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A guerra na Ucrânia e a mudança de paradigma da Alemanha

Matthias von Hein | Christoph Hasselbach
24 de agosto de 2022

Os seis meses desde o começo da invasão da Ucrânia pelos russos transformam também o perfil da Alemanha. Começa uma época de certezas esfaceladas, tabus políticos descartados e da necessidade de reavaliar o mundo.

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Em primeiro plano, fora de foco, presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, com premiê da Alemanha, Olaf Scholz, em monitor ao fundo
Conflito no Leste Europeu obriga Berlim a abrir novo capítulo da história nacionalFoto: Ukrainian Presidential Press Service via REUTERS

Por vezes, grandes mudanças se manifestam em coisas pequenas. Como num clip de 30 segundos, o primeiro vídeo promocional da Bundeswehr (Forças Armadas alemãs) em cinco anos, lançado no YouTube no começo de agosto. Nos primeiros 17 segundos, veem-se soldados uniformizados em situações quotidianas: brincando com os filhos, comprando jornal na banca, passeando pela cidade.

Só nos últimos 13 segundos se enfoca o aspecto action da vida militar, à maneira do filme Top Gun - Ases indomáveis, com jatos de combate realizando manobras de voo mirabolantes, navios de guerra em alto-mar, soldados descendo de helicópteros pendurados por cabos, sob o slogan "Protegendo a Alemanha".

Duas guerras e duas ditaduras no século 20 fizeram que se desenvolvesse no país uma profunda desconfiança em relação aos militares. Atualmente uniformes não fazem parte da paisagem do dia a dia. O fato de soldados serem apresentados como presença perfeitamente normal pode ser compreendido como sinal de uma virada tectônica: em consequência da guerra na Ucrânia, a Alemanha faz as pazes com as Forças Armadas – e se arma para conflitos futuros.

A palavra mágica: zeitenwende

Quem preparou o solo para tal foi o chanceler federal Olaf Scholz, três dias após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Em 27 de fevereiro, num discurso programático que despertou grande atenção, o chefe de governo social-democrata não só constatava uma zeitenwende (mudança de era ou paradigma, ponto de inflexão), mas também tirava consequências práticas: negligenciada há décadas, a Bundeswehr seria recauchutada com uma verba especial de 100 bilhões de euros para aquisições mais urgentes.

A meta da Otan, já anunciada em 2014 – em reação à anexação da Crimeia pela Rússia! –, de que os países-membros dedicassem pelo menos 2% de seu PIB para gastos militares, deverá ser mantida em caráter permanente. Assim, o orçamento armamentista alemão será o maior da Europa, e Scholz prometeu defender cada centímetro do território da Otan.

Seis meses depois, o especialista em assuntos americanos Josef Braml constata: "A palavra 'zeitenwende' colocou Washington em alerta, e o governo alemão cumpriu o que prometeu. O que deve ter agradado em especial os americanos é o fato de a Alemanha gastar grande parte da soma na companhia Lockheed Martin e comprar caças do tipo F35. Uma solução extremamente cara, e assim o país estará tecnologicamente preso por décadas e, portanto, dependente dos Estados Unidos nesse aspecto."

Tanque de guerra Leopard 2 A4
Fornecimento de armas para zonas de conflito foi tabu para Alemanha durante décadasFoto: Csaba Krizsan/dpa

Vacas sagradas no matadouro da realpolitik

A coalizão social-democrata, verde e liberal acabara de assumir Berlim em dezembro de 2021, tendo como ambicioso lema "Ousar mais progresso". Desde então, porém, guerra e crises obrigaram o governo a sacrificar, no matadouro da realpolitik, um rebanho inteiro de vacas sagradas dos templos das centrais partidárias.

Devido à redução do fornecimento de energia russa, ninguém menos que o verde Robert Habeck, ministro da Economia e Proteção Climática, é forçado a recolocar em funcionamento usinas a carvão desativadas – uma enorme quebra de tabu, causando altas emissões de CO2.

Possivelmente o também vice-chefe de governo terá até mesmo que prolongar a vida de usinas nucleares. Originalmente, os últimos três reatores alemães deveriam ser desligados no fim de 2022, no âmbito do abandono da energia atômica por motivos políticos – uma questão sentimental para os verdes.

Também o Partido Social-Democrata (SPD) tem tido que submeter seus membros a guinadas até pouco antes impensáveis. Num discurso no fim de junho, seu copresidente Lars Klingbeil não só formulou uma prerrogativa alemã à liderança na Europa, como admitiu abertamente: "Política de paz significa para mim também ver a força militar como um recurso legítimo da política." Duro golpe para uma legenda tradicionalmente inclinada a defender o desarmamento.

Súbito é possível exportar armas também para regiões de crise. Sobretudo os verdes antes condenavam severa e repetidamente as exportações para países como, por exemplo, a Arábia Saudita. Agora eles pressionam para que se forneçam também armamentos pesados à Ucrânia, o mais rápido possível. Nesse ponto, SPD igualmente deu uma guinada, embora não tão dramática, pois sua forte ala esquerdista segue freando esses fornecimentos.

Diante a histórica mudança de paradigma, o cientista político Volker Kronenberg diagnostica uma anulação da aritmética política usual, e, portanto, também uma chance de traçar caminhos novos. "Esse choque criou um impulso onde há muito espaço para a configuração de políticas. Tais épocas de crise são a hora e a vez do Executivo."

Prosperidade em pedestal de barro

Enquanto isso, no exterior há quem esfregue os olhos de incredulidade. Em meados de agosto, a revista britânica The Economist anunciava em sua capa "A Nova Alemanha", a ilustração mostrava uma águia, símbolo nacional, que saía do ovo exibindo os músculos.

A guerra na Ucrânia teria acordado um país autocomplacente e indulgente, analisavam os autores, torcendo por uma Alemanha "mais forte, mais corajosa e mais decidida, que assuma a liderança de uma Europa mais fortemente unida".

O politólogo Kronenberg explicita as diferentes expectativas e perspectivas dos observadores de fora: "Nos EUA ou na França, registra-se com boa vontade o que foi alcançado. Vê-se de forma positiva que Berlim reconheça as necessidades e realidades, finalmente deixando para trás essa reticência melindrosa em relação à defesa e às necessidades e imposições da política de segurança." Por outro lado, ressalva, na Europa Central e Oriental "se desejaria mais disso e talvez também mais depressa".

Sob a lupa das crises, os erros do passado se revelam com nitidez exagerada, a digitalização lenta trava a economia e a administração; a já crônica inconstância da rede ferroviária é apenas um exemplo de anos de negligência da infraestrutura. Acima de tudo, porém, fica óbvio como são de barro os pés da prosperidade alemã.

Contêineres marcados
Dependência comercial excessiva da China preocupa BerlimFoto: Justin Sullivan/Getty Images

Retrocesso inevitável da globalização?

Simplificando fortemente, o modelo econômico alemão dos últimos anos funcionava assim: com grandes volumes de energia barata da Rússia, produtos primários da China eram transformados em artigos de alta qualidade e exportados – principalmente para a China.

A potência asiática é a principal parceira comercial da Alemanha, setores econômicos inteiros dependem de seu mercado, as cadeias de suprimento de outros setores dependem dos fornecedores chineses.

Um pilar do sistema já vacila: o comércio com a Rússia foi reduzido drasticamente por diversos pacotes de sanções da União Europeia, cada vez fluem menos insumos como gás, petróleo e carvão mineral para a Alemanha, que antes da guerra na Ucrânia importava da Rússia a metade de sua demanda de gás natural.

Atualmente remaneja-se, poupa-se; o chanceler federal e o ministro da Economia buscam por todo o mundo novas fontes de energia. Política, empresariado e população antecipam com apreensão o próximo inverno – quando se constatará de forma implacável se o que se conseguiu bastará, e o que esperar da solidariedade em âmbito nacional e europeu.

O segundo pilar, o comércio com a China, ainda resiste, porém cresce o mal-estar com a dependência do mercado chinês. Por pressão dos EUA e sob o conceito de decoupling, desacoplamento, começa uma espécie de retrocesso da globalização. Formam-se novos blocos, sob insígnia chinesa ou ocidental, o que dificultará ainda mais fazer negócios com todos os lados.

Diante da abundância de crises e conflitos atuais e ameaçadores, Berlim começa a elaborar uma estratégia de segurança nacional. Um fato inédito, pois até agora o país não considerara necessário clarificar suas metas e caminhos geoestratégicos.

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