″A favela não está em home office″ | Notícias e análises sobre os fatos mais relevantes do Brasil | DW | 24.06.2020
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages
Publicidade

Pandemia

"A favela não está em home office"

Líderes de favelas relatam preocupação com alta de casos de covid-19 e aumento da fome, apontando aprofundamento do "abismo" entre comunidades e o poder público. "Há mais pessoas precisando do mínimo para sobreviver."

Heliópolis, São Paulo

Heliópolis, São Paulo: 67% de líderes de favelas pelo Brasil identificaram fome e privação de alimentação

Os efeitos econômicos da pandemia da covid-19 ampliaram a fome e a insegurança alimentar em favelas brasileiras. Sem emprego, e em alguns casos sem conseguir receber o auxílio emergencial, muitos moradores dessas comunidades precisaram recorrer a doações para conseguir alimentos e convivem com a insegurança em relação a como sobreviverão nos próximos meses.

Um levantamento feito pela Rede de Pesquisa Solidária, que ouviu 79 líderes de comunidades vulneráveis das cinco regiões do país, aponta que 67% deles identificaram fome e privação de alimentação em suas comunidades, e 40% afirmaram que a doação de alimentos não é suficiente e tem problemas de coordenação. A Rede de Pesquisa Solidária reúne acadêmicos de diversas instituições de pesquisa engajados em analisar os efeitos socioeconômicos da pandemia, e as entrevistas foram feitas entre 25 de maio e 5 de junho.

"O que mais tem é gente passando fome e necessidade, geralmente mães solo que trabalhavam por diárias ou pessoas que atuam na reciclagem e tiveram suas rendas cortadas", afirma à DW Brasil José Antonio Campos Jardim, morador do Sul Pinheirinho, em Curitiba, e presidente da Central Única das Favelas (Cufa) do Paraná.

O problema é parcialmente minimizado pelas doações de alimentos e vales. Em meio à pandemia, a Cufa lançou a campanha Mães da Favela (maesdafavela.com.br) com o objetivo de aliviar o impacto da crise sobre as cerca de 5,2 milhões de mães que moram em favelas pelo país com cestas básicas físicas e "digitais" – quantia doada diretamente para as gestoras das famílias. Até o momento, já foram arrecadados mais de 11,5 milhões de reais.

Em Curitiba, além de distribuir 38 mil cestas básicas e 3 mil botijões de gás, a Cufa entregou um cartão com 240 reais para cerca de duas mil mães solteiras para compras ou pagamento de contas. Mas a população que mora em favelas na região metropolitana da capital paranaense é de cerca de 500 mil pessoas. "A demanda é muito grande", diz Jardim.

A situação é parecida em Campo Grande, afirma Lívia Lopes, moradora do bairro Caiobá e coordenadora da Cufa de Mato Grosso do Sul. "Há muitas pessoas passando fome. Aumentou o número de pessoas nas favelas e periferias precisando de cestas básicas e do mínimo para sobreviver", diz. Ela atua com uma equipe de dez pessoas, distribuindo alimentos, materiais de higiene e informação. Há 39 favelas na cidade.

Atuação da sociedade civil

Monise Picanço, pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e uma das coordenadoras do levantamento feito pela Rede de Pesquisa Solidária, afirma que o que mais chamou sua atenção na pesquisa foi "como a nossa sociedade civil é forte, a despeito de não ter recursos e de estar com dificuldade de conseguir cesta básica para todos".

"Há uma miríade de associações, desde equipes de futebol de várzea até líderes comunitários de bairro, tentando dar uma resposta para a crise", diz.

Entre os líderes que responderam ao questionário, 66% citaram a presença de entidades e associações locais agindo para tentar reduzir os efeitos socioeconômicos da pandemia. Entidades religiosas foram mencionadas por 15%, associações culturais por 13%, e entidades políticas, por 10%. Segundo a pesquisa, líderes comunitários questionaram a baixa participação de grandes empresas nas ações e "percebem muitas vezes a atuação política nos territórios como estratégia de autopromoção para as próximas eleições".

A atividade mais realizada por essas entidades é a arrecadação e distribuição de alimentos, citada por 70% dos respondentes, seguida pela arrecadação e doação de itens de higiene, limpeza e prevenção, mencionada por 43%.

O levantamento também identificou preocupação dos líderes com a falta de informações corretas sobre como agir para evitar o contágio pela covid-19: 33% dos participantes da pesquisa relataram ter desenvolvido ações educacionais e informativas com os moradores.

"Na questão da contaminação, muitas vezes a população não sabe em quem acreditar. As pessoas veem os nossos líderes [políticos] falando uma coisa, e a mídia falando outra. Aí acabam ficando perdidas, e a contaminação aumenta", diz Hebert Novaes, presidente da Cufa de Rondônia.

Em Curitiba, as ações da sociedade civil incluíram criar cartazes e faixas sobre a importância de higienizar as mãos e usar máscaras e distribuir panfletos informativos sobre a covid-19 nas moradias.

A ausência ou precariedade do poder público nas comunidades é outro ponto identificado pela pesquisa. Jardim, da Cufa do Paraná, diz haver "um abismo" entre Estado e favela. "A gente tenta construir pontes e derrubar muros, mas isso já é difícil no cotidiano normal. Com uma pandemia em curso, complica-se ainda mais", diz.

"A percepção dos líderes [sobre a presença do estado nas comunidades] é grave. Há tanto dificuldade de acesso à informação como para acessar serviços básicos, como saúde. Muitos relataram não ter acesso a políticas públicas, e que ninguém do Estado foi lá para ajudar", afirma Picanço, do Cebrap.

A falta do Estado também foi sentida na hora de auxiliar as pessoas carentes a se cadastrarem para receber a renda básica emergencial. Jardim relata que diversos moradores carentes não tinham celulares aptos a baixar o aplicativo da Caixa, ou não tinham acesso à internet ou conhecimento para preencher o formulário corretamente.

"Muitos preencheram errado, faltou a presença do Estado auxiliando as pessoas para que conseguissem se cadastrar", diz. Apesar dessa dificuldade, ele considera a renda emergencial uma "proposta boa" que deveria se estendida até pelo menos o final deste ano.

Preocupação com novos casos

Os três líderes comunitários ouvidos pela DW Brasil relataram estar preocupados com o recente aumento do número de casos e mortes nas favelas. "A favela não está em home office. Há porteiros, cozinheiros, que saem para trabalhar […] E, de uma forma geral, o número de contaminados e mortos [pela covid-19] vem aumentando", diz Jardim.

Novaes, de Rondônia, também relata aumento de casos nas favelas de Porto Velho, e muita dificuldade para pessoas com os sintomas típicos da covid-19 conseguirem ser atendidas e fazer o teste na rede pública de saúde, sinalizando alta subnotificação de casos.

Nesse momento, o relaxamento das medidas de isolamento veio para acumular mais riscos, diz Lopes, de Cuiabá. "Deu uma afrouxada no distanciamento. Muitos estão voltando aos empregos, e muitos que foram mandados embora estão procurando outro emprego ou tentando sobreviver com o próprio negócio, correndo atrás de algo que possa dar lucro. Tem muita gente nas ruas, o afrouxamento foi uma ideia equivocada. O número de casos vinha aumentando e tende a aumentar mais", diz.

______________

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas. Siga-nos no Facebook | Twitter | YouTube 
App | Instagram | Newsletter

Leia mais