deve continuar a produzir é porque diz fazê-lo da forma mais limpa possível, seguindo as restrições mais rígidas e que não existem em outros países produtores.

"O mundo precisa de energia – e a Noruega produz recursos de petróleo e gás de forma muito eficiente", diz Jens Frolich Holte, assessor político do ministro responsável pela pasta do Clima e Meio ambiente da Noruega.

Holte ressalta que a Noruega obedece ao Esquema de Comércio de Emissões da União Europeia, e que os produtores estão, portanto, sujeitos a uma tarifa de CO2 de 50 euros por tonelada. Isso incentiva a produção a ser bem eficiente, explicou.

"Temos regras muito rigorosas sobre as emissões provenientes da produção de petróleo", afirma o assessor. Segundo ele, 95% do gás norueguês são exportados para a Europa – para "países que estão sujeitos a um regime muito rigoroso de proteção climática."

Holte também diz que as políticas de longo prazo de redução de emissões da Noruega levam adiante a desistência dos combustíveis fósseis.

Invasões do Ártico

O relatório contraria esse argumento, afirmando que os esforços contínuos de extração por parte da Noruega estão prejudicando o esforço global para livrar o mundo do petróleo e gás. O documento desperta a particular atenção para os planos de prospecção de petróleo no Ártico. "Muitos desses desenvolvimentos propostos fomentam mais mudanças no frágil e remoto Ártico (...) onde um vazamento seria catastrófico", adverte o estudo.

No ano passado, Oslo emitiu 56 novas licenças para permitir que 36 companhias explorassem próximo às Ilhas Lofoten – lar de uma das maiores populações de bacalhau. Stateoil, a companhia nacional de petróleo, também planeja gastar 6 bilhões de dólares no desenvolvimento do campo Castberg, uma extensão do Oceano Ártico para o norte do país que poderia conter até 650 milhões de barris de óleo equivalente.

No entanto, muito dessa exploração está pendente, aguardando a eleição de 11 de setembro – particularmente qualquer atividade extrativa nas Ilhas Lofoten. Até agora, a primeira-ministra conservadora Erna Solberg não se convenceu do argumento de que a Noruega deveria parar a extração. Mas grupos ambientalistas esperam que o governo sucessor possa ser mais aberto à mensagem.

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