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A genética por trás da amizade

Charli Shield rk
30 de julho de 2018

Raízes da amizade podem ser mais profundas do que a simples busca por pessoas parecidas para estabelecer relações sociais estreitas. Afinidade entre amigos pode ser explicada pelo DNA, apontam estudos.

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Mãos empilhadas
Cientistas descobriram que os cérebros de amigos reagem de forma parecidaFoto: picture-alliance/Bildagentur-online/Tetra Images

Durante muito tempo, cientistas reconheceram que amizades tendem a se formar com base em escolhas de pessoas que têm características em comum. Costuma-se optar por ser amiga ou amigo de quem tem idade, etnia, classe, nível educacional, aparência e até mesmo um aperto de mão parecidos com os próprios.

A prevalência da homofilia – tendência de fazer amizade com pessoas com quem se tenha a maior semelhança demográfica possível – já foi observada em várias comunidades no mundo inteiro, seja antigo ou moderno. Historicamente, os seres humanos sempre tenderam a formar relações próximas com pessoas que não lhes parecem tão estranhas.

Há mais de dois mil anos, Platão comentou em seu diálogo Fedro que a "similaridade gera amizade". E Aristóteles escreveu que "alguns a definem como uma questão de semelhança; dizem que amamos aqueles que são como nós: daí os provérbios 'o igual encontra seu igual' e 'pássaros da mesma plumagem voam juntos'."

No entanto, de acordo com um número crescente de pesquisas, você e seus amigos podem não apenas gostar da mesma comida e dos mesmos memes na internet, ser da mesma altura ou da mesma idade. Pesquisas recentes sugerem que o sinal de uma forte amizade também pode ser encontrado no DNA humano.

Segundo um estudo publicado na revista acadêmica Proceedings of the National Academy of Sciences, publicação oficial da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, semelhanças entre amigos podem ser observadas no plano genético.

"As pessoas encontram afinidades com outras que têm os mesmos fenótipos – o que se traduz em comportamentos, altura, índice de massa corporal, condições de saúde e vícios – e isso tende a nos classificar geneticamente", diz Dalton Conley, um dos autores do estudo.

Características genéticas

Pesquisadores das universidades Stanford, Duke e de Wisconsin realizaram uma série de comparações genéticas em 5.500 adolescentes e descobriram que pares de amigos tinham nitidamente mais semelhanças genéticas do que aqueles que não eram amigos.

Conley explica que a pesquisa foi importante para estabelecer se as características similares costumavam ser pré-existentes em amigos ou se se tratava de um caso de seres humanos sendo altamente influenciados uns pelos outros.

"Quando vemos crianças que são parecidas se agrupando, não dá para saber realmente – à parte desse estudo – se é porque elas se influenciam mutuamente ou se apenas selecionamos uns aos outros como amigos porque os dois têm esses traços", pondera.

"Os genes fornecem uma boa medida para nos questionarmos sobre o quanto, em termos de seleção, acontece no plano genético. As pessoas se influenciam mutuamente através da pressão dos pares – por exemplo, se você fuma, eu fumo, ou se você estuda muito, eu também estudo muito – ou escolhermos nossos amigos porque já compartilhamos desses valores?", pergunta o professor.

A genética semelhante entre amigos não é um indicador de "algo mágico acontecendo no plano molecular" que nos obriga a fazer amizade com certas pessoas, continua Conley. As pessoas enxergam essa semelhança genética quando selecionam seu círculo de amizades pelo fato de "comportamentos complexos que tendemos a usar para nos classificar" – como retidão, disposição para arriscar e vícios, por exemplo – terem uma base genética. 

Cérebros parecidos

Pessoas que são amigas não apresentam apenas similaridades genéticas: cientistas descobriram que os cérebros de amigos também reagem de forma notavelmente parecida.

Um estudo de neurociência publicado na revista Nature Communications examinou a atividade neural de 42 pessoas que assistiram a vídeos curtos e descobriu que, quanto mais próximos os amigos, mais parecidas são as respostas neurais das pessoas.

Os clipes variavam em termos de conteúdo, que ia de comédia e música a política e espaço – apresentando, entre outros, um vídeo de um casamento gay judaico, um clipe sobre o comportamento da água no espaço e um documentário satírico australiano.

Os estudiosos repararam que pessoas com relações sociais próximas tendiam a ficar animadas, enfurecidas, entediadas, envolvidas e excitadas nos mesmos momentos, mesmo depois de se monitorarem fatores que poderiam aumentar respostas parecidas, como idade, gênero, nacionalidade e etnia.

A congruência nos padrões de resposta foi tão forte que os pesquisadores descobriram que poderiam prever o grau da relação entre duas pessoas apenas analisando como seus cérebros reagiam durante os vídeos.

"O resultado é surpreendente. Ele sugere que o próprio circuito neural do cérebro é condicionado – e achamos que, com o tempo, fica cada vez mais condicionado – a encorajar a homofilia", disse à DW outro autor do estudo, Adam Kleinbaum.

"E esse resultado, juntamente com outros estudos, sugere que as redes de relações sociais são tão fundamentais para a sobrevivência do ser humano que a evolução chegou a selecionar uma habilidade de reconhecer a nossa posição nessas redes e favorecer conexões com a nossa própria 'tribo'", apontou.

Afinal, a descoberta explica por que seres humanos tendem a formar vínculos emocionais estreitos com os membros de um grupo parecido ou é apenas mais um exemplo da grande quantidade de semelhanças que amigos parecem dividir uns com os outros? Segundo Kleinbaum, são "as duas coisas".

"A semelhança neural explica alguns dos efeitos da semelhança demográfica – não surpreende que pessoas da mesma raça, gênero ou nacionalidade tenham mais tendência de pensar da mesma maneira –, mas também demonstra um efeito independente acima e além deste", diz o pesquisador.

Diz a sabedoria popular que "amigos são a família que escolhemos", e os estudos recentes indicam que o ditado pode ter mais profundidade do que se pensava.

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